Urbanização costeira ameaça diversidade marinha e coloca em risco resiliência climática das cidades
As Soluções baseadas na Natureza (SbN) usam processos e elementos naturais para enfrentar desafios ambientais, sociais e econômicos. Isso inclui conservar e restaurar ecossistemas costeiros, criar infraestrutura verde e azul e conectar áreas naturais
Somos hoje cerca de 8,2 bilhões de pessoas no planeta — e devemos chegar a 11 bilhões até o fim do século. À medida que a população cresce, as cidades também se expandem. E esse crescimento tem acontecido principalmente ao longo da costa. Esse avanço é ainda mais acelerado em países em desenvolvimento.
O problema é que, enquanto as cidades avançam sobre o litoral, o oceano está mudando silenciosamente. Debaixo d'água, a paisagem vem se transformando sem que a maioria das pessoas perceba. Essas mudanças ameaçam a biodiversidade marinha que sustenta atividades como pesca e turismo, e tornam as próprias cidades mais vulneráveis às mudanças climáticas.
Um litoral cada vez mais artificial
Grande parte do debate científico e de gestão ambiental sobre construções no mar no Brasil ainda se concentra nos recifes artificiais, frequentemente vistos como solução para recuperar estoques pesqueiros e restaurar recifes. Quando bem planejados, eles podem ajudar, mas representam uma pequena fração do que estamos construindo no oceano.
Em 2018, estruturas artificiais já cobria mais de 32 mil km² do leito marinho — uma área maior do que o território da Bélgica ou do estado de Alagoas. E esse número pode crescer entre 50% e 70% nas próximas décadas, impulsionado pela demanda por energia, transporte marítimo, alimentos e proteção costeira.
No Brasil, a pressão é evidente. Cerca de um quarto da população, aproximadamente 50 milhões de pessoas, vive em municípios costeiros, que ocupam apenas 5% do território nacional. Se considerarmos quem mora a até 150 km da costa, esse número ultrapassa metade da população.
Esse crescimento acelera o chamado endurecimento costeiro: a substituição e modificação de ambientes naturais por estruturas rígidas como quebra-mares, trapiches e enrocamentos. Essas estruturas, conhecidas como infraestrutura cinza, foram historicamente projetadas para atender demandas humanas, sem considerar seus impactos ecológicos. No litoral de São Paulo, por exemplo, já são cerca de 245 km de infraestrutura cinza construída na linha de costa.
Urbanização empobrece a vida marinha
A urbanização é uma das principais causas do declínio global da biodiversidade. Isso acontece tanto pela destruição direta de habitats quanto pela degradação da qualidade ambiental. No litoral, manguezais, dunas e praias vêm sendo substituídos ou alterados.
Quando um ambiente natural é ocupado por uma estrutura artificial, muitas espécies que dependem daquele habitat desaparecem, causando a extinção local em alguns casos. Além disso, essas estruturas atuam como barreiras físicas, dificultando o deslocamento de organismos que migram entre habitats para se reproduzir ou alimentar.
Outro problema é a baixa complexidade dessas estruturas. Diferentemente de costões rochosos ou recifes (cheios de cavidades, fendas e micro-habitats), as superfícies da infraestrutura cinza são mais homogêneas. Isso dificulta a ocupação por espécies nativas e favorece espécies exóticas, mais tolerantes a condições adversas. O resultado é a perda de biodiversidade, homogeneização das espécies e ruptura das conexões ecológicas.
Infraestrutura cinza favorece invasões biológicas
Uma das consequências mais preocupantes desse processo é o aumento das bioinvasões. Uma revisão de 124 estudos sobre estruturas artificiais no ambiente marinho brasileiro registrou 71 espécies exóticas associadas a essas estruturas. Dessas, 30 são invasoras, ou seja, causam impactos ecológicos, sociais ou econômicos.
Portos e marinas funcionam como portas de entrada. A partir daí, a infraestrutura atua como um corredor, facilitando a dispersão dessas espécies ao longo da costa. Um exemplo emblemático é o coral-sol, que chegou ao Brasil através de cascos de navios e se espalhou por plataformas de petróleo e outras estruturas artificiais.
Mais preocupante ainda: mais da metade dessas espécies exóticas já foi registrada também em habitats naturais. Isso indica que as estruturas artificiais não apenas recebem essas espécies, mas podem facilitar a invasão de ambientes que deveriam estar protegidos. Na prática, isso enfraquece estratégias de conservação baseadas na proteção de áreas naturais, já que espécies invasoras não respeitam esses limites.
O que está em jogo: resiliência climática
Falar em resiliência climática não é apenas falar de proteger cidades contra tempestades e calor extremo. É também garantir qualidade de vida, segurança alimentar e segurança hídrica. A perda de biodiversidade compromete o funcionamento dos ecossistemas e seus serviços, e isso tem efeitos diretos na sociedade.
Em escala local, significa menos pescado, pior qualidade da água e das praias e redução do bem-estar. Para comunidades costeiras que dependem da pesca e do turismo, isso afeta diretamente a renda. O mesmo vale para o setor imobiliário, que depende da qualidade ambiental como ativo econômico. Em escala global, a perda de ecossistemas como manguezais e outras vegetações marinhas reduz a capacidade de regulação climática.
Além disso, substituir ecossistemas naturais por concreto enfraquece a proteção natural das cidades. Manguezais, dunas, restingas e recifes absorvem a energia das ondas, reduzem a erosão e amortecem tempestades. Sem eles, o impacto de eventos extremos, cada vez mais frequentes, tende a piorar.
Ainda assim, propostas que flexibilizam o uso da orla podem acelerar a ocupação de áreas sensíveis. Ignorar essa dinâmica é um risco real e crescente. Proteger a biodiversidade marinha não é apenas uma questão ambiental, é uma questão de segurança para milhões de brasileiros.
A natureza como aliada das cidades
Recuperar e conservar a biodiversidade dentro das cidades é essencial para manter serviços ecossistêmicos, fortalecer a conservação de áreas marinhas protegidas e assegurar a resiliência climática. E existem caminhos viáveis. As Soluções baseadas na Natureza (SbN) usam processos e elementos naturais para enfrentar desafios ambientais, sociais e econômicos. Isso inclui conservar e restaurar ecossistemas costeiros, criar infraestrutura verde e azul e conectar áreas naturais.
No ambiente aquático costeiro, a ecoengenharia marinha tem ganhado espaço. A ecoengenharia "dura" adapta infraestruturas cinzas existentes para torná-las mais favoráveis à vida marinha, incorporando rugosidade e cavidades que imitam ambientes naturais, aumentando a chance de colonização por espécies nativas. Não substitui habitats naturais, mas pode compensar impactos em áreas altamente urbanizadas.
A ecoengenharia híbrida combina infraestrutura construída com elementos naturais. Um exemplo é o uso de ostras vivas em muros de contenção para formar recifes urbanos, que melhoram a qualidade da água, recuperam habitats e reduzem a energia das ondas. Já a ecoengenharia "suave" atua na remoção de estruturas artificiais e na restauração ativa de ecossistemas, como manguezais, marismas e praias degradadas nos centros urbanos.
Avançar nessa direção exige integrar ecologia, engenharia, planejamento urbano e políticas públicas. Investir em SbN é investir em segurança, economia de custos com infraestrutura e qualidade de vida. A ciência já deixou claro quais são os riscos e as soluções. O próximo passo é transformar esse conhecimento em ação. Garantir um litoral mais resiliente não é apenas uma meta ambiental, é uma necessidade urgente para as cidades e futuras gerações.
Aline Martinez recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP 2016/11947-7) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq 151903/2022-0).
André Pardal recebeu financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq 152158/2022-7).
Rosana Rocha recebe financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico ( CNPq 306788/2022-5) e da Fundação Araucária (52771)