O destino dos carros roubados na Europa e levados à Rússia
País planeja mudar legislação e legalizar veículos que constam em listas de busca da União Europeia. Na Alemanha, cresce temor de que a medida incentive a criminalidade.A Rússia poderá em breve legalizar veículos roubados na União Europeia (UE) que forem levados para o país. A possível alteração legislativa foi proposta pelo Ministério do Interior russo e está em debate desde fevereiro. O objetivo seria proteger os interesses de proprietários de veículos que "foram incluídos em listas de busca por iniciativa de países hostis", afirmou a pasta em comunicado.
O projeto de lei foi elaborado por ordem do presidente da Rússia, Vladimir Putin, segundo informou o jornal russo Kommersant. Se a lei for aprovada, os carros listados como roubados nos 27 países do bloco europeu poderão ser oficialmente registrados no país. A regra também inclui veículos provenientes de países como Suíça, Noruega, EUA, Canadá, Japão, Coreia do Sul e Austrália.
Outro objetivo seria legalizar veículos procurados internacionalmente pela Ucrânia, supostamente confiscados em territórios ucranianos ocupados.
Rússia: Alemanha não responde às consultas
Atualmente, é proibido na Rússia registrar veículos que constem em listas internacionais de busca. No entanto, segundo o Kommersant, o Ministério do Interior afirma que, em geral, não é possível determinar por que um veículo foi incluído em uma base de dados desse tipo. Desde o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, as autoridades dos "países inimigos" não respondem às solicitações russas de informações sobre esses veículos, diz Moscou.
A Alemanha é citada explicitamente como exemplo. O tema repercute especialmente no país, onde há temor de que a nova lei provoque um aumento vertiginoso no número de carros roubados. O Ministério do Interior em Moscou afirma que Berlim ignora tais pedidos "por motivos políticos".
Segundo a pasta, em janeiro de 2026 havia na Rússia 123 veículos declarados como procurados internacionalmente pela Alemanha, mas as autoridades alemãs não teriam fornecido qualquer informação sobre os motivos da busca.
BKA: sem troca de dados com a Rússia
O Departamento Federal de Investigações da Alemanha (BKA), responsável por investigar roubos de carros, confirmou à DW que, no momento, não há troca de informações com a Rússia nesses casos.
"A BKA tem conhecimento das solicitações das autoridades russas sobre veículos procurados na Alemanha. No entanto, como essas solicitações se referem principalmente a questões de direito civil (propriedade e interesse do proprietário na restituição), a BKA não tem competência sobre o assunto", informou a instituição.
O departamento não quis comentar se a nova lei russa poderia aumentar os roubos de carros na Alemanha. Os 123 veículos listados em janeiro representam apenas uma pequena fração do número real de carros furtados no país. Mais de 30,3 mil foram roubados em 2024, por exemplo, e apenas 8.858 casos foram solucionados.
"Rússia favorece a criminalidade"
Benjamin Jendro, porta‑voz do sindicato da polícia (GdP), sediado em Berlim, disse à DW que atualmente "não há uma troca intensa entre as autoridades" da Alemanha e da Rússia em muitos setores.
"No passado houve casos em que autoridades russas entraram em contato conosco e veículos procurados foram apreendidos lá", afirmou.
"Mas qualquer pessoa pode imaginar que, neste momento, nenhum agente alemão vai viajar à Rússia para recuperar um carro roubado - sobretudo porque, quando o veículo é encontrado, a indenização do seguro geralmente já foi paga há muito tempo", explicou Jendro.
O porta‑voz classificou o novo projeto de lei como um "sinal desastroso" e um "incentivo ao crime". "Há anos lidamos com números estáveis de roubos de veículos, embora em um nível muito alto. Uma lei assim dificultaria ainda mais o trabalho das autoridades de segurança contra quadrilhas internacionais de traficantes de carros", lamentou.
Segundo ele, muitos carros são levados ao Leste Europeu e desmontados. "Mas também há veículos roubados praticamente seguindo uma 'lista de compras' e que acabam rapidamente em países onde já não conseguimos rastreá‑los", acrescentou.