Sem dedicação exclusiva, prefeitos voluntários administram milhares de cidades e vilarejos na Alemanha
Na Alemanha, quase 60% dos prefeitos atuam de forma voluntária, dedicando cerca de 25 horas semanais à gestão de pequenas cidades sem receber salário integral, apenas ajuda de custo. Apesar de fortalecer a democracia local, o modelo enfrenta crise: o excesso de burocracia, a conciliação com o trabalho formal e o aumento de ameaças têm afastado interessados, deixando mais de 500 municípios do estado da Renânia-Palatinado sem concorrentes ao cargo executivo nas últimas eleições de 2024.
Em milhares de municípios alemães, moradores assumem a prefeitura em modelo de trabalho voluntário. Mas burocracia e ameaças têm afastado pretendentes.As semanas de Susanne Lux são de jornada tripla. Engenheira agrônoma de formação, ela administra uma empresa que realiza campanhas internacionais de marketing para promover uma planta decorativa europeia. No tempo livre, cuida de seu jardim, que inclui um vasto pomar. Em paralelo, costuma dedicar de 20 a 30 horas semanais à comunidade onde mora, Kasbach-Ohlemberg, um município de 1.450 habitantes no estado da Renânia-Palatinado, na Alemanha.
Lux foi eleita prefeita voluntária da cidade em 2024. É uma de muitos. Em toda a Alemanha, quase 60% dos prefeitos exercem o cargo de forma voluntária, conciliando a função pública com profissão, família e outras atividades. Em média, eles dedicam 25 horas semanais ao trabalho, segundo um estudo publicado pela editora Springer Nature.
Na Renânia-Palatinado, onde a maior parte dos 4 milhões de habitantes vive em zona rural, são mais de 2 mil municipalidades com prefeitos voluntários. "Eles são o farol da democracia", afirma o diretor da Associação de Municípios e Cidades da Renânia-Palatinado, Moritz Petry. "Há muitas pessoas engajadas pela democracia, pela comunidade e por todos que vivem lá. E acho que isso é muito bom, porque a aceitação dos processos democráticos é alta. Nada é anônimo, e essa é a grande vantagem do nosso sistema democrático."
Os prefeitos voluntários não têm salário, mas recebem honorários para compensar o tempo dedicado e os custos associados ao exercício da função. Essa remuneração varia de estado para estado e depende também do tamanho do município. Na Renânia-Palatinado, o valor vai de 350 a 2.937 euros. O valor do salário-mínimo na Alemanha fica em torno de 2.400 euros mensais para um trabalho de 40 horas por semana.
"Na verdade, eu perco dinheiro trabalhando como prefeita. Porque eu trabalho 20, 30 horas por semana e, durante esse tempo, não posso trabalhar na minha empresa", relata Susanne Lux. "Vários outros prefeitos que eu conheço são aposentados, por isso têm tempo de se dedicar ao cargo."
Da vida privada à política local
Se envolver na política era uma ideia que Susanne Lux projetava para o futuro, depois da aposentadoria. Mas o diretório local da União Democrata Cristã (CDU) ficou com a liderança vaga, e ela foi convencida a assumir o posto e a concorrer.
A campanha eleitoral foi feita de porta em porta. "Precisei me apresentar a todos os moradores, porque não sou nativa daqui. Moro em Kasbach-Ohlemberg há só 27 anos", conta à DW. A verba de campanha saiu do próprio bolso: "Não foi muita coisa, mas tive que criar um site, imprimir folhetos e coisas assim custam dinheiro".
Ela recebe apoio dos membros do conselho municipal na realização das atividades do município. E também conta com a ajuda do marido. Ele assumiu, por exemplo, a tarefa de visitar os idosos da comunidade no dia de seus aniversários e bodas de casamento. "Tenho muita sorte por ele me apoiar."
Na Renânia-Palatinado, o mandato de um prefeito voluntário dura 5 anos. E não há limites para a reeleição. No vilarejo de Windhagen, de 4.200 habitantes, o prefeito Josef Rüddel ficou 56 anos no cargo. Se aposentou da política em 2019, aos 94 anos.
"Normalmente, trata-se da cidade natal de muitas pessoas que querem ser prefeitas. E elas querem mudar as coisas na comunidade. Essa é a principal motivação", relata Moritz Petry.
Burocracia, falta de candidatos e pressão crescente
Além da tarefa de conciliar a prefeitura com a profissão principal, os prefeitos voluntários enfrentam desafios cada vez maiores. Susanne Lux relata ter como principal dificuldade a burocracia associada às responsabilidades administrativas associadas ao cargo. "Os processos precisam ser otimizados e digitalizados", defende a prefeita.
A pressão também tem aumentado fora dos gabinetes. Prefeitos relatam episódios de ameaças, intimidações e até violência em razão de decisões tomadas no exercício da função. Para muitos, esse cenário contribui para tornar um cargo já exigente ainda menos atrativo.
Em 2024, ano das últimas eleições locais na Renânia-Palatinado, mais de 500 municípios não tiveram sequer um candidato para o cargo de prefeitos.
"Faço isso porque considero importante. Sou cristã e acredito que Deus nos deu uma responsabilidade. É assim que encaro essa missão. Quero devolver algo à comunidade e usar os dons que recebi de Deus para ajudar outras pessoas", explica Susanne Lux.
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