Quênia enfrenta onda de desaparecimento de crianças
Milhares de menores sumiram no país no último ano. Famílias e comunidades escrutinizam sistema de proteção infantil. Polícia nega pico de casos, apontando a ansiedade coletiva ligada às redes sociais.Quando o jovem Ramsy Karani, de 17 anos, desapareceu de sua casa em Kayole, bairro residencial densamente povoado da capital Nairóbi, sua família foi lançada numa realidade temida por cada vez mais pais do Quênia: a angústia de não saber o paradeiro de um filho.
Parentes de Karani se juntaram a centenas de outras famílias em todo o país, cujos filhos têm seus rostos circulando diariamente em cartazes nas redes sociais, grupos de aplicativos de mensagens e bancos de dados de pessoas desaparecidas.
"É a primeira vez que isso acontece. Ramsy nunca sai de casa. Estamos pedindo que ele volte", disse a mãe, Doris Kamathi.
Os relatos de desaparecimentos são associados a fenômenos diversos, incluindo sequestros, tráfico de menores e abandono, colocando o sistema de proteção infantil sob escrutínio. Não há consenso, entretanto, sobre até que ponto se trata de um fenômeno em ascensão ou, então, uma percebida crise alavancada pelas redes sociais.
Dados do governo nacional dão conta de 1.636 desaparecimentos de crianças no Quênia entre janeiro de 2025 e março de 2026. Outros 1.952 casos envolviam sequestro, outros 6.820 eram de abandono e mais 173 foram ligados ao tráfico de menores.
Crescente preocupação
Em Sinendet, um vilarejo no condado de Nakuru, as preocupações com a segurança das crianças se intensificaram após a morte de Mercy Nyambura Mureithi. Aos 12 anos, ela desapareceu em maio, enquanto caminhava de volta para casa após a escola.
O sumiço desencadeou uma busca desesperada por familiares, vizinhos e autoridades até que o corpo da menina foi encontrado, chocando a comunidade e atraindo atenção nacional. Para muitos pais, a morte de Mercy transformou a segurança infantil de uma preocupação distante em uma realidade imediata.
Kiaraho Mwangi, chefe administrativo de Sinendet, disse que o caso motivou novas discussões entre pais, professores e líderes locais sobre a necessidade de maior supervisão das crianças e vigilância comunitária mais forte.
"Crianças com menos de 17 anos não deveriam ser deixadas sozinhas em nenhum momento", diz George Onyango, fundador da Promise Giving Children's Home, uma organização sem fins lucrativos em Kayole.
Defensores do bem-estar infantil argumentam que, embora o Quênia tenha estruturas legais destinadas a proteger menores, a implementação permanece desigual. Investigações sobre crianças desaparecidas podem ser prejudicadas por recursos limitados, denúncias tardias e coordenação inadequada entre agências.
Ao mesmo tempo, o crescimento das plataformas digitais introduziu novos riscos. Organizações de proteção à infância, como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), têm alertado cada vez mais sobre exploração online, aliciamento e redes de tráfico que usam redes sociais e aplicativos de mensagens para atingir crianças vulneráveis.
Pedidos por ações mais duras
John Waunga, bispo e fundador do Share the Love Centre Ministry, no condado de Murang'a, critica as autoridades pelo que considera uma resposta inadequada ao problema. Há crescente frustração pública pelos casos não resolvidos. "O governo fez um trabalho muito ruim", disse. "Quanto é isso? Quantas crianças são essas em 365 dias? Mais de 8 mil crianças. Para onde essas crianças estão indo?"
A apresentadora de TV e defensora da igualdade de gênero Janet Mbugua também pediu que o problema seja tratado como uma emergência nacional. "Há todas essas atualizações perturbadoras sobre crianças e o estado em que elas foram encontradas. Isso deveria preocupar todos nós", afirmou.
Para famílias como a dos Karani, no entanto, a questão não é medida em bancos de dados ou debates políticos. Doris Kamathi, cujo filho adolescente desapareceu, afirma que o impacto emocional de ter um filho desaparecido mudou a forma como ela vê cada novo relato de situações semelhantes.
"Quando vejo relatos de outras crianças desaparecidas, meu coração se parte, porque sei exatamente o que esses pais estão sentindo", disse ela à DW. "Hoje é o filho deles, ontem foi o meu, e amanhã pode ser o de outra pessoa. Não podemos continuar tratando esses casos como incidentes isolados. Nossas crianças merecem estar seguras."
Polícia contesta
Enquanto autoridades, grupos de proteção infantil e líderes comunitários buscam soluções, as estatísticas continuam levantando perguntas difíceis de responder sobre a segurança das crianças no Quênia.
A polícia reagiu às alegações de que o Quênia estaria enfrentando um aumento sem precedentes nos casos de crianças desaparecidas, argumentando que as redes sociais ampliaram a ansiedade pública por meio da circulação de conteúdo desatualizado e enganoso.
O porta-voz da polícia, Muchiri Nyaga, disse que investigadores observaram uma tendência crescente de cartazes antigos de pessoas desaparecidas, casos já resolvidos e, em alguns casos, imagens geradas por inteligência artificial sendo compartilhados repetidamente online, criando a impressão de uma crise em rápida escalada.
"Não temos um aumento nos casos de crianças desaparecidas no Quênia. Percebemos que parte do material que circula é reciclado. Isso coloca o país em uma situação em que pensamos que há uma emergência quando, na verdade, não há", afirmou Nyaga.
A polícia afirma ter registrado 139 casos de crianças desaparecidas em 2026, em comparação com 754 casos em 2025 e 1.276 casos em 2024.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.