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O que está por trás da onda anti-imigração na África do Sul

30 jun 2026 - 15h25
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Pequenos partidos e grupos de justiceiros exploram insatisfação com desemprego, pressão por recursos e criminalidade. Mais de 25 mil estrangeiros já deixaram o país por medo de violência.Uma crescente onda de sentimento anti-imigração coloca a África do Sul em estado de alerta. Foram realizadas marchas de manifestantes anti-imigrantes nesta terça-feira (30/06), definida como "prazo" por grupos xenófobos para que estrangeiros sem documentos deixassem o país, na esteira de uma campanha nas ruas que já dura meses.

A turbulência já levou, nas últimas semanas, ao assassinato de dois cidadãos de Moçambique, um da Etiópia e um do Malaui. Milhares de imigrantes africanos escapam, enquanto isso, para seus países de origem ou procuram acampamentos improvisados, por medo de ataques.

As marchas anti-imigração vêm sendo mobilizadas por uma coalizão solta de pequenos partidos políticos, que se somam a grupos de vigilância liderados por cidadãos. Eles afirmam que migrantes estimulam o crime e tiram empregos dos moradores locais.

Até 2025, as manifestações eram em grande parte discretas. Elas aumentaram no fim do ano passado, quando estrangeiros sem documentos foram impedidos de acessar clínicas e hospitais e se intensificaram em 2026.

Dificuldades econômicas

Para analistas, a xenofobia aumenta num contexto de crescente insatisfação na nação mais rica da África. O desemprego vem crescendo - hoje chega perto de 33% -, enquanto a população convive com altas taxas de criminalidade e pressão sobre recursos.

O fluxo constante de migrantes, em sua maioria africanos, virou um bode expiatório conveniente, com atores políticos explorando as tensões antes das eleições municipais de novembro.

"Os sul-africanos estão cansados de ficar em longas filas em hospitais competindo por vagas em escolas públicas com imigrantes ilegais, competindo por empregos com estrangeiros, estão cansados de nigerianos que vendem drogas para a juventude deste país," disse, na semana passada, Musa Hlongwa, presidente do grupo civil anti-migrantes United South Africa.

Os grupos que lideram a campanha anti-imigração parecem ser bem organizados e contar com bons recursos. Eles têm forte presença nas redes sociais, onde espalham desinformação.

"O principal ingrediente é o oportunismo político de direita", disse o cientista político Sandile Swana à AFP. "Estamos vendo uma nova forma de violência de negros contra negros que desvia a atenção dos verdadeiros culpados da crise econômica."

Na segunda-feira, o presidente Cyril Ramaphosa disse que "são reais e merecem ser ouvidas" as preocupações dos cidadãos. "Mas o direito ao protesto e à liberdade de expressão não permite ameaçar nem intimidar outros, nem engajar em atos de vandalismo ou violência," acrescentou.

Violência, ameaça e intimidação

Embora o governo não tenha endossado o "prazo" e condene a violência, foi criticado por outros Estados africanos e grupos da sociedade civil por não conseguir conter o movimento xenófobo.

Nesta terça-feira, trabalhadores ficaram em casa, lojas foram fechadas e ônibus ficaram parados em toda a África do Sul, à medida que aumentavam os temores de que marchas anti-imigrantes desencadeassem atos de violência. Polícia e militares foram enviados às ruas para tentar manter a ordem em várias cidades.

Embora digam que têm como alvo apenas imigrantes ilegais, os vigilantes frequentemente não fazem distinção, e muitos migrantes em situação regularizada já foram atacados ou tiveram seus bens destruídos.

Segundo autoridades, 195 suspeitos foram presos desde 1º de março por hostilidade contra estrangeiros. Acumulam-se, paralelamente, relatos de episódios e intimidação.

Sul-africanos estariam exigindo verificar documentos de estrangeiros ou aparecendo em suas casas e locais de trabalho para mandá-los embora. Parte dos imigrantes contam ter sido instruídos a deixar o país por empregadores temerosos de represálias, ou depois de serem despejados dos seus apartamentos.

Repatriações voluntárias

Vários países africanos — incluindo Quênia, Uganda, República Democrática do Congo, Nigéria, Malaui, Gana, Zimbábue e Moçambique — passaram a organizar repatriações voluntárias, a fim de proteger os próprios cidadãos.

Segundo a Autoridade de Gestão de Fronteiras (BMA, na sigla em inglês), mais de 25 mil pessoas já foram repatriadas nas últimas semanas. A maioria estava na África do Sul sem permissão.

Outros milhares de estrangeiros se dirigiram a acampamentos improvisados na cidade oriental de Durban, ou em centros em Joanesburgo e Cidade do Cabo, aguardando assistência para voltar para casa.

Em Durban, mulheres e bebês se aglomeravam nesta semana, sentados em papelão ou cobertores, enquanto grupos de ajuda distribuíam comida e roupas. Algumas pessoas esperam sua vez por vários dias, enquanto ônibus saem um após o outro.

Um deles era o malauiano John Allen, de 30 anos, que se viu forçado a se despedir da namorada sul-africana e do filho de um ano. "Eu me sinto mal pelo meu filho. Ele é muito novo. Quando eu for embora, quem vai sustentá-lo?"

A mãe da criança ganha um salário baixo como faxineira, quatro vezes menor do que o pai. Ele assistiu, entretanto, a estrangeiros na sua vizinhança serem espancados e irem embora. "Há duas opções: posso perder minha vida ou posso ir embora", ele disse, em pé com outros homens entre pilhas de bagagem, esperando um ônibus.

Alegações falsas alimentam xenofobia

Especialistas ressaltam que são falsas as alegações centrais dos grupos xenófobos, que apontam a uma crescente enxurrada de imigrantes e altos níveis de criminalidade associados a estrangeiros.

Há cerca de três milhões de imigrantes no país, segundo a agência nacional de estatísticas. Mais de 63% vêm de outros países da África austral, muitos dos quais enfrentam crises econômicas e instabilidade política.

O percentual de imigrantes no país (perto de 5%) decresceu nos últimos anos e fica bem abaixo do que em muitos outros países. "A impressão é que há hordas de pessoas entrando no país, mas os dados apontam o contrário", diz Anthony Kaziboni, pesquisador sênior do Centro de Desenvolvimento Social na África da Universidade de Johanesburgo.

A polícia não divulga dados sobre as nacionalidades de pessoas condenadas por crimes. Mas números oficiais de 2017 mostraram que 11.842 estrangeiros estavam detidos em prisões sul-africanas — ou cerca de 6% da população carcerária. Destes, 1.380 estavam lá por entrada ilegal no país.

"Todas as evidências sugerem que imigrantes são cumprem a lei em maior proporção. A maioria de seus crimes são violações migratórias", afirma Loren B. Landau, professor de Migração e Desenvolvimento na Universidade de Oxford.

Já um relatório do Banco Mundial de 2018 mostrou que, para cada migrante empregado, cerca de dois empregos são criados para sul-africanos por meio da atividade empresarial. Isso ocorre porque migrantes ganham dinheiro e depois gastam a maior parte dele na África do Sul em bens e serviços produzidos localmente.

Além disso, migrantes sem documentação têm pouca probabilidade de tentar usar hospitais ou escolas públicas, por medo de serem descobertos por autoridades. Serviços de saúde e educação enfrentam dificuldades em todo o país, mas isso se deve principalmente a subinvestimento crônico e corrupção endêmica, segundo economistas.

Outras ondas de hostilidade

No ano passado, uma pesquisa do Conselho de Pesquisa em Ciências Humanas mostrou que os sul-africanos estavam mais hostis a imigrantes do que nunca. Um em cada seis adultos disse que receberia todos os estrangeiros, enquanto 42% afirmavam que não receberiam nenhum (em comparação a 33% em 2021).

Já uma pesquisa Afrobarometer mostrou, também em 2025, que sete em cada dez sul-africanos veem o impacto econômico dos imigrantes como negativo, com esmagadores 85% dizendo que as autoridades deveriam reduzir o número de refugiados que entram ou pará-los completamente.

A Ipsos constatou, por sua vez, que quase três quartos dos entrevistados não confia "de forma alguma" em imigrantes africanos.

Nas últimas décadas, outras ondas de violência xenófoba varreram a África do Sul. Em 2008, 62 pessoas foram mortas em distúrbios anti-imigrantes e milhares foram deslocadas. Novos surtos seguiram em 2015 e 2016.

Já em 2019, multidões armadas atacaram negócios de estrangeiros em Joanesburgo deixando pelo menos 12 mortos — incluindo dez cidadãos sul-africanos. Mas esta é a primeira vez que tais ameaças levam vários governos a organizar simultaneamente repatriações voluntárias coordenadas para milhares de seus cidadãos.

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ht (AFP, Reuters, ots)

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