Vance cancela viagem à Suíça e negociações sobre acordo EUA-Irã são adiadas
O vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, adiou por questões 'logísticas' a viagem prevista à Suíça nesta sexta-feira (19) para realizar as primeiras negociações com representantes iranianos, após o acordo assinado na quarta-feira (17) para pôr fim à guerra no Oriente Médio. O governo suíço declarou que continua disposto a acolher o encontro.
"A logística dessas negociações nunca foi simples nem previsível. Por ora, o vice-presidente não viajará esta noite", anunciou um porta-voz da Casa Branca na noite de quinta-feira (18). "Esperamos iniciar as conversas técnicas o quanto antes", acrescentou.
O encontro estava inicialmente previsto para ser realizado em um hotel de luxo em Bürgenstock, perto de Lucerna, no centro do país, mas "as discussões previstas entre os Estados Unidos, o Irã, o Catar e o Paquistão foram adiadas", anunciou o Ministério das Relações Exteriores da Suíça em um comunicado. "Os trabalhos preparatórios continuam", afirma a nota, sem fornecer detalhes sobre uma possível nova data.
No Irã, a agência estatal de notícias Tasnim indicou que também "não foi confirmado qualquer" deslocamento de uma delegação à Suíça. Na véspera, o líder supremo Mojtaba Khamenei afirmou ter aprovado com ressalvas o acordo assinado pelo presidente americano, Donald Trump, e pelo presidente iraniano, Masoud Pezeshkian.
"Dei minha autorização devido ao compromisso" assumido por autoridades, entre elas Pezeshkian, de "proteger os direitos da nação iraniana", declarou, ressaltando ter uma "opinião diferente" sobre o pacto. No futuro serão realizadas "negociações cara a cara" com os Estados Unidos, mas isso não "significa aceitar o ponto de vista do inimigo", acrescentou.
A assinatura do documento deu início a um período de 60 dias de negociações sobre questões mais amplas entre os dois adversários, incluindo o programa nuclear iraniano. No entanto, há muitas incertezas sobre os próximos passos entre as duas partes que não mantêm relações diplomáticas desde a revolução islâmica de 1979.
Nesta sexta-feira, o principal negociador do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, advertiu, na rede social X, contra o descumprimento do acordo. "Em caso de conduta imprópria, descumprimento do acordo ou extrapolação pela outra parte, não temos qualquer dúvida de que será dada uma resposta contundente ao inimigo", afirmou.
Acordo é alvo de críticas
Na França, onde o protocolo do compromisso foi assinado por Trump, ao lado do presidente francês, Emmanuel Macron, em um jantar de celebração do 250º aniversário da independência dos Estados Unidos, a imprensa é cética quanto ao engajamento das partes. Para o jornal Le Figaro, o líder republicano tenta apresentar como vitória um pacto considerado limitado.
Analistas apontam que Trump fez concessões consideradas excessivas a Teerã, como o alívio de sanções, em troca da reabertura do Estreito de Ormuz, do desbloqueio dos portos iranianos e da criação de um fundo de US$ 300 bilhões para a reconstrução do país, antes de avançar para a fase mais sensível das negociações, que envolvem o programa nuclear. O acordo é contestado tanto por democratas, que o consideram pior que o pacto de 2015, concluído por Barack Obama, por não prever o desmantelamento das infraestruturas nucleares, quanto por republicanos, que denunciam concessões excessivas.
Ainda assim, Trump insiste em vender o compromisso como um sucesso, citando a queda do petróleo e a reação positiva dos mercados. Em mensagem publicada na rede social Truth Social, o líder republicano chamou de "invejosos, malvados ou estúpidos" aqueles que acreditam que ele não foi "duro o suficiente com o Irã".
Embora marque o fim das hostilidades e a retomada da diplomacia, o memorando abre apenas uma fase incerta de negociações, sem garantias concretas sobre os pontos centrais do compromisso. O jornal Libération também questiona a credibilidade de Trump após sua retirada do acordo anterior e o uso da força militar durante as negociações, avaliando que o resultado reflete sobretudo uma guerra custosa e mal concluída.
Já o La Croix, em reportagem de seu correspondente em Teerã, destaca o impacto do conflito sobre a população iraniana, apontada como a principal vítima e praticamente ausente das negociações. O jornal recorda que Donald Trump justificou o início da guerra com a promessa de "libertar" os iranianos, embora o acordo não mencione direitos humanos nem preveja medidas de abertura política.
Segundo especialistas ouvidos pelo diário, a guerra agravou a repressão e deixou milhares de mortos, além de aprofundar a crise econômica. Em meio a esse cenário, a população oscila entre o medo de novas restrições e a esperança de uma melhora das condições de vida com a eventual suspensão das sanções.
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