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Por que o general iraniano Qasem Soleimani foi morto pelos EUA e o que acontece agora

Assassinato de Soleimani representa uma escalada dramática na tensão entre os EUA e o Irã — e as consequências podem ser significativas.

3 jan 2020
12h28
atualizado às 12h51
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O assassinato do general Qasem Soleimani, comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária iraniana, representa uma escalada dramática na tensão entre os EUA e o Irã — e as consequências podem ser significativas.

O general iraniano Qasem Soleimani foi morto em ataque aéreo dos EUA em Bagdá
O general iraniano Qasem Soleimani foi morto em ataque aéreo dos EUA em Bagdá
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

É de se esperar uma retaliação. E o encadeamento de ações e represálias pode deixar os dois países mais próximos de um confronto direto. O futuro de Washington no Iraque pode muito bem ser colocado em xeque.

A estratégia do presidente americano, Donald Trump, para a região — se ele tiver uma — será testada como nunca antes.

Philip Gordon, que era o coordenador da Casa Branca para o Oriente Médio e o Golfo Pérsico durante o governo de Barack Obama, classificou o assassinato de Soleimani como praticamente uma "declaração de guerra" contra o Irã.

A Força Quds é o braço das forças de segurança do Irã responsável pelas operações no exterior. Por anos, seja no Líbano, no Iraque, na Síria ou em outros lugares, Soleimani buscou ampliar a influência do país persa por meio do planejamento de ataques ou apoio a aliados locais de Teerã.

Figura popular

Para Washington, ele era um homem que tinha o sangue de americanos nas mãos. Mas, no Irã, ele era popular. Na prática, foi Soleimani quem liderou a reação de Teerã contra a ampla campanha de pressão e sanções impostas pelos EUA.

Especula-se se o Irã poderia atacar os soldados americanos no Iraque em resposta ao assassinato de Soleimani
Especula-se se o Irã poderia atacar os soldados americanos no Iraque em resposta ao assassinato de Soleimani
Foto: Reuters / BBC News Brasil

O que mais surpreende não é que Soleimani estivesse na mira do presidente Trump, mas por que os EUA decidiram atacá-lo justamente agora.

Diversos ataques de mísseis contra bases americanas no Iraque foram atribuídos a Teerã. Um empreiteiro civil dos EUA foi morto. Mas operações iranianas anteriores — como a ofensiva contra navios-tanque no Golfo; o abate de um veículo aéreo não tripulado dos EUA; e até mesmo o ataque contra uma instalação de petróleo saudita — ocorreram sem uma resposta direta dos EUA.

Em relação aos ataques de mísseis contra bases americanas no Iraque, o Pentágono já reagiu contra-atacando a milícia pró-Irã que estaria por trás dos atos. E isso levou à tentativa de invasão da Embaixada dos EUA em Bagdá.

Ao justificar a decisão de matar Soleimani, o Pentágono se concentrou não apenas nas ações passadas do general, mas insistiu que se tratava de uma medida de intimidação.

O general, diz o comunicado do Pentágono, estava "desenvolvendo ativamente planos para atacar diplomatas e militares dos EUA no Iraque e em toda a região".

5 mil soldados dos EUA

O que vai acontecer a seguir é a grande questão. O presidente Trump espera que em uma tacada só tenha intimidado o Irã e provado a seus aliados cada vez mais apreensivos na região, como Israel e Arábia Saudita, que os EUA ainda têm força.

No entanto, é quase inconcebível que não haja uma resposta iraniana robusta, mesmo que não seja imediata.

Os 5 mil soldados americanos no Iraque são um alvo potencial óbvio, assim como os alvos atacados pelo Irã ou seus aliados no passado. As tensões serão maiores no Golfo. Não é de se admirar que o impacto inicial tenha sido o aumento dos preços do petróleo.

Soleimani liderou as operações militares iranianas no Oriente Médio como comandante da Força Quds
Soleimani liderou as operações militares iranianas no Oriente Médio como comandante da Força Quds
Foto: Reuters / BBC News Brasil

Os EUA e seus aliados estarão focados em suas defesas. Washington já enviou um pequeno reforço para sua Embaixada em Bagdá. E tem planos de aumentar rapidamente sua presença militar na região, se necessário.

Mas é igualmente possível que a resposta do Irã seja, de certo modo, assimétrica — em outras palavras, que ele não revide um ataque com outro ataque. Ele pode querer jogar com o amplo apoio que tem na região, por meio das alianças que Soleimani construiu e financiou.

Poderia, por exemplo, renovar o cerco à Embaixada dos EUA em Bagdá, colocando o governo iraquiano em uma posição difícil, e pôr em xeque a presença dos EUA no país. Isso poderia levar a manifestações em outros lugares para encobrir outros ataques.

'Um homem muito mau'

O ataque contra o comandante da Força Quds foi uma demonstração clara da inteligência e poderio militar dos EUA. Muitos na região não vão lamentar sua morte. Mas será que essa foi a coisa mais sábia que o presidente Trump poderia fazer?

Quão bem preparado o Pentágono está para enfrentar as consequências inevitáveis? E o que esse ataque nos diz sobre a estratégia geral de Trump na região? Será que mudou de alguma maneira? Existe uma nova política de "tolerância zero" às operações iranianas?

Ou seria apenas o presidente tirando de cena um comandante iraniano que ele sem dúvida considera "um homem muito mau"?

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