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Volkswagen Gol e seu implacável destino: ser uma nova Kombi

A crise na indústria automobilística vai ser forte. Nesse cenário, a Volks poderia desistir do projeto do novo Gol. Não seria uma má ideia

8 abr 2020
17h09
atualizado às 17h48
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Dizem que Ayrton Senna ficou muito chateado quando finalmente realizou o seu sonho de pilotar para a equipe Williams na Fórmula 1, depois de anos de tentativas frustradas. Já nos primeiros testes, Ayrton sentiu que o carro não era tão bom como os modelos que haviam servido Alain Prost, Nigel Mansell e Nelson Piquet. Então, desabafou: “Logo na minha vez, cagaram no carro”. Trocando o piloto por um carro, essa parece ser a sina do Gol. Toda vez que a Volkswagen planeja uma mudança de geração no modelo, algo acontece e os planos são adiados. Estaria o Volkswagen Gol destinado a ser uma nova Kombi?

Volkswagen Gol: quinto lugar no ranking de vendas. Precisa mesmo mudar?
Volkswagen Gol: quinto lugar no ranking de vendas. Precisa mesmo mudar?
Foto: VW / Divulgação

É possível. Como sabemos, a Volkswagen tem planejado um novo ciclo de investimentos para começar logo depois do SUV cupê Nivus, que chega este ano e encerra o ciclo atual de R$ 7 bilhões. O projeto A0 envolve um carro que substituiria ao mesmo tempo o Gol e o Fox -- eventualmente até o Up. Visualmente, teria as linhas do conceito ID.Crozz. Comenta-se nos bastidores que talvez nem o nome Gol seja mantido. O fato é que o carro seria (ou será) um mix do Gol, do Fox e do rival Renault Kwid, que é mais elevado e cativou o público. A ideia seria colocá-lo abaixo do Polo. Porém, a crise que virá pós pandemia de Covid-19 será muito forte. Estimativas da indústria já falam até em 60% de queda nas vendas de carros este ano. Os moderados estimam 40% de perda e os otimistas projetam 25%.

Nesse cenário, é normal que todos os projetos sejam revistos. A própria Volkswagen já decidiu que não fará mais o desenvolvimento da nova Amarok em conjunto com a Ford Ranger na Argentina. O Projeto Cyclone virou vento. A Volks vai fazer mais uma reestilização na Amarok e, se for o caso, no futuro trará a nova geração da picape importada da Tailândia. Voltemos então ao caso do Gol. O carro está atualmente na terceira geração (lançada em 2008), que já passou por dois facelifts (2012 e 2016).

O Gol ainda é um bom carro e atende às necessidades da classe média.
O Gol ainda é um bom carro e atende às necessidades da classe média.
Foto: VW / Divulgação

Em 2013, quando o Gol ainda gozava do prestígio de ser o carro mais vendido do Brasil por 27 anos (1988 a 2013), o carro já estava desatualizado e precisava mudar, pois a concorrência tinha vindo com novos projetos, como Hyundai HB20 (2012), Chevrolet Onix (2013) e Ford Ka (2014). Porém, ao invés de ser modificado para valer, o Gol cedeu a vez para o lançamento do Up (2014). A segunda geração (Gol G4) foi aposentada para dar lugar ao Up e a terceira geração (Gol G5) ficou com a pequena atualização visual feita em 2012. Como era óbvio, as vendas despencaram. Entretanto, havia o projeto de lançar a nova geração do Gol em 2016.

Em 2016, o país estava numa crise econômica e política. Dilma Rousseff foi deposta da Presidência e mais uma vez o Gol recebeu apenas uma atualização -- a segunda da terceira geração. O carro ganhou motor de três cilindros, uma central multimídia mais moderna e a “promessa” de uma modificação profunda para a linha 2018. Era o novo Polo, que no Brasil se chamaria Gol, usando a força da marca. Porém, mais uma vez, a Volkswagen mudou de ideia e decidiu apostar suas fichas no Polo. Junto com isso houve um novo reposicionamento do Gol e do Up, que passaram os últimos anos trocando de posição.

O Gol é um ícone da Volkswagen e liderou o mercado de 1988 a 2013.
O Gol é um ícone da Volkswagen e liderou o mercado de 1988 a 2013.
Foto: VW / Divulgação

Agora chegou a vez do Gol novamente, depois de ter cedido a preferência para os lançamentos do Up (um fracasso de vendas) e do Polo (um enorme sucesso). Que será do Gol? Ganhará finalmente uma nova geração? Vale dizer que o Up (mais uma vez!) será reposicionado, dessa vez para baixo, pois será re-homologado para quatro pessoas. Os custos de produção vão baixar. Os preços, talvez. Com a tempestade que se apresenta no clima econômico, nada mais é certo.

E, aqui entre nós, será que a Volkswagen do Brasil precisa de um novo Gol? Será que o destino desse carro -- tão querido pelos brasileiros -- não é mesmo ficar como está e se oferecer como uma opção mais acessível para uma classe média cada vez mais pobre? O Gol ainda vende bem. Hoje é o quinto carro mais vendido do Brasil e o número 1 da Volkswagen. É verdade que a maioria de seus emplacamentos vêm das vendas diretas (para frotistas, locadoras). E não está bom assim? Num cenário totalmente disruptivo, com muitos consumidores preferindo andar de Uber ou 99 do que comprar um carro, com muita gente optando pela locação ao invés da posse, o Gol como é hoje serve muito bem ao Brasil por alguns anos.

ID.Crozz, o conceito da Volks que anteciparia as linhas do novo Gol.
ID.Crozz, o conceito da Volks que anteciparia as linhas do novo Gol.
Foto: VW / Divulgação

Por que todos os carros precisam mudar sempre? Por que o Gol não pode construir uma história ainda mais bonita, como a da Kombi, que tantos lucros deixou na Volkswagen? Não seria uma má ideia para a Volkswagen deixar o Gol quietinho por enquanto, fazer mais um ou dois facelifts, quiçá uns quatro ou cinco, e atravessar anos como uma opção mais barata, já que todos os outros carros ficarão cada vez mais caros. Resta saber se no atual paradigma produtivo, caberia um “patinho feio” na linha, se bem que na fábrica de Taubaté a Volks só fabrica Gol, Voyage e Up. Se o Gol ficar exatamente como está, pode tornar-se “clássico” com o passar do tempo. A outra opção é ser mais um carro novo com alto investimento e vendas medianas.

Se optarem por dar ao Gol o mesmo destino que teve a Kombi, no futuro os executivos da Volkswagen podem até imitar Ayrton Senna. Quando perguntarem por que o Gol nunca ganhou uma nova geração, podem responder: “Sempre que chegou a vez dele, cagaram na economia”.

O Polo é o que seria a nova geração do Gol. Se é assim, por que fazer um novo Gol?
O Polo é o que seria a nova geração do Gol. Se é assim, por que fazer um novo Gol?
Foto: VW / Divulgação

 

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