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BRF procura cientistas para evitar desperdício de comida

Após ter dificuldade para achar startups com base científica, empresa busca soluções de tecnologia e segurança alimentar

4 dez 2019
05h11
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No início deste ano, a BRF lançou um programa de startups para atender a cinco demandas da companhia. Oitenta empresas se inscreveram para participar, mas nenhuma apresentou propostas para um dos principais desafios, que era desenvolver próteses (dentárias ou corporais) com ossos suínos. Além disso, a área voltada para Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) só recebeu duas inscrições. O resultado, abaixo das expectativas, foi o pontapé que a BRF precisava para tirar do papel um plano antigo de se aproximar do mundo universitário e científico.

Assim surgiu o Emerge Labs BRF, um desafio voltado para o público acadêmico com o objetivo de buscar soluções relacionadas ao desperdício e à segurança alimentar. O diretor de inovação da BRF, Sergio Pinto, conta que a iniciativa surgiu para estreitar os laços entre a academia e a indústria e para desenvolver cientistas empreendedores. "Outro motivo é a falta de foodtechs que sejam realmente 'tech' (com tecnologia) no Brasil", diz ele, em referência ao segmento de startups que buscam mudar os rumos da alimentação.

Ele conta que o programa de startups mostrou que quando o assunto está relacionado à demanda de custos, à criação de plataformas, há uma infinidade de ideias. Mas quando se precisa de uma solução mais científica, o terreno não é tão fértil. Por isso, a empresa resolveu buscar talentos na origem. "Queremos saber o que tem dentro dos celeiros da academia para nos ajudar a desenvolver soluções inovadoras", diz o executivo.

O programa vai selecionar 16 projetos de autores brasileiros que tenham tecnologias criadas através de pesquisas científicas. Podem participar do programa estudantes e pesquisadores na graduação, mestrado, doutorado ou pós-doutorado, bem como empreendedores e gestores, não importando o nível de especialidade, mas o potencial de impacto da sua equipe e do seu projeto. As inscrições vão até sexta-feira neste site.

Os vencedores vão integrar o programa que terá início em janeiro, com encontros online e presenciais, em São Paulo até março de 2020. A BRF vai oferecer de dois a cinco funcionários da empresa para trabalhar lado a lado com os cientistas.

Produção de artigos

Durante a elaboração do programa, a BRF e a Emerge - organização que ajuda a fomentar e fortalecer a inovação de base científica orientada ao mercado no Brasil - mapearam os projetos feitos pelos acadêmicos e descobriram que o Brasil é o segundo país com o maior produção de artigos científicos na área de redução de desperdício. "O problema é que essas iniciativas não estão saindo dos porões das universidades."

O diretor da Emerge, Daniel Pimentel, afirma que a organização surgiu, em 2017, exatamente para tentar transformar parte desse material em realidade. "Vimos que o Brasil é bem ranqueado na produção de artigos relacionados a inovação e competitividade, mas não conseguimos efetivar isso. Por isso, decidimos fazer a sinergia entre a indústria e a academia."

Para ele, esse é o efeito do chamado Vale da Morte da Inovação, que consiste na falta de investimento no desenvolvimento tecnológico. "Nessa discussão, além do volume de recursos, o destino dessa verba também é relevante. O dinheiro público vai para a pesquisa básica e o dinheiro privado vai para a pesquisa aplicada. Na parte do desenvolvimento tecnológico, onde ainda há desafios técnicos e muito risco, é difícil o setor privado investir e há muito pouco recurso público endereçado para essa área."

O programa da BRF é o segundo que a Emerge participa. O primeiro foi com a farmacêutica Eurofarma, que teve inscrição de 50 cientistas. Agora, no projeto da BRF, eles vão buscar tecnologias para processos industriais relacionados a embalagens, novos materiais, biotecnologia e biossegurança, nanotecnologia, inteligência artificial, blockchain, internet das coisas (indústria 4.0), logística, criação ou plantio, tempo de prateleira dos produtos, aditivos e ingredientes, entre outros.

Mudanças

"Quando pensamos em sustentabilidade, a questão do desperdício é fundamental. Afinal, como alimentar um contingente de pessoas que não para de crescer no mundo? Não podemos continuar agindo da mesma forma", diz Sergio Pinto. Ele conta que hoje a receita de inovação representa 3% do total da companhia; em 2023 a expectativa é que esse número alcance os 10%. Isso será resultado de uma série de lançamentos. Neste ano, por exemplo, a empresa colocou no mercado mais de 100 novos produtos.

Sergio Pinto diz que as novas gerações e a mudança de hábitos da população também têm exigido mais mudanças da empresa. Hoje, diz ele, os consumidores procuram produtos saudáveis, com menos sódio, nas prateleiras. Isso sem considerar a escalada da população vegana, que não pode ser negligenciada. "Nossos times estão focados em novos produtos e categorias, como a de proteína vegetal." Ele conta que a empresa está desenvolvendo uma linha completa para esse público para o 1.º trimestre de 2020. "Esses consumidores têm necessidades nutricionais específicas, então investimos bastante na elaboração de produtos adequados a essas necessidades."

Estadão
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