Talibã recebe ajuda internacional diante do número crescente de mortos no terremoto no Afeganistão
No Afeganistão, casas feitas de pedra e barro não resistiram aos fortes tremores e deslizamentos de terra provocados pelo terremoto ocorrido na noite de domingo para segunda-feira (1º). O número de mortos já passa de 1.400 e milhares de feridos, segundo informaram as autoridades talibãs nesta terça-feira (2). As operações de socorro continuam depois que a ONU liberou US$ 5 milhões de seu fundo de emergência e novas ajudas foram anunciadas.
No Afeganistão, casas feitas de pedra e barro não resistiram aos fortes tremores e deslizamentos de terra provocados pelo terremoto ocorrido na noite de domingo para segunda-feira (1º). O número de mortos já passa de 1.400 e milhares de feridos, segundo informaram as autoridades talibãs nesta terça-feira (2). As operações de socorro continuam depois que a ONU liberou US$ 5 milhões de seu fundo de emergência e novas ajudas foram anunciadas.
Pelo menos 1.411 pessoas morreram, 3.124 ficaram feridas e mais de 5.400 casas foram destruídas, disse Zabihullah Mujahid, porta-voz do governo do Talibã. Já o mais recente relatório do Crescente Vermelho afegão contabiliza mais de 8 mil casas destruídas, após o terremoto no leste do país.
Em algumas regiões, vilarejos inteiros foram soterrados. Embora a ajuda humanitária continue chegando a pé ou por helicóptero durante a noite e madrugada desta terça-feira, as organizações não governamentais presentes soam o alarme: por falta de recursos, milhares de famílias seguem desabrigadas. Especula-se que muitas outras vítimas estejam presas sob os escombros.
Com magnitude 6, o terremoto principal foi seguido por pelo menos cinco tremores sentidos a centenas de quilômetros de distância que atingiram áreas remotas nas províncias montanhosas de Nangarhar, Kunar e Laghman.
As operações de resgate continuam na tentativa de encontrar sobreviventes sob os escombros. Muitos deles passaram as últimas horas enterrando seus entes queridos.
Os sobreviventes, por sua vez, continuam em situação de vulnerabilidade. "Sem barracas, sem abrigo temporário, como podemos oferecer alimentação e atendimento médico adequado?", questiona Abdullah, membro da associação Qamar Foundation, em entrevista à RFI.
Ele enumera as necessidades urgentes: abrigos, alimentos, cuidados médicos e também se preocupa com as consequências de longo prazo do terremoto, que podem agravar ainda mais a já precária situação econômica e humanitária do Afeganistão. "Tudo foi destruído, inclusive as plantações agrícolas, o que pode piorar de forma duradoura os problemas de subsistência da população", alerta.
Talibã e ajuda internacional
O Afeganistão, cujas autoridades talibãs são reconhecidas apenas por Moscou, é um dos países mais pobres do mundo. Em entrevista à RFI, o diretor-adjunto de Operações da ONG Première Urgence Internationale (PUI), Arthur Comon, explicou as dificuldades na capacidade de resposta do Afeganistão à situação de urgência.
"Infelizmente, o Afeganistão tem recursos muito limitados. O exército chegou a mobilizar helicópteros para evacuar os feridos mais graves e levá-los a Cabul. Mas os hospitais e os centros de saúde mais próximos das comunidades já estão saturados. As autoridades sanitárias e os operadores estatais nos solicitaram apoio, e conseguimos mobilizar médicos, enfermeiras e parteiras para prestar assistência e lidar com o fluxo de feridos", disse.
A piora do sistema de saúde afegão se explica pela diminuição significativa da ajuda internacional ao país, principalmente por parte dos Estados Unidos. Washington, que desembolsou US$ 3,71 bilhões desde o retorno do Talibã ao poder em 2021, cortou esse apoio em janeiro, mergulhando todo o setor humanitário em uma grave crise orçamentária.
"Nós, da PUI, atuamos no país desde 1979. Já trabalhamos sob diversos regimes, sempre em prol das populações mais vulneráveis. Recentemente, o corte nos financiamentos americanos levou ao fechamento de cerca de 60 centros de saúde, o que representa aproximadamente 900 mil consultas por ano que deixaram de ser realizadas", informa Comon.
As Nações Unidas também reduziram drasticamente sua ajuda em junho, diante dos "piores cortes financeiros" por parte dos países doadores, relutantes em apoiar o Afeganistão sob governo Talibã.
As agências da ONU lançaram campanhas de arrecadação na segunda-feira, liberando um valor inicial de US$ 5 milhões (R$ 27 milhões) de seu fundo de emergência. Os países vizinhos, China e Irã, ofereceram assistência. Já Londres anunciou a liberação de £ 1 milhão (R$ 7,3 milhões) para ajudar as famílias afetadas.
A União Europeia anunciou nesta terça-feira o envio, ainda esta semana, de 130 toneladas de ajuda humanitária ao Afeganistão. Essa ação permitirá fornecer uma "ajuda imediata essencial às populações das áreas afetadas, que também receberam, nos últimos meses, refugiados vindos do Paquistão", declarou a comissária europeia responsável pela ajuda humanitária, Hadja Lahbib, citada em comunicado oficial.
A UE também prevê liberar € 1 milhão em ajuda emergencial destinada às organizações internacionais já presentes no território, segundo o mesmo comunicado. Essa nova ajuda se soma aos € 161 milhões já repassados este ano para financiar o trabalho das organizações humanitárias no país, duramente impactadas pela suspensão dos financiamentos decidida pelos Estados Unidos, um dos principais doadores.
Número de vítimas pode aumentar
Quase todas as vítimas foram registradas na província de Kunar, detalha Mohammed Hamad, que alerta que o número de mortos pode aumentar, já que as buscas continuam em vilarejos montanhosos reduzidos a pilhas de escombros.
O epicentro do terremoto foi localizado a 27 km de Jalalabad, a apenas 8 km de profundidade, o que explica o elevado número de vítimas e a extensão dos danos.
Terremotos frequentes
O Afeganistão é frequentemente atingido por terremotos, especialmente na cordilheira do Hindu Kush, próxima ao encontro das placas tectônicas Euroasiática e Indiana. Desde 1900, o nordeste do país já registrou 12 terremotos com magnitude superior a 7, segundo Brian Baptie, sismólogo do Serviço Geológico Britânico.
Após o retorno dos talibãs ao poder, em 2021, o país enfrentou o terremoto mais letal em 25 anos: em 2023, na região de Herat, no extremo oposto do Afeganistão, na fronteira com o Irã, mais de 1.500 pessoas morreram e mais de 63 mil habitações foram destruídas por um terremoto de magnitude 6,3.
Na ocasião, as Nações Unidas disseram que mais de 20 mil pessoas foram afetadas e pelo menos seis cidades rurais do distrito de Zenda Jan foram completamente arrasadas.
Com AFP
*Matéria atualizada em 2 de setembro às 16h30 hora de Paris