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Onde a Amazon faz mais dinheiro (dica: não é na loja virtual)

O negócio de computação em nuvem foi um grande sucesso para a empresa, mas ela tem diante de si alguns desafios neste mercado.

16 dez 2019
08h20
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O executivo Andy Jassy lidera a divisão mais lucrativa da Amazon
O executivo Andy Jassy lidera a divisão mais lucrativa da Amazon
Foto: AWS / BBC News Brasil

Andy Jassy pode não ser famoso como seu chefe, Jeff Bezos, mas ele administra o Amazon Web Services (AWS), talvez a parte mais importante do império da Amazon.

A AWS vende armazenamento e processamento de dados para empresas que não desejam a dor de cabeça de gerir sua própria infraestrutura de tecnologia da informação (TI).

Este tipo de negócio, conhecido como computação em nuvem, existe há no máximo 15 anos, mas a rápida expansão desta indústria fez com que a AWS responda hoje por 70% dos lucros da Amazon em seu trimestre mais recente.

Em entrevista à BBC, Jassy explicou que a divisão começou atendendo empresas como Airbnb, Deliveroo e Pinterest, quando ainda eram iniciantes em seus respectivos mercados. Desde então, estes negócios cresceram com base nos serviços ofertados pela AWS, que, nos últimos anos, passou a atender mais e mais empresas já estabelecidas.

Apesar desse sucesso, a companhia tem pela frente alguns desafios, entre eles uma feroz concorrência de outra gigante da tecnologia, a Microsoft.

Tensões com o governo dos EUA

A AWS sofreu um grande revés em outubro, quando o governo dos Estados Unidos concedeu um contrato de US$ 10 bilhões (R$ 41,1 bilhões) do Departamento de Defesa (DoD) à Microsoft.

Esperava-se que a Amazon vencesse a concorrência para o projeto Joint Enterprise Infrastructure (Jedi), e a empresa está contestando a decisão, dizendo que houve interferência do presidente americano, Donald Trump.

Em um documento tornado público em dezembro, a AWS explicou por que estava protestando. "A questão é se o presidente dos Estados Unidos pode usar o orçamento do Departamento de Defesa para seus próprios fins pessoais e políticos", afirmou a empresa.

"Os erros substanciais do Departamento de Defesa são difíceis de entender e impossíveis de avaliar em separado da determinação expressa do presidente de, nas suas próprias palavras, 'prejudicar a Amazon'."

As relações entre a Casa Branca e o chefe da Amazon, Jeff Bezos (à direita), são instáveis
As relações entre a Casa Branca e o chefe da Amazon, Jeff Bezos (à direita), são instáveis
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Em entrevista à BBC no evento anual da AWS em Las Vegas, Jassy disse que a decisão é perigosa, porque a Amazon tem "a melhor plataforma de infraestrutura de tecnologia possível".

Jassy também disse que isso cria um precedente "muito perigoso" para o governo ao não basear as decisões em "avaliações objetivas". Quando perguntado se o contrato do Jedi mudaria a maneira como a AWS lidaria com o governo americano no futuro, Jassy disse que não.

Mas parece ser improvável que esse relacionamento vá melhorar, porque Trump deixou claro seu desagrado pela Amazon. Em parte, isso ocorre porque o fundador da Amazon, Jeff Bezos, também controla o jornal The Washington Post, que o presidente considera hostil em relação a ele.

De fato, a Amazon pode vir a enfrentar novas batalhas com agências governamentais e também é alvo de várias investigações sobre se a companhia está agindo de maneira anticompetitiva.

No início de dezembro, a agência de notícias Bloomberg publicou que a Comissão Federal de Comércio (FTC, na sigla em inglês), uma agência do governo americano, havia ampliado seu escrutínio sobre a Amazon além de suas operações de comércio eletrônico para incluir a AWS.

A FTC estava investigando se a AWS estava discriminando empresas que também trabalham com outros provedores de computação nuvem e priorizando aquelas que trabalham exclusivamente com a AWS.

Regulamentação do uso de reconhecimento facial

Houve muito debate sobre a venda de sistemas de reconhecimento facial da Amazon, que ela chama de Rekognition. Para defensores de direitos civis, esta é "talvez a tecnologia de vigilância mais perigosa já desenvolvida".

A rival Google limitou o uso do reconhecimento facial à identificação de rostos de celebridades, e o executivo-chefe do seu negócio de computação em nuvem, Thomas Kurian, disse à BBC que não ofereceu aos seus clientes serviços mais poderosos equivalentes ao Rekognition, porque isso não é permitido em alguns países.

Jassy afirmou que há uma confusão sobre este tema por falta de regulamentação por parte do governo americano.

Amazon promoveu sua tecnologia de reconhecimento facial como uma ferramenta para combater crimes
Amazon promoveu sua tecnologia de reconhecimento facial como uma ferramenta para combater crimes
Foto: Amazon / BBC News Brasil

"Se um governo não regula algo que as pessoas estão debatendo, você acaba tendo 50 regras diferentes em 50 Estados diferentes", disse ele.

Jassy sugeriu que o uso do reconhecimento facial pode ter muitos benefícios. "Isso reuniu crianças desaparecidas com seus pais, encontrou seres humanos traficados, melhorou a segurança. Há várias formas de usar isso para gerar valor para a sociedade", disse o executivo.

O presidente da AWS também disse que, nos quase três anos em que sua empresa oferta a tecnologia de reconhecimento facial, não houve relatos de uso indevido por órgãos policiais.

Jassy afirmou que a AWS fornece orientações muito claras às agências de segurança de que, para usar o reconhecimento facial, devem usar resultados com um nível de confiança de 99% ou mais e que, mesmo assim, isso só deve ser considerado mais uma evidência em meio a uma investigação conduzida por humanos.

"Fornecemos treinamento legal gratuito sobre como usar a tecnologia de reconhecimento facial e se descobrirmos algum tipo de abuso, o que ainda não ocorreu, suspenderemos a possibilidade de usar o serviço e a plataforma ", disse Jassy.

"Mas eu entendo por que as pessoas podem querer mais garantias de que isso não vai acontecer. Acho que o governo deve regulamentar e dar mais orientações."

Mudanças climáticas: a computação em nuvem está ajudando ou prejudicando?

As empresas de computação em nuvem armazenam dados em seus próprios datacenters, e com a Amazon não é diferente. A questão é que esses locais consomem muita energia - cerca de 2% da eletricidade de todo o mundo - e contribuem com 0,3% das emissões globais de carbono, segundo a revista Nature.

A promessa ambiental da Amazon inclui fazer com que todo seu negócio funcione com 80% de energia renovável até 2024 e chegue a 100% até 2030, além de se tornar neutro em carbono até 2040.

"O meio ambiente é uma questão obviamente crítica para o futuro do nosso planeta. A Amazon estabeleceu um conjunto muito agressivo de metas que não tenho certeza de que vimos em outros lugares por aí", afirmou Jassy.

Na semana passada, a companhia britânica BP anunciou que fornecerá energia renovável aos datacenters europeus da AWS que controlam sua computação em nuvem.

Jassy refuta as críticas às AWS por trabalhar com empresas da indústria de petróleo
Jassy refuta as críticas às AWS por trabalhar com empresas da indústria de petróleo
Foto: AWS / BBC News Brasil

Além da BP, a Shell também é cliente da AWS, o que gerou crítica à companhia, mesmo de alguns dos próprios funcionários do grupo. Em abril, milhares de pessoas que trabalham na Amazon assinaram uma carta dizendo que a empresa não deveria atender a indústria de petróleo.

Mas Jassy argumenta que a computação em nuvem não é um facilitador de atividades que contribuem para o aquecimento global. "Se os provedores de computação em nuvem não atenderem às empresas de energia, elas não vão parar de repente de atuar da forma como já fazem hoje."

Jassy afirmou que a computação em nuvem é mais eficiente em termos de energia do que a infraestrutura de TI que estas companhias de energia usariam em seu lugar.

"Preferimos ser parte da solução e ajudar estas empresas a serem mais eficientes energeticamente e ambientalmente amigáveis. E também sermos capazes de investir substancialmente em energia renovável e outras invenções nessas áreas."

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