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Protestos, ajuste econômico e fratura institucional marcam crise do governo de direita na Bolívia

Ninguém se arrisca a prever o desfecho da situação no país. O que se sabe é o presidente Rodrigo Paz não renunciará por vontade própria, pois as elites que chegaram ao poder com ele têm muito a perder

21 mai 2026 - 17h45
(atualizado às 17h54)
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Quando Rodrigo Paz venceu o segundo turno das eleições bolivianas em outubro de 2025, encerrando quase duas décadas de hegemonia do Movimento ao Socialismo (MAS), boa parte do eleitorado que o levou ao Palácio Quemado o fez segurando o nariz.

Diante de um Tuto Quiroga abertamente alinhado à direita radical pró-Estados Unidos, Paz apresentou-se como o moderado possível: centrista, pró-diálogo, filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, com discurso de reconciliação. Seis meses depois, La Paz está sitiada, faltam combustível, alimentos e medicamentos nos hospitais. Tanto que um boliviano resume o sentimento das ruas com uma frase:

"Achávamos que o Tuto era o fascista. O fascista, no fim, era o Paz."

Esse deslocamento — do moderado ao governante que se sustenta sobre a extrema-direita internacional — é o que precisa ser explicado. E ele diz menos sobre a astúcia pessoal de Paz do que sobre a engrenagem em que a Bolívia foi colocada.

Traição ao acordo com a Bolívia campesina e trabalhadora

A onda atual de protestos começou com a Lei 1.720, promulgada em 10 de abril, que autoriza a conversão de pequenas propriedades tituladas em propriedades médias; abrindo a porta para que terras coletivas do campesinato e dos territórios indígenas sejam progressivamente expostas à hipoteca, à especulação e à concentração fundiária. Para os movimentos camponeses e indígenas — base social do ciclo Morales-Arce e espinha dorsal da Bolívia campesina — a mensagem foi de que o pacto plurinacional inscrito na Constituição de 2009 está sendo desmontado por dentro.

O que começou como mobilização rural rapidamente se somou à insatisfação de mineiros, professores, da Central Operária Boliviana (COB) e dos setores urbanos asfixiados pela pior crise econômica em quarenta anos: inflação na casa dos dois dígitos, escassez crônica de dólares, fila por combustível.

Não se pode negar que Paz herdou um Estado em situação difícil e parte do ajuste, como o corte do subsídio aos combustíveis, era talvez inevitável. Mas a sequência que se seguiu não foi a do moderado prometido em campanha. Foi a do reformador estrutural acelerado, atacando proteções comunitárias sem qualquer construção política prévia.

A questão Lara e o impasse com o cruceñato

Em meio a essa crise, o vice-presidente Edman Lara — ex-policial expulso da corporação por denunciar corrupção, depois youtuber popular, peça-chave para capilarizar o voto que levou Paz ao segundo turno — está completamente rompido com o presidente. Tentaram fazê-lo renunciar; ele se recusou. Em resposta, cortaram suas atribuições institucionais. Lara segue lá, esvaziado, exigindo a renúncia do próprio presidente que ajudou a eleger. Afinal, é ele quem assumiria.

Simultaneamente, Paz se indispôs com as elites políticas de Santa Cruz. No início, ele havia prometido redistribuir o orçamento metade a metade entre o governo central e os governos departamentais e municipais. Mas, uma vez no Palácio, foi adiando. O cruceñato — historicamente o pilar da direita boliviana moderna — perdeu a paciência. Além disso, o Partido Democrata Cristão, sigla que o levou ao poder, fragmentou-se no Legislativo. Em seis meses, Paz conseguiu o feito de não ter base nem nas ruas, nem entre parte das suas próprias elites de origem, nem no Parlamento.

O que sobra, então? Sobra, basicamente, a Internacional reacionária que se consolidou nos últimos anos costurando Trump, Milei, Kast e agora Paz. E aqui a figura que merece atenção é a do argentino Fernando Cerimedo. O mesmo personagem que, em 2022, alimentou a narrativa de fraude eleitoral no Brasil em favor de Bolsonaro. Cerimedo não ocupa cargo formal no governo boliviano, mas opera como eminência parda do presidente, articulando-o com o ecossistema MAGA e com a direita radical do Cone Sul.

Não é exagero dizer que o que ainda mantém Rodrigo Paz no cargo é menos a institucionalidade boliviana do que o suporte logístico, comunicacional e político dessa rede de extrema-direita transnacional.

Trata-se de governos eleitos por plataformas supostamente moderadas que, uma vez isolados em seus próprios países, passam a se sustentar na arquitetura de uma extrema-direita globalizada.

Protestos pulverizados

Hoje, quem está nas ruas é uma "esquerda social" pulverizada, indígena e camponesa, somada a setores médios urbanos que se sentem traídos pelo voto utilitário que deram em outubro. Os pititas de 2019 — os jovens de classe média alta que ajudaram a derrubar Evo Morales — reorganizam-se agora sob o nome de La Resistencia, distribuindo manuais de mobilização bairro a bairro contra um suposto retorno do MAS ao poder. Este suposto - ainda que pouco provável - retorno do MAS, aliás, tem sido o principal argumento do governo para desqualificar os protestos.

Ninguém em La Paz se arrisca a prever o desfecho da situação em que o país ora se encontra. O que se sabe é que Rodrigo Paz não renunciará por vontade própria; as elites que chegaram ao poder com ele têm muito a perder.

E o cerco internacional em sua defesa já começou se organizar: nesta terça-feira, o secretário de Estado adjunto dos EUA, Christopher Landau, classificou os protestos como "um golpe em curso", financiado por uma suposta "aliança maligna entre a política e o crime organizado", e cobrou nominalmente que Brasil e Colômbia apoiem "o processo institucional" boliviano.

A pressão sobre o Itamaraty é evidente: Washington pede que governos que se dizem democráticos avalizem um presidente isolado em seu próprio país.

Este texto foi elaborado a partir de áudios enviados pelo autor, transcritos e editados pela cientista política Débora Thomé, da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), com auxílio da redação do The Conversation Brasil._

The Conversation
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Foto: The Conversation

Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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