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Religião: se nos indignamos tanto com os ataques a santas e igrejas, por que não a orixás e terreiros?

Em contextos de forte polarização política, ataques a símbolos religiosos expressam disputas sobre pertencimento e identidade. Mas essa violência não ocorre só contra símbolos católicos. Em 2026, também houve ataques a terreiros de matriz africana em diversos estados

12 out 2026 - 07h30
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Resumo
Ataques a símbolos católicos e terreiros no período eleitoral de 2026 motivaram uma investigação da Polícia Federal via STF, expondo uma assimetria no debate público. Enquanto danos a imagens católicas causam forte comoção, violações a religiões de matriz africana enfrentam menor repercussão, reflexo do racismo religioso e de desigualdades históricas. O artigo defende a superação dessa empatia seletiva, apontando que a laicidade do Estado exige proteção igualitária a todas as manifestações de fé.

Em meio às controvérsias religiosas no período eleitoral de 2026, o algoritmo do meu perfil no Instagram passou a entregar uma enxurrada de imagens de igrejas, santos e símbolos católicos vandalizados.

Algumas das fotografias eram recentes, mas outras reapareciam descontextualizadas, sem identificação precisa de data ou local, manipulada para gerar comoção.

A circulação acelerada no universo digital retira episódios locais de seu contexto e lhes atribui novos sentidos políticos.

Fotografias e vídeos podem dar visibilidade a violências reais, mas também alimentar generalizações e pânicos morais quando descontextualizados e incorporados a disputas políticas e religiosas, conforme discute Joanildo Burity sobre religião, política e cultura.

No Brasil, essa disputa pelo sentido das imagens revela uma questão incômoda: por que alguns símbolos sagrados despertam indignação imediata, enquanto outros parecem não merecer a mesma defesa?

É a partir dessa pergunta que podemos compreender como fé, visibilidade pública e disputas políticas se entrelaçam. E como a defesa da liberdade religiosa ainda convive com uma preocupante seletividade diante do sagrado.

A destruição de um objeto sagrado não é mero dano material: é um ataque a um bem simbólico, carregado de identidade, memória e sentido de existência.

Quando uma imagem é quebrada ou um templo é invadido, não se destrói apenas um objeto — nega-se o direito de um grupo existir, cultuar e ver sua fé reconhecida socialmente.

A violência das mínimas diferenças

No caso dos conflitos entre grupos religiosamente próximos, a noção da violência das mínimas diferenças ajuda a interpretar essas rivalidades. Católicos e evangélicos compartilham referências cristãs centrais, mas divergem em aspectos teológicos, litúrgicos e rituais marcantes.

O culto à Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, funciona como um dos principais demarcadores dessas fronteiras. Em contextos de forte polarização política, tal como nas últimas eleições, a contestação ou depredação dessa imagem expressa também uma disputa sobre pertencimento, soberania e identidade nacional.

A violência simbólica não ocorre de forma isolada. Entre março e setembro de 2026, foram registradas pelo menos onze ocorrências de ataques a imagens católicas, igrejas e terreiros de matriz africana em diversos estados do país.

Ação do STF e a extensão dos ataques

A gravidade e a repercussão interestadual desses episódios levaram o Supremo Tribunal Federal a intervir. Em 30 de setembro de 2026, o ministro Flávio Dino determinou que a Polícia Federal abrisse uma investigação para apurar os fatos.

A apuração foi instaurada nos autos da Reclamação 95.295. Os casos investigados incluem a destruição de imagens católicas em Salvador (BA), Rio Grande (RS), Maceió (AL) e Londrina (PR), além de ataques a terreiros de Umbanda e Candomblé em Minas Gerais e no Nordeste. A investigação busca enquadrar as condutas em crimes de vilipêndio a culto, preconceito religioso e dano ao patrimônio.

Contudo, é preciso cautela analítica. A ocorrência desses episódios no período eleitoral não autoriza presumir, sem provas, a existência de uma ação coordenada ou de uma "onda" orquestrada de ataques. Cada caso possui particularidades que exigem investigação rigorosa das motivações criminais, religiosas ou políticas.

Indignação seletiva no debate público

Mesmo sem comprovação de rede organizada, os ataques revelam uma assimetria incômoda no debate público. Quando uma imagem de Nossa Senhora ou uma igreja católica é atacada, a repercussão na imprensa, nas redes digitais e entre autoridades é imediata e efusiva.

Por outro lado, quando um terreiro é invadido, uma imagem de orixá é quebrada ou lideranças de matriz africana são ameaçadas, a comoção social costuma ser muito menor. Por que nossa sociedade reage de forma tão diferente a depender de quem tem seu sagrado violado?

Essa assimetria reflete uma desigualdade histórica. Os símbolos cristãos, sobretudo católicos, ocupam há séculos uma posição hegemônica na cultura e no espaço urbano brasileiro. Já as religiões de matriz africana enfrentam um histórico contínuo de marginalização, criminalização e estigmatização.

Racismo religioso e a disputa pelo sagrado

Essa disparidade ganha contornos estatísticos alarmantes. Segundo pesquisa da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras apresentada na ONU, quase metade de 255 terreiros mapeados no país registrou até cinco ataques em dois anos. Além disso, 78% dos entrevistados relataram que membros de suas comunidades já sofreram violência motivada por racismo religioso.

Quando a destruição de um assentamento de orixá é tratada como mera remoção de um "despacho", o preconceito se evidencia na própria linguagem. O conceito de racismo religioso é fundamental para compreender essa violência recorrente aos povos de terreiro.

Candomblé e Umbanda não são apenas práticas de fé. Elas representam formas de organização comunitária, preservação da memória ancestral e produção cultural. A depredação desses espaços atinge a própria dignidade de populações historicamente discriminadas.

Defender a liberdade religiosa exige superar a empatia seletiva. A proteção constitucional ao sagrado não pode depender de conveniências eleitorais, afinidades políticas ou da religião de quem foi vitimado.

Laicidade como garantia democrática

Se exigimos respeito por uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, precisamos demonstrar a mesma firmeza na defesa de um altar de Oxum. O verdadeiro teste da convivência democrática está em reconhecer o direito de quem pensa, acredita e cultua de forma diferente de nós.

Vale lembrar que nosso Estado laico não é um Estado antirreligioso ou ateu. A Constituição de 1988 protege a liberdade de crença e de não crença. As diferentes concepções de laicidade ajudam a compreender que o papel do Estado não é definir o que merece ser considerado sagrado. Isso cabe as pessoas e seus respectivos coletivos religiosos.

A "laicidade de reconhecimento" parte justamente desse princípio: cabe ao Estado garantir que diferentes tradições possam expressar, preservar e proteger seus símbolos e práticas em condições de igualdade. O Estado não precisa compartilhar uma fé para proteger aquilo que é sagrado para quem a professa.

É por isso que a defesa do sagrado é também uma questão de cidadania. Proteger uma imagem católica e um altar de Oxum não significa equiparar crenças, mas reconhecer que a liberdade religiosa só existe plenamente quando o direito ao sagrado não depende da religião de quem o reivindica.

A investigação dos ataques é necessária, mas a questão é maior que a responsabilização criminal. Ela precisa alcançar todos os episódios de violência contra símbolos e espaços religiosos, sejam imagens católicas, sejam altares, assentamentos e objetos sagrados de religiões de matriz africana ou de outras tradições.

Se a nossa indignação diminui quando o alvo é o sagrado do outro, a liberdade religiosa continua sendo defendida de forma seletiva.

Uma investigação verdadeiramente comprometida com a laicidade não pode proteger apenas os símbolos da religião majoritária: deve proteger o direito de todos ao seu sagrado.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Péricles Andrade não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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