Temor em Seul cresce com sinais de aproximação entre EUA e Coreia do Norte
Tensões crescentes com Pyongyang e a imprevisibilidade de Donald Trump abalam a confiança da Coreia do Sul nos EUA. Seul teme ser excluída de um possível acordo bilateral entre Washington e o regime norte-coreano que mantenha o arsenal nuclear de curto alcance de Kim Jong-un ativo. O isolamento diplomático e as disputas comerciais ampliam o debate sobre a Coreia do Sul desenvolver armas nucleares próprias, além de forçar o país a buscar alianças com potências médias da Europa.
Especialistas alertam que a combinação de provocações norte-coreanas e da política externa imprevisível de Donald Trump está abalando a confiança de Seul em um de seus principais parceiros de segurança.A relação entre a Coreia do Sul e a Coreia Norte, historicamente marcada por tensões, parece atravessar um momento especialmente hostil nas últimas semanas.
Há algumas semanas, Seul acusou a Coreia do Norte de instalar uma mina terrestre no lado sul da fronteira fortemente militarizada entre os dois países. O explosivo detonou e feriu três soldados sul-coreanos. Pyongyang recusou-se a pedir desculpas e alegou que o caso foi uma operação de bandeira falsa destinada a prejudicar a imagem do regime isolado.
Desde então, a Coreia do Norte realizou vários testes de armamentos, promoveu sua primeira exposição de drones militares com a presença de Kim Jong-un, deslocou unidades de artilharia autopropulsada para a fronteira e iniciou os preparativos para instalar alto-falantes destinados a transmitir propaganda em direção ao Sul.
Na quinta-feira, Pyongyang também lançou cerca de dez mísseis balísticos de curto alcance em direção ao Mar do Japão, poucas horas antes de uma visita programada do chanceler federal alemão, Friedrich Merz, à Coreia do Sul.
Além das tensões com seu principal rival, cresce em Seul a preocupação em relação ao seu mais importante aliado: os Estados Unidos. Políticos sul-coreanos temem que Washington busque uma reaproximação diplomática com a Coreia do Norte às custas da segurança sul-coreana, ou até deixe o país vulnerável ao arsenal nuclear de Pyongyang.
Possível encontro entre Kim e Trump
Durante seu primeiro mandato, de 2017 a 2021, o presidente americano, Donald Trump, afirmou que ele e Kim Jong-un haviam "se apaixonado". Mais recentemente, Trump voltou a sinalizar interesse em retomar as negociações. Há especulações de que um encontro entre os dois poderia ocorrer em 18 de novembro, na cidade chinesa de Shenzhen, durante a cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (Apec).
A Coreia do Norte não respondeu oficialmente aos sinais enviados por Washington. No entanto, o Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul informou, em uma reunião fechada do comitê parlamentar de inteligência, que Kim discutiu a possibilidade de um encontro com Trump durante uma reunião com membros da cúpula do Partido Comunista Chinês em Dandong.
Os receios em Seul aumentaram após os Estados Unidos proporem negociações trilaterais com Rússia e Chinasobre o futuro da Ucrâniasem a presença de representantes ucranianos. O medo é que Trump adote uma estratégia semelhante na Península Coreana.
Tarifas e disputas financeiras abalam relação entre Seul e Washington
"Hoje existe um problema de confiança entre os dois governos", afirmou Kim Sang-woo, ex-político do partido sul-coreano de orientação esquerdista Congresso para a Nova Política e, atualmente, membro do conselho da Fundação para a Paz Kim Dae-jung.
Segundo ele, uma relação antes considerada sólida nas áreas de segurança e comércio foi abalada por tarifas, restrições comerciais e pelas exigências de Washington para que Seul aumente sua contribuição financeira à presença militar americana no país.
Ele também afirma que os diplomatas do presidente sul-coreano, é Lee Jae-myung, perderam acesso a figuras-chave da tomada de decisões na Casa Branca.
"Não acredito que esta administração americana esteja pensando no longo prazo na relação com a Coreia do Sul", disse. "Eles não veem o país como parte essencial de sua rede de segurança nacional e não parecem ouvir especialistas sobre a importância dos aliados na região."
O especialista acrescentou acreditar que Trump deseja se reunir com Kim Jong-un também por razões pessoais, em busca de um Prêmio Nobel da Paz.
Os esforços de Trump para conquistar a honraria até agora não tiveram sucesso. No entanto, isso pode mudar caso ele consiga avançar em um acordo que encerre formalmente a Guerra da Coreia, suspensa desde o armistício de 1953.
Debate sobre armamento nuclear ganha força
A maior preocupação, segundo Lim Eun-jung, professora de estudos internacionais da Universidade Nacional de Kongju, é a possibilidade de os EUA reconhecerem a Coreia do Norte como potência nuclear.
"Isso legitimaria o programa nuclear norte-coreano e enfraqueceria os esforços para convencer Pyongyang a abandoná-lo, além de comprometer o sistema global de não proliferação", afirmou.
Outra hipótese discutida em Seul é a de que Trump negocie um acordo que elimine apenas os mísseis nucleares de longo alcance, capazes de atingir os Estados Unidos, permitindo que a Coreia do Norte mantenha armas de curto alcance que alcançam facilmente a Coreia do Sul e o Japão.
Isso levantaria dúvidas sobre o compromisso americano de defender a Coreia do Sul em caso de ataque nuclear. Como consequência, vêm ganhando espaço as vozes que defendem o desenvolvimento de um arsenal nuclear próprio pelo país.
"Durante anos dependemos da dissuasão estendida oferecida pelos EUA sob seu guarda-chuva nuclear. Mas esta administração americana é imprevisível e cada vez mais pessoas perguntam por que não seguimos sozinhos", disse Lim.
"Praticamente todos os nossos vizinhos possuem armas nucleares. Ninguém quer ver um efeito dominó começar, mas isso pode acontecer."
"Segurança da Coreia afeta a da Europa", diz Merz
A recente escalada ocorre enquanto o presidente sul-coreano Lee tenta reabrir canais de diálogo com Pyongyang. A iniciativa tem causado desconforto entre aliados europeus, preocupados com oapoio militar norte-coreano à Rússia na guerra da Ucrânia.
Acredita-se que Moscou esteja recompensando esse apoio com recursos financeiros, tecnologia militar e garantias de segurança.
Durante sua recente visita a Seul, o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, destacou que "a segurança da Coreia afeta a segurança da Europa. E a segurança da Europa também afeta a segurança da Coreia". "O mundo é pequeno, inclusive em tempos de guerra", acrescentou.
Coreia do Sul busca fortalecer alianças
Assim como Seul, Berlim também vê com preocupação a política externa da administração Trump, marcada por atritos com aliados tradicionais e por tentativas de aproximação com rivais geopolíticos como Rússia e China.
Durante sua viagem à Ásia, Merz defendeu uma aliança entre potências médias para proteger o livre comércio e se opor ao unilateralismo, ao autoritarismo e às violações do direito internacional.
"O fato é que os Estados Unidos estão redefinindo sua política externa, sua política econômica externa e seus interesses. Precisamos fazer o mesmo", afirmou na Coreia do Sul.
Ainda não está claro se Seul responderá positivamente ao apelo de Merz e se aproximará mais da União Europeia. No momento, porém, parece evidente que o governo sul-coreano enfrenta dificuldades tanto para dialogar com a Coreia do Norte quanto para manter uma relação previsível com Washington.
"É uma situação muito difícil", resumiu Kim Sang-woo. "Não há confiança nem canais de comunicação. E isso me preocupa muito."
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