"Quem somos": estudo revela como o orgulho de ser brasileiro resiste à crise nas instituições
Levantamento analisou mais de 600 mil publicações espontâneas na rede e mostra que o sentimento nacional se apoia no pertencimento, na cultura e na solidariedade
O levantamento inédito da plataforma Cosmo revelou que o orgulho de ser brasileiro está cada vez mais dissociado de governos e instituições, que somam menos de 4% das menções positivas. A análise de mais de 638 mil publicações digitais aponta que quase 75% das manifestações espontâneas celebram a cultura, o modo de ser do povo e conquistas coletivas. Essa conexão cívica se fortalece sobretudo no território, na solidariedade comunitária e na união demonstrada em momentos de crise nacional.
É perfeitamente possível criticar os rumos do país e, na mesma medida, nutrir um profundo afeto pelas suas raízes. Às vésperas do 7 de Setembro, o levantamento inédito "Orgulhos do Brasil — Um mapa das manifestações espontâneas do orgulho nacional" revelou que o orgulho de ser brasileiro está cada vez mais desvinculado da aprovação de governos ou figuras políticas.
Conduzida pela plataforma Cosmo, a análise examinou 638.363 publicações entre os anos de 2019 e 2025 em redes como Twitter/X, Instagram, Reddit, Bluesky, YouTube e portais de notícias, identificando que o sentimento cívico se apoia, sobretudo, no pertencimento à terra e à cultura.
Orgulho de ser brasileiro
A pesquisa demonstrou que quase três quartos das menções diretas ao país celebram as conquistas coletivas, o modo de ser e os valores do povo. Por outro lado, o aparato institucional quase não aparece como motivo de celebração, somando menos de 4% das menções positivas.
Em contrapartida, até mesmo a posição eleitoral individual ou familiar passou a integrar o espectro de identidade: votações de parentes ou mudanças de posicionamento de pessoas próximas foram mapeadas como fontes de admiração ou de ruído nas relações afetivas.
A força do território e a capacidade de união no orgulho de ser brasileiro
A capacidade da sociedade de se unir em momentos críticos também emergiu como um pilar fundamental da pesquisa. Durante eventos de grande impacto, como a pandemia e as enchentes no estado do Rio Grande do Sul, a mobilização comunitária, o engajamento na vacinação e as redes de solidariedade superaram em citações os tradicionais cartões-postais do país.
Ponderando esses achados, a psicanalista, pesquisadora e cocriadora da plataforma Cosmo, Camila Holpert, destacou a natureza dessa conexão:
"Em 74,5% dessas publicações, o orgulho está associado à identidade brasileira e às realizações do país: a quem somos, ao que fazemos e às conquistas que alcançamos. Isso mostra que, ao manifestar orgulho, o brasileiro tende a celebrar mais quem é, o que faz e o que realiza do que as instituições que organizam o país".
Diferente das sondagens tradicionais por questionário, a metodologia utilizada combinou inteligência artificial e curadoria humana para interpretar narrativas espontâneas que emergem organicamente nos ambientes digitais.
O mestre em Sistemas de Informação, jornalista e cocriador da plataforma Cosmo, Rafael Kenski, ressaltou o caráter inovador da abordagem:
"É quase o caminho inverso de uma pesquisa tradicional. Em vez de formular primeiro as perguntas possíveis e depois procurar evidências, observamos o que emerge de centenas de milhares de manifestações espontâneas". O estudo conclui que a percepção do país se constrói no cotidiano dos bairros e regiões, provando que o sentimento nacional ganha força no vínculo real que as pessoas mantêm com seus territórios e suas comunidades.
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