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Talibã faz "leitura completamente distorcida da religião", afirma pesquisadora

Muçulmana, antropóloga e professora da USP, Francirosy Barbosa analisa em entrevista ao Alto Astral a retomada do grupo extremista ao poder no Afeganistão

23 ago 2021 16h04
| atualizado em 24/8/2021 às 15h57
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O grupo faz uma “leitura literalista” da sharia (lei islâmica) e tem visão extremista da religião
O grupo faz uma “leitura literalista” da sharia (lei islâmica) e tem visão extremista da religião
Foto: Shutterstock / Alto Astral

Há pouco mais de uma semana o Afeganistão foi tomado pelo grupo fundamentalista Talibã, depois de muitos conflitos no território. Com isso, a comunidade internacional tem chamado atenção para o histórico do grupo que já governou o país de 1996 a 2001, principalmente em relação aos direitos das mulheres.

O grupo radical, que faz uma "leitura literalista" da sharia (lei islâmica), segundo a professora da Universidade de São Paulo e especialista em Teologia Islâmica, Francirosy Barbosa, tem uma visão extremista da religião e faz diversas imposições e violações de direitos humanos. 

Desde a retomada do Talibã ao poder em 15 de agosto, quando tomaram a capital Cabul, diversos relatos de torturas, prisões e até assassinatos estampam os noticiários locais e internacionais. E as denúncias de mulheres afegãs também não ficam de fora. Há relatos de casamentos forçados, uso excessivo da força e restrições em relação às vestimentas.

No entanto, para Francirosy Barbosa, muçulmana revertida, como se nomeia, e especialista em gênero e contextos islâmicos, é preciso analisar com cautela o que está acontecendo no Afeganistão, a fim de evitar desinformação e preconceito sobre o país, a sua religião e cultura. Para a professora, o desconhecimento sobre o islã e a sharia estão resultando em diversas análises errôneas e xenofóbicas. Principalmente, em relação à liberdade e direitos das mulheres muçulmanas.

Em entrevista ao Alto Astral, Barbosa explica o contexto da retomada do Talibã ao poder, a situação das mulheres no regime e como a islamofobia tem sido fortalecida nos últimos dias. Confira abaixo: 

Alto Astral: Qual contexto pavimentou essa retomada do Talibã ao poder?

Francirosy Barbosa: Primeiramente, a gente tem que pensar na história do Afeganistão. É um país que foi invadido pelos soviéticos, que teve toda a opressão colonialista soviética de destruição na década de setenta, fragilização das suas relações políticas, econômicas, sociais e inclusive religiosas. Porque também esses soviéticos influenciavam no cotidiano religioso dos afegãos. 

E o Talibã, ele surge como? Ele surge nessa fronteira com o Paquistão, ele foi financiado pelo Paquistão porque era um grupo de estudantes que achava que de certa forma iam "reestruturar" o Afeganistão. E aí você tem uma sociedade totalmente fragilizada, pessoas fragilizadas, sem a competência de gerir absolutamente nada e deu no que deu: nessa opressão, nessa leitura completamente distorcida da religião. Mas de toda forma, eram pessoas que estavam ali naquele país, não era uma intervenção de fora. Assim, trocou os interventores de fora pelos interventores de dentro. Então acho que isso é um ponto importante para a gente pensar historicamente. O Talibã não surge do nada, ele surge justamente por conta dessa fragilidade da sociedade.

E aí a gente tem algumas coisas que fortaleceram essa retomada. Primeiro, eles ficaram excluídos de todo tipo de negociação que foi feita desde 2001. De negociações com os Estados Unidos. Isso, de certa forma, vai fortalecendo de outra maneira o Talibã. Países próximos, certamente o Irã, certamente o Paquistão, devem ter financiado, devem ter ajudado o fortalecimento, tanto é que foram países que cumprimentaram o Talibã nesse governo, assim como a Rússia, como a China, e todos aqueles países próximos ao Afeganistão também se favoreceram e apoiaram esse movimento. 

Então, ele não foi fomentado sozinho e certamente deve ter a mão dos Estados Unidos aí porque a gente não pode ser ingênuo e achar que os Estados Unidos deixaram ou foram expulsos do Afeganistão, porque isso não é verdade. Os Estados Unidos não saíram nada enfraquecidos dessa saída. 

AA: A situação das mulheres piorou muito com a dominação do Talibã. Apesar de portas-vozes do grupo terem dito recentemente que as mulheres teriam os mesmos direitos, contanto que seguissem a sharia, há relatos de diversas violações de direitos ocorrendo pelo território como casamento forçado, tortura, prisão e até assassinatos. Como você vê esse momento, isso é um deslumbre do passado?

FB: Sobre as mulheres ainda é muito recente pra gente ter um diagnóstico. Seguir a sharia não é um problema, eu sou muçulmana e sigo a sharia. Seguir a sharia é rezar cinco vezes ao dia, é fazer jejum, enfim, não há problema. É que os ocidentais acham que sharia é uma coisa fora do normal, sharia é o alcorão e a sunnah profética, isso é sharia. Os ensinamentos do profeta Muhammad e o texto sagrado. Então, não há nenhum problema em seguir a sharia. Precisa ver como é que eles vão fazer a leitura desses textos sagrados, das escrituras, é aí que está a diferença. Então a gente tem que esperar de fato pra ver o que que vai acontecer.

AA: Antes mesmo da tomada oficial do Talibã na última semana, o grupo já havia conquistado diversas terras, já havia uma incursão de violência, assassinatos e afegãos tentando fugir. No entanto, não houve movimentos internacionais contrários. Para você, qual é o papel de organizações internacionais e de países como os EUA, que têm relação direta com o desenrolar do Talibã, neste momento? 

FB: Tudo isso que está acontecendo foi com o apoio internacional, foi com o apoio desses países. Então a gente tem que olhar com muita frieza porque está se culpabilizando os Talibãs, o que eles vão fazer... porque, lógico, eles têm um histórico destrutivo. Do ponto de vista feminino, social, enfim, mas a gente não pode simplesmente jogar toda a dinamite em cima deles porque isso certamente foi combinado com os países vizinhos. Porque senão esses países não estariam cumprimentando o Talibã agora. Inclusive com os Estados Unidos. Então acho que é importante ter muita cautela. Eu acho que a mídia de modo geral está muito preocupada com o Talibã, com o que pode ser, sem dar a devida proporção que há um debate social, político e econômico, que tem outras jogadas na frente. 

AA: Com tudo que está acontecendo na última semana, as redes sociais e os jornais não param de falar do Talibã, das mulheres e do islamismo. Como você vê isso? Esse momento pode resultar em uma maior desinformação e consequentemente numa maior islamofobia? 

FB: Esse momento já está gerando islamofobia. O tempo todo eu vejo as pessoas postarem fotos de mulheres de burca. É o que eu tenho repetido: o problema não é a vestimenta, as pessoas podem estar de burca, turbante, ela pode estar vestida do jeito que ela quiser, ela pode estar sem roupa. O problema é se os direitos são considerados, se a sharia é considerada. Se a sharia for considerada, ela prevê os direitos das mulheres. Agora, se for uma leitura literalista, então não vai prever direito nenhum das mulheres.

Então eu acho que a gente tem que tomar muito cuidado, porque falar só de Talibã só vai gerar islamofobia, principalmente pra quem está no Brasil. Eu ontem mesmo fui ao mercado e já vi uma pessoa olhando com cara estranha pra mim. Isso é gerado da forma como a mídia parece, porque a gente tem que separar a religião de uma situação que é política e econômica, não é religiosa. A sharia já existe no Afeganistão, quem é muçulmano já pratica a sharia. Eu acho que as pessoas têm um pouco de fechamento dessa visão.

AA: Outro ponto que tem ganhado notoriedade é sobre as vestimentas islâmicas, o uso de véus, hijab, burca etc, associando- as à opressão das mulheres muçulmanas. O debate ocidental sobre essas vestimentas acaba estigmatizando mulheres muçulmanas? Como as próprias muçulmanas enxergam o uso dessas vestimentas? 

FB: Eu não me sinto oprimida por conta do meu véu. Certamente muitas mulheres também não se sentem. Acho que como qualquer sociedade, você pode sentir mais ou menos oprimida. Por exemplo, mulheres não vão à praia porque acham que o corpo delas não é suficientemente bonito para estar na praia. É a mesma coisa. Só que pra nós no islã, usar o lenço significa uma obediência a Deus. Então é muito violento quando se pede para uma mulher muçulmana tirar o seu lenço. 

AA: Apesar do Talibã não representar o islamismo, não falar pela religião como um todo, parece que há um movimento de criminalização da religião assim como do grupo extremista. Por que ainda temos tanto preconceito com o islã?

FB: Dizer que os Talibãs não representam o Islã, que não são muçulmanos, eu não diria isso. Eles são muçulmanos, sim, eles são muçulmanos que fazem uma leitura literalista das fontes escriturárias, eles fazem uma leitura literalista do alcorão e da sunnah do profeta. Mas esse não é o islã que a maior parte da comunidade muçulmana pratica. Então eu acho que é aí que a gente tem que ter os balizamentos. 

É a mesma forma que você fala dos evangélicos, que você pode ter um evangélico que é mais tolerante, outro que é menos tolerante, né? Mas nós estamos falando de uma população que vive nas montanhas, falando de uma etnia de um grupo que não é um grupo ocidentalizado, é um outro povo, é uma outra forma de pensar, é uma outra cultura, tem uma série de coisas em jogo.

AA: Como é ser mulher dentro do islã? E quais são as principais pautas sobre os direitos das mulheres muçulmanas hoje?

FB: As mulheres muçulmanas, desde o século 7, têm vários direitos, direito ao divórcio, direito ao prazer, direito à herança, direito ao voto, direito a escolher o seu marido, o direito ao conhecimento. Todos esses direitos estão garantidos à mulher.  A leitura literalista da sharia e do alcorão, logicamente vai deixar a mulher sempre em segundo plano, mas a maior parte das comunidades muçulmanas sabem sim e as mulheres têm vários movimentos e não necessariamente tem o nome de movimentos feministas, nome de feministas islâmicas, às vezes ela só se chamam movimento de ativismo pelas mulheres e só. Então, essas mulheres afegãs têm seus próprios movimentos, têm as suas próprias agências. A luta delas não é a mesma que a minha que moro no ocidente. Então as pessoas tem que parar principalmente com a ideia de querer salvar mulheres muçulmanas.

Alto Astral
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