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Eleições e crise climática: os novos eleitos estarão preparados para lidar com o super El Niño?

Os novos deputados e senadores eleitos na semana passada vão assumir no início de janeiro, quando o El Niño deve estar no auge, e poderão ter que responder a cenários extremos desde o primeiro dia de mandato

12 out 2026 - 07h30
(atualizado às 07h45)
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Resumo
O avanço de um super El Niño e o aquecimento global trazem eventos climáticos extremos ao Brasil, exigindo forte resposta estatal. Contudo, o novo Congresso e governos eleitos têm perfil voltado à redução do Estado e ao afrouxamento ambiental, cenário agravado por sucessivos cortes em prevenção de desastres. Sem investimentos em infraestrutura e proteção social, desastres como secas e enchentes tendem a se agravar, penalizando com maior violência as populações mais pobres e vulneráveis.

O Brasil saiu das urnas no último dia 4 de outubro com um Congresso Nacional e diversas Assembleias Legislativas espalhadas país afora compartilhando uma visão mais radical de redução do tamanho do Estado, ampliação de privatizações e consequente diminuição de investimentos em políticas públicas, que incluem prevenção, mitigação e adaptação aos efeitos da mudança climática.

Este novo mapa político chega junto com um El Niño de proporções históricas.

O painel de monitoramento coordenado pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) estima em 95% a chance de o fenômeno chegar à categoria muito forte até dezembro, o que o colocaria entre os mais intensos desde 1950.

Os efeitos devem atingir o país de formas diversas, com excesso de chuva no Sul, seca no centro-norte e temperaturas acima da média em quase todo o território.

Resta saber se o país terá capacidade pública para impedir que o fenômeno se transforme em tragédia. Isso vai depender do quanto os novos eleitos estarão dispostos a investir em proteções sociais e climáticas, que são essenciais para as populações mais pobres.

O histórico recente não é animador, já que parte da bancada que se reelegeu votou pelo desmonte do licenciamento ambiental em 2025.

O El Niño de 2023 em números

O país já viu do que um El Niño forte é capaz. Em 2023, o fenômeno se somou ao aquecimento do ar e dos oceanos e produziu uma sequência de eventos extremos que deixou mais de 120 mortos. No Sul, um ciclone em setembro matou ao menos 50 pessoas e afetou 359 mil em 106 cidades gaúchas, sobretudo no Vale do Taquari.

No Norte, o efeito foi o oposto. Em outubro de 2023, o rio Negro chegou ao menor nível em Manaus desde o início das medições, em 1902, o que dificultou o transporte e o acesso à água potável em comunidades da bacia.

No lago Tefé, a água chegou a 40°C e cerca de cem botos morreram em uma única semana. Em 2024, o recorde do rio caiu de novo, e todos os 62 municípios do Amazonas entraram em situação de emergência, com mais de 300 mil pessoas afetadas.

No Nordeste, mais de 100 municípios chegaram à seca severa no fim de 2023, o que atingiu cerca de 30% das áreas agrícolas e de pastagem da região. No início de 2024, novas áreas de seca grave surgiram no interior do Maranhão, de Pernambuco e no sul do Ceará.

Os novos eleitos para o Congresso, Assembleias Legislativas, governos estaduais e Palácio do Planalto vão assumir no início de janeiro, quando o fenômeno deve estar no auge, e poderão ter que responder a cenários como esses desde o primeiro dia de mandato.

Um planeta mais quente, extremos mais violentos

Apesar da sua importância, o El Niño não age sozinho. A Organização Meteorológica Mundial confirmou que 2024 foi o ano mais quente em 175 anos de registros e o primeiro a superar 1,5°C acima do período pré-industrial. Segundo a mesma organização, esse recorde deve ser batido de novo até 2029, e agosto de 2026 já empatou com julho de 2023 como o mês mais quente da história.

Mais calor deixa a atmosfera mais úmida. A cada grau de aquecimento, o ar retém cerca de 7% mais vapor d'água, o que intensifica tanto as chuvas quanto as secas. Segundo estudos, o aquecimento global dobrou a probabilidade de eventos como a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul.

Desastre também é escolha

As enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul mostraram que desastres não são apenas naturais. Em Porto Alegre, o departamento responsável pela água, pelo esgoto e pela drenagem da cidade, o DMAE, perdeu cerca de 70% do investimento entre 2012 e 2014 e mais da metade dos funcionários em 17 anos.

Quando o Guaíba subiu, só quatro das 23 casas de bombas, que retiram a água acumulada nas ruas, funcionavam no pico da crise, e nenhuma tinha gerador de reserva. Foi essa combinação de chuva extrema, anos de cortes e falta de manutenção que transformou a cheia em desastre.

O Nordeste conhece o outro lado da mesma lógica. A seca faz parte da história do semiárido, mas seus efeitos dependem sobretudo de como o poder público gere a água. Foi a aposta em prevenção que mudou a região, e em 2019 mais de 1,1 milhão de famílias do semiárido já tinham uma cisterna que armazena a água da chuva ao lado de casa.

As cisternas reduziram doenças transmitidas pela água e pouparam mulheres e crianças das longas caminhadas para buscá-la. Mas o programa depende de escolhas políticas e, com os cortes, as construções caíram de cerca de 111 mil em 2014 para pouco mais de 10 mil em 2019, até os gastos serem zerados em 2020.

Menos proteção ambiental, mais risco

Em novembro de 2025, logo depois da COP 30, o Congresso derrubou quase todos os vetos do presidente Lula à nova lei de licenciamento ambiental, conhecida como PL da Devastação. Com a mudança, cada estado passou a definir quais atividades precisam de licença, propriedades rurais com cadastro ambiental pendente ficaram dispensadas de licenciamento e o desmatamento de áreas preservadas da Mata Atlântica deixou de exigir autorização do órgão ambiental. Na prática, ficou mais fácil desmatar.

E desmatar aumenta o risco de desastres. Florestas e matas ciliares seguram o solo e reduzem o volume de água que chega aos rios, enquanto áreas desmatadas aceleram enchentes e deslizamentos. Na Mata Atlântica, que já perdeu mais de 80% da cobertura original, esse risco recai sobre os quase 150 milhões de pessoas que vivem no bioma. Com uma bancada ainda maior a favor dessa agenda, o país tende a produzir mais risco justamente quando o clima exige o contrário.

Quem paga a conta do estado mínimo

Prevenir desastres custa dinheiro, e esse dinheiro vem diminuindo. Os gastos federais com prevenção caíram 78,4% em uma década, de R$ 6,8 bilhões em 2013 para R$ 1,47 bilhão em 2023. E nem tudo o que é previsto chega a ser usado. Entre 2012 e 2023, o governo federal deixou de aplicar 35,5% da verba de gestão de riscos e gastou mais reconstruindo do que prevenindo.

É uma escolha cara, já que cada real investido em redução de risco pode evitar até quatro vezes esse valor em perdas. É nesse ponto que os novos eleitos terão mais peso, já que o Congresso decide o orçamento federal e os governadores definem quanto os estados investem em defesa civil e infraestrutura.

Quando a prevenção falha, os mais pobres são os primeiros a sentir. Em 2010, cerca de 8,2 milhões de brasileiros viviam em áreas de risco de enchentes e deslizamentos. Pessoas pretas e pardas são 55,5% da população, mas 72,9% dos moradores de favelas e comunidades urbanas, e também são as que menos têm acesso a saneamento.

As tragédias recentes seguem justamente esse padrão. Nas chuvas de 2022 em Recife, a comunidade que mais registrou mortes foi Jardim Monte Verde, em uma área de morro entre Recife e Jaboatão dos Guararapes. Em 2023, os deslizamentos em São Sebastião, no litoral paulista, mataram 64 pessoas, e o bairro mais atingido foi a Vila Sahy, de população majoritariamente negra e de baixa renda. Em Porto Alegre, em 2024, os bairros afetados por mais tempo também foram os mais pobres e com mais moradores negros. São famílias que dependem do serviço público, porque não têm seguro, gerador ou para onde ir.

O que acompanhar

Os primeiros meses dos novos mandatos vão mostrar se a prevenção será levada a sério. Três decisões ajudam a medir o rumo. A primeira é o orçamento da Defesa Civil e dos sistemas de alerta para 2027, a segunda é a verba do Programa Cisternas e a terceira são as votações ambientais do novo Congresso.

Os efeitos do El Niño devem se estender pelo menos até o primeiro trimestre de 2027, já com os novos eleitos no cargo. Mesmo depois que o fenômeno passar, o aquecimento global vai continuar tornando mais frequentes e intensos eventos como chuvas extremas, secas, ondas de calor e incêndios.

Enfrentar esse cenário exige um Estado que invista em infraestrutura e prevenção com antecedência e que trate a crise climática como um fato científico, e não como uma questão de opinião. Um Estado mínimo diante de um clima cada vez mais extremo não reduz custos, apenas transfere a conta para quem tem menos.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Júlia de Freitas Sampaio não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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