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'Venezuelanos buscam mudança no sistema', diz líder da oposição a Maduro

A líder da oposição venezuelana fala à BBC Mundo sobre o momento atual na Venezuela após as primárias de 22 de outubro, nas quais foi escolhida como candidata.

3 dez 2023 - 15h19
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Maria Corina Machado
Maria Corina Machado
Foto: BBC News Brasil

A política de oposição venezuelana María Corina Machado acredita que o povo do país mudou. Que a forte crise econômica que afundou o país, a separação de tantas famílias e o êxodo de um quarto da população levaram a uma reflexão: um aprendizado que pode, "agora sim", causar uma mudança na Venezuela.

"Antes havia problemas, mas muitos continuavam empregados e como havia dinheiro, esse dinheiro acabava resolvendo tudo", disse à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC) a política de oposição, em entrevista concedida em seu escritório em um bairro no leste de Caracas, a capital da Venezuela.

"Vamos aprendendo na marra, mas seguimos aprendendo e acabamos descobrindo o que significa ser venezuelano e querer seguindo sendo venezuelano", acrescenta, com um sorriso nos lábios fazendo em seguida uma pausa, prosseguindo quase em tom de sussurro.

Ficou para trás aquela política altissonante, para muitos radical, de 20 anos atrás. Aquela que interpelou Hugo Chávez no Congresso e foi chamada pelo presidente de "mosca", que "não são caçadas por águias".

Machado diz que ela, assim como os venezuelanos, mudaram a forma de compreender o país e renovaram os métodos que consideram adequados para gerar uma transição.

María Corina Machado Parisca tem 56 anos e três filhos. Ela é a mais velha de quatro irmãs em uma família liderada por um renomado empresário do setor metalúrgico que teve suas empresas expropriadas por Chávez. Sua mãe é uma renomada psicóloga e tenista.

Engenheira industrial com especialização em finanças, Machado trabalhou em diversas empresas do setor industrial antes de atuar em organizações de combate à pobreza e de fiscalização eleitoral.

A política, que várias vezes fez campanha pelo boicote das eleições, ganhou, em 22 de outubro, uma das primárias feitas pela oposição para para ser a candidata às eleições presidencias de 2024.

Entretanto, Machado está impossibilitada de concorrer a cargos públicos após decisão judicial. Ela segue confiando que as negociações com os Estados Unidos, país de que dependem os chavistas para a exportação de petróleo, acabem por lhe dar oportunidade de concorrer nas urnas com o presidente Nicolás Maduro.

Perguntada sobre o que fará caso não seja autorizada a disputar o pleito, ela responde de imediato que não acredita nesta possibilidade.

Em novembro, Machado se manifestou também sobre um referendo organizado pelo governo Maduro sobre a anexação de Esequibo, uma região hoje pertencente à Guiana. O referendo está previsto para este domingo (03).

Ela pediu a suspensão do referendo, que na sua visão não é o melhor meio de defender a reivindicação pelo território.

"Se o regime não sabe ou não quer defender Esequibo, nós sim", disse, afirmando que o referendo pode deixar a Venezuela vulnerável aos tribunais internacionais.

Ela aposta nessas cortes para defender a posição venezuelana, mas em outra situação, devinculada ao referendo. A oposicionista defende que o país apresente documentos e uma argumentação bem sustentada para defender o interesse venezuelano diante dos tribunais.

Há uma década, Machado tem sido um dos rostos mais visíveis da oposição. Agora, é muito mais do que isso.

Maria Corina Machado
Maria Corina Machado
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

BBC News Mundo: Por qual momento a senhora acredita que a Venezuela está passando?

María Corina Machado: A Venezuela está pasando por uma mudança profunda. Em 22 de outubro se encerrou um ciclo político e social e houve o inicio de uma nova era.

Talvez não percebemos a magnitude das mudanças necessárias no país.

Nesta data houve uma ruptura, um reconhecimento mútuo dentro e fora do país. E isto nos dá uma enorme confiança em nossas próprias forças.

BBC: Não é a primera vez que você fala em ruptura. O que há de diferente agora?

Machado: É verdade, já houve otras grandes oportunidades em que havia muita vontade e em que havia muita atenção da comunidade internacional. Acredito que agora há coisas bem importantes também. O regime passa por um momento de grande tensão iterna. A Venezuela tem sido saqueada, e é claro que um sistema gerido por máfias é voraz e insaciável e quando acaba o dinheiro para ser desviado, o choque entre eles mesmos é brutal.

Por outro lado, acho que passaram a perceber que seus sistemas de repressão e controle social têm perdido eficácia. Atualmente, as pessoas te dizem que não têm muito mais a perder: "o que vão me tirar, vão me a comida, se já me tiraram meus filhos?", dizem.

As bases das Forças Armadas e dos órgãos de segurança civis estão pasando pelos mesmos problemas que o restante da sociedade e também desejam mudanças políticas.

Do ponto de vista da situação internacional, visivelmente Maduro já é visto como uma figura tóxica. Avançam as investigações no Tribunal Penal Internacional; se isola neste litígio com a Guiana em que ameaça anexação de grande parte do território daquele país, o que é uma loucura, e temos levado sofrimento e problemas a diversos países da região com a migração forçada pela situação da Venezuela. Estes países, como Colômbia, Perú, Chile e Estados Unidos, já começam a entender que, para seu próprio bem, é necessário que haja uma mudança política na Venezuela.

Mas a mudança mais importante é a que tem sido promovida na própria sociedade. O chavismo perdeu completamente sua base social e o desejo da sociedade agora não é somente que haja a mudança de uma figura, mas sim uma mudança de sistema, uma mudança de valores.

BBC: Depois de mais de 20 anos de militância, agora você é a líder da oposição. Em que você mudou para que sua liderança fosse reconhecida?

Machado: Acredito que o mais importante são as coisas que não mudaram, Sempre nadamos contra a corrente. Eu criticava o socialismo quando aquí o socialismo era quase uma religião. Eu adverti sobre a natureza criminosa de Chávez quando ele tinha um grande controle de importantes setores da sociedade.

Falei sobre a necessidade de abrirmos mercados, de privatizarmos, quando isto era considerado pecado. E me mantive defendendo estas posições porque estou convencida que esta é a única maneira de trazer prosperidade e de criar uma nação e uma sociedade realmente livres com o Estado a seu serviço.

Em segundo lugar, acredito que o país quer uma nova forma de se fazer política, que o país rechaça tremendamente o populismo e a mentira, venha de onde vier.

Eu já atravessei sozinha muitos grandes desertos mas eu acredito que essa coisa de manter uma visão, de defender o que se acredita, é seguir o que a sociedade tem dito que "é chegado o momento". Se vê que os mitos estão efetivamente sendo derrubados.

Enrique Capriles, María Corina Machado e Leopoldo López
Enrique Capriles, María Corina Machado e Leopoldo López
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

BBC: Acredita que as pessoas cansaram de tomar posições mais moderadas?

Machado: Muita gente insiste que "temos que ser moderados, equidistantes". E eu pergunto, equidistante entre a justiça e a corrupção? Entre a mentira e a verdade? Entre o bem e o mal?

Não podemos cair nesta chantagem que diz: se você for firme é porque você é violento. Essa é a grande chantagem do chavismo. Submissão ou violência. Ou voê aceita e se curva diante dos termos da tirania, ou se revela e aí é considerado um ser violento.

O melhor da espetacular manifestação do dia 22 de outubro foi não ter sido promovida por um lado ou por outro. Foi a antítese da submissão, foi um ato de rebeldia, de desafio, de firmeza e de dizer "não me deixarei amedronta".

Sem envolvimento de dinheiro, sem ter sido via meios de comunicação, sem contar com a presença militar, sem financiamento do Estado, sem o sindicato, sem os centros de votação. Foi um ato eminentemente cívico e pacífico.

O início da carreira política de Machado se baseou na sua sintonia com Washington. Na foto com o ex-presidente George W. Bush.
O início da carreira política de Machado se baseou na sua sintonia com Washington. Na foto com o ex-presidente George W. Bush.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

BBC: Sabemos que é difícil manter a unidade da oposição. Inclusive alguns acham que a senhora é um fator de divisão. Como manter essa unidade?

Machado: Acho que temos que começar perguntando a quem devemos unir e para que devemos fazer essa união, porque se for para manter o status quo entre a liderança de alguns partidos políticos, isto é bem diferente do que deseja a sociedade venezuelana.

Precisamos de um grande acordo nacional, e é isso que pretendo conseguir, em torno de alguns consensos fundamentais de como concebemos a sociedade, a relação do Estado com seus cidadãos e como realmente pode se dar a convivência entre nós.

Mas isto para ser feito entre nós, não um acordo de cúpulas para se repartir quotas.

O regime é muito mais hábil: divide, corrompe, extorque, aterroriza, desmoraliza.

Mas no dia 22 de outubro isto tudo foi demolido e se revelou a visão de uma estratégia para combater esse sistema, uma visão que não é nada frágil, que não é branda, que é firme e coesa e inclui a todos.

BBC: Então qual é a estratégia para manter a unidade?

Machado: O povo me deu um mandato que assumi com humildade mas também com responsabilidade. O que temos a fazer é identificar essas coisas que compartilhamos, esses consensos, o país que queremos. Afinal, ouvi de todos, por todo o país, a mesma coisa: "María Corina, quero meus filhos de volta, quero unir minha família ".

E para isso temos que transformar o país, pois a migração não vai parar até que você não tenha mais esperança de um futuro na Venezuela.

Essa não é uma batalha eleitoral convencional. Existe algo acontecendo socialmente, culturalmente, espiritualmente em cada venezuelano, em cada família venezuelana. Esse é um desejo por dignidade, dignidade humana, de sermos capaz de nos reconhecer e de viver bem em nosso país. Temos que estar à altura de responder a esses anseios e chegar a cada venezuelano, a cada rincão deste país onde ninguém aparece por décadas.

Quando fui a Delicias, um vilarejo em Táchira, as pessoas saíram às ruas agitando bandeiras como se fosse um ato de soberania. Me disseram que: "faziam como um ato de reciprocidade porque eu tinha lembrado que o vilarejo deles existia ".

Então, isto vai muito além de simplesmente uma contagem de votos, isso sim é unir uma nação.

Machado
Machado
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

BBC: O chavismo já esteve muito mais encurralado por conta das sanções do que agora. Por que acredita que agora eles estariam dispostos a ceder?

Machado: Não podemos ver o chavismo de uma forma homogênea, ou como uma ditadura convencional. Ele é muito mais complexo. É um sistema que se adapta, que possui diversos grupos e que vem passando por mudanças.

Alguns desses grupos têm interesses econômicos importantes, outros fazem parte de dinâmicas criminosas e outros possuem vínculos geopolíticos. E esses grupos se relacionam com partes distintas.

Uns setores te dizem, "claramente perdemos todo o apoio social, se tentamos forçar isso representaria níveis de repressão que não seriam factíveis". E aí eles nos dizem: "vamos pela via do processo eleitoral, podemos ficar um tempo na oposição, e assim como aconteceu com Lula, no Brasil, regressarmos depois". E outros setores te falam, "não, nós não cederemos nem nos arriscaremos".

Esta tensão está sendo vivida dentro do chavismo e acredito que devemos incentivar todos esses atores, dentro de fora, atores convencionais e não convencionais.

Incluindo os que foram e têm sido aliados ideológicos do chavismo e hoje percebem que para seu próprio interesse é mais conveniente que haja uma solução pacifica e rápida para o conflito venezuelano, e aí estou falando claramente dos governos da Colômbia, Brasil, México, Chile e Argentina.

BBC: Vamos supor que a senhora seja restituída de seus direitos, possa concorrer e que saia vitoriosa das eleições. O que vai acontecer em seguida?

Machado: Vamos encontrar uma Venezuela devastada em todos os níveis. Aqui não há uma única instituição democrática que esteja de pé. Nossa economia foi destruída, a infraestrutura. Temos uma crise financeira, uma crise de serviços, uma crise de soberania, uma crise de segurança, crises de todo tipo, e além disso, uma crise humanitária.

O mais imediato é atender às emergências e dar início a um processo de reconstrução institucional capaz de dar ao país governabilidade democrática. A chave é a confiança. Temos que construir confiança desde já.

O chavismo não é um bloco homogêneo, diz Machado. Com alguns, diz ela, uma transição terá que ser acordada.
O chavismo não é um bloco homogêneo, diz Machado. Com alguns, diz ela, uma transição terá que ser acordada.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

BBC: Agora, em um outro cenário em não tenha seus direitos reconstituídos. O que pretende fazer?

Machado: Aceitar que seja possível um cenário no qual não sou reconstituída é aceitar uma derrota e isso jamais vou aceitar, muito menos após a vitória que acabamos de conquistar.

Assim como o futuro, os cenários são construídos, não são determinados e não são estáticos, É você que os constrói, é obra da sociedade.

Quantas vezes ouvi que as primárias não seriam possíveis, "que acontece se não te deixam concorrer às primárias?", e minha resposta sempre foi que "vamos ter primárias, vou concorrer e vou ganhar".

BBC: Nestes últimos 10 anos houve ciclos de maior e de menor esperança. Quando há um pico de esperança e em seguida um desânimo a queda vai cada vez mais embaixo. Como evitar outra decepção?

Machado: Há cerca de um ano um rapaz me que sentia medo de voltar a acreditar. Aquilo me sacudiu, porque ele tinha razão, dá medo, realmente dá medo. Mas se pensarmos em tanto que temos sofrido, e percebemos que não somos os mesmos, veremos que somos melhores.

Temos sofrido perdas irrecuperáveis e temos conseguido levantar. Hoje, a Venezuela é uma sociedade muito mais sólida, muito mais robusta, muito mais firme, muito melhor do que fomos.

Percebemos que temos que cuidar da liberdade e da democracia. Pensávamos que a democracia vinha de graça. Aprendemos a duros golpes, golpes que nos fizeram questionar, mas aprendemos.

Machado tem sido um dos principais promotores da mobilização social nos últimos anos na Venezuela.
Machado tem sido um dos principais promotores da mobilização social nos últimos anos na Venezuela.
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Ver que parte da sociedade está inserida no mundo e que somos todos unidos pela música, pela comida, pela cultura e pela história, nos damos conta do que é realmente ser venezuelano. Somos gente generosa. Somos gente solidária. Somos gente alegre. Somos gente que não queremos mendigar, queremos ser autônomos. Não nos calamos quando nos impõem, queremos empreender. Amamos nossas famílias.

Claro, temos que ver como fazer para que isto funcione, para que nunca voltemos a ter um processo de fragmentação e de enfrentamento como o que foi tentado e de certa forma conseguido pelo chavismo, que quis nos dividir sob todos os critérios: ricos e pobres, negros e brancos, esquerda e direita, leste e oeste, quarta e quinta, os de fora e os de dentro.

BBC: E o que mudou na senhora?

Machado: Acho que todos nós aprendemos muito. Cometemos muitos erros, e quando os erros são cometidos baseados no que você crê que seja correto ou porque você não possui toda informação ou porque você subestima o que tem enfrentado, você tem que aprender com eles. E acabamos nos dando conta de que "epa, eu sou capaz de fazer isto". Acontece com todos nós. Eu passei por certas coisas nestes meses que depois de superá-las, depois de resistir, eu penso: "se fosse um ano atrás eu não teria aguentado". Acredito que tudo isso nos tem tornado mais generosos, mais humildes no sentido que podemos aprender com outros, mas também mais firmes, porque como te disse anteriormente, não podemos confundir tolerância com fraqueza.

BBC: Então, a María Corina é hoje em dia mais humilde?

Machado: Eu penso que aprendi e que sou uma pessoa melhor, em muitas coisas, não somente nisso.

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