Os pontos fracos na estratégia de guerra de Trump no Irã
A nova estratégia de Donald Trump contra o Irã foca em ataques pontuais e recorrentes para conter as forças do país no Estreito de Ormuz sem iniciar uma ocupação terrestre. Chamada de "aparar a grama", a tática apenas atrasa a reconstrução bélica iraniana, sem eliminá-la de vez. Especialistas alertam que essa abordagem pode resultar em um conflito permanente e de desgaste contínuo, além de correr o risco de incentivar Teerã a acelerar a busca por armas nucleares como forma definitiva de dissuasão.
Retomada de ataques pontuais visa minar ameaça iraniana no Estreito de Ormuz, e ao mesmo tempo minimizar desgaste da Casa Branca por causa do conflito. Quais as chances de isso dar certo?O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, expôs com bastante precisão o que poderá ser a nova fase da guerra contra o Irã. Segundo ele, os iranianos tentaram reconstruir seus sistemas de radar após a mais recente grande onda de ataques americanos.
"Esperamos até que eles estivessem quase reconstruídos e então os atingimos", disse Trump.
Na terça-feira (01/09), as forças armadas americanas voltaram a atacar numerosos alvos no Irã. Segundo o Comando Central dos EUA (Centcom), foram destruídos, entre outros, sistemas de radar e defesa aérea, instalações marítimas, capacidades de instalação de minas navais e equipamentos de comunicação.
O Irã respondeu com mísseis e drones contra instalações americanas na região. Com isso, concretizou-se aquilo que o Centcom havia indicado poucos dias antes como uma possível estratégia para a próxima fase da guerra.
A estratégia de "aparar a grama"
Segundo informações do portal de notícias Axios, ataques limitados e repetidos quando necessário teriam o objetivo de impedir que o Irã restabeleça suas capacidades militares no Estreito de Ormuz.
Um integrante do governo americano descreveu a ideia usando um conceito da política de segurança israelense: "aparar a grama".
A metáfora descreve uma estratégia que nem sequer promete derrotar definitivamente o adversário. Basta reduzir regularmente suas capacidades militares a um nível que mantenha a ameaça sob controle. Quando a grama volta a crescer, ela é cortada novamente.
Aplicada à situação do Irã, isso significaria que os Estados Unidos monitoram quais capacidades militares o adversário está reconstruindo e voltam a atacar quando um determinado limite é ultrapassado.
Sucesso com prazo de validade
Nos últimos meses, os Estados Unidos de fato obtiveram êxitos militares. As forças armadas americanas reduziram significativamente as capacidades militares iranianas no Estreito de Ormuz e iniciaram a remoção de minas navais iranianas.
Mas esses sucessos não são permanentes. Teerã repara ou adquire novos radares, sistemas de defesa aérea e mísseis antinavio.
As bombas americanas podem destruir posições importantes dos iranianos em pontos específicos. No entanto, o conhecimento técnico e a base industrial da tecnologia militar iraniana permanecem intactos.
Isso atrasa a reconstrução, mas não a impede. E os Estados Unidos se veem repetidamente diante da mesma escolha: aceitar que Teerã recupere capacidades militares ou voltar a atacar para destruí-las.
Já em abril, a especialista em Oriente Médio Mona Yacoubian, do Center for Strategic and International Studies (CSIS), em Washington, alertou para as consequências dessa dinâmica. Segundo ela, a situação pode evoluir para um "conflito permanente de baixa intensidade, interrompido por intervenções mais intensas".
A vantagem tática do Irã
O fato de a estratégia de "cortar a grama" ter limites também se deve ao fato de ela nunca ter sido concebida para uma guerra contra um Estado.
Israel desenvolveu a estratégia para combater atores não estatais, como o grupo palestino Hamas, considerado uma entidade terrorista por alguns países ocidentais.
Mas Yacoubian ressalta que o "corte da grama" pode ser uma "estratégia militar ultrapassada" no caso de adversários com características estatais e capacidades mais robustas.
Isso fica especialmente evidente no Estreito de Ormuz. Enquanto os EUA precisam manter a hidrovia aberta de forma confiável, ao Irã basta que o resto do mundo acredite que a travessia continua perigosa.
Mesmo um adversário militarmente muito enfraquecido pode, assim, impor custos consideráveis a Washington.
Além disso, os Estados Unidos enfrentam outro problema: podem controlar a intensidade de seus próprios ataques, mas não a reação de Teerã.
Trump já advertiu diversas vezes o governo iraniano contra qualquer retaliação militar.
Apesar desses alertas, o regime iraniano respondeu imediatamente aos últimos ataques americanos com mísseis contra instalações americanas na região. Somente a Jordânia informou que 13 mísseis balísticos cruzaram seu espaço aéreo, dos quais dez foram interceptados.
A questão nuclear
Yacoubian alerta, porém, para um risco ainda maior associado aos ataques regulares dos Estados Unidos: Teerã pode acabar concluindo que uma dissuasão duradoura só poderá ser alcançada "por meio da busca por uma arma nuclear".
Nesse cenário, Estados Unidos e Israel poderiam acabar acelerando justamente o desenvolvimento que pretendiam conter ao atacar o Irã.
Sob a perspectiva de Washington, as alternativas para Trump também não parecem muito melhores. Se ele permitir que o Irã recupere força militar na região do Estreito de Ormuz, arrisca novos ataques a embarcações e perturbações em uma das rotas energéticas mais importantes do mundo — com consequências já conhecidas para a economia global.
Apesar das tensões e das negociações repetidas, um acordo político entre Washington e Teerã fracassou até agora devido a divergências aparentemente incontornáveis.
Próxima "guerra sem fim"?
Por outro lado, a estratégia de "cortar a grama" tem seu apelo dentro dos EUA para Trump, apesar de todas as incertezas na política externa: ela dispensa ocupação militar, grandes contingentes de tropas terrestres americanas e esforços de reconstrução nacional ("nation building").
Ao mesmo tempo, ao se limitar a "aparar a grama", Trump se distancia das chamadas "guerras sem fim" de governos anteriores na Casa Branca que ele tantas vezes criticou.
No fim, porém, o que parece ser a solução para evitar uma guerra interminável pode ter justamente o efeito contrário.
Para Yacoubian, "cortar a grama" é na verdade uma "estratégia de Sísifo de desgaste sem fim": enquanto Washington não estiver disposto a aceitar, em algum momento, a reconstrução das capacidades iranianas, cada ataque bem-sucedido ensejará uma resposta, perpetuando o conflito.
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