Partidos árabes ganham força e podem decidir futuro governo de Israel, diz líder árabe à RFI
As eleições legislativas de terça-feira (27) em Israel deixaram o país sem maioria clara e transformaram os partidos árabes em peças-chave para a formação do próximo governo. O avanço dessas legendas foi tão expressivo que Amir Badran, vice-prefeito de Tel Aviv-Jaffa e dirigente do partido judaico-árabe Hadash, afirmou à RFI nesta quarta-feira (28) que os partidos árabes passaram a ter condições de influenciar diretamente a escolha do próximo primeiro-ministro.
Com a apuração indicando um impasse entre os blocos de Benjamin Netanyahu e do opositor Gadi Eisenkot, os partidos árabes conquistaram 15 cadeiras e tornaram-se decisivos para a formação do novo governo de Israel. Impulsionada por um comparecimento recorde às urnas, a bancada árabe passa a ser indispensável para uma maioria de 61 assentos no Parlamento. No entanto, sua inclusão ainda enfrenta forte resistência entre as forças políticas tradicionais, dificultando a definição do premiê.
Segundo ele, o líder da oposição, Gadi Eisenkot, terá de negociar com essas forças políticas caso queira reunir maioria suficiente para governar e encerrar o ciclo de Benjamin Netanyahu no poder.
O principal fato novo da eleição foi o desempenho das formações políticas que representam a população árabe de Israel, cerca de 20% dos habitantes do país. As projeções apontam para 15 cadeiras destinadas aos partidos árabes na nova Knesset, o Parlamento israelense de 120 assentos.
O resultado foi impulsionado por uma participação recorde do eleitorado árabe, fortalecendo especialmente a Lista Unificada, coalizão que reúne diferentes correntes políticas árabes.
Embora os partidos árabes tradicionalmente fiquem à margem das coalizões governamentais israelenses, desta vez eles podem se tornar decisivos para definir quem terá condições de formar uma maioria parlamentar.
"Eisenkot não terá escolha"
Em entrevista à RFI nesta quarta-feira (28), Amir Badran afirmou que os partidos árabes se transformaram em um ator incontornável nas negociações para a formação do próximo governo. Segundo ele, caso deseje governar, Gadi Eisenkot terá de negociar com as legendas árabes.
"Se Eisenkot quiser ser primeiro-ministro, é obrigado a colaborar com os dois partidos árabes. Não tem escolha", afirmou. Para Badran, esse é "o preço a pagar" para formar uma alternativa ao atual governo.
O dirigente argumentou ainda que grande parte da sociedade israelense não deseja a continuidade da coalizão liderada por Benjamin Netanyahu e por figuras da extrema direita, como Itamar Ben-Gvir. Segundo ele, uma força política que se diz democrática não pode se recusar a cooperar com uma população que representa cerca de 20% dos cidadãos israelenses, possui direitos políticos plenos e demonstrou grande capacidade de mobilização eleitoral.
Nenhum bloco alcança maioria
Após a apuração de 48,4% dos votos, o bloco liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu aparecia com 55 cadeiras, enquanto a oposição reunia 50. Os partidos árabes somavam 15 assentos.
A maioria absoluta exige pelo menos 61 deputados. As projeções indicam que nenhum dos dois grandes blocos deverá atingir esse número sozinho. A comissão eleitoral informou que os resultados definitivos só devem ser divulgados na quinta-feira.
Resistências a uma aliança
Apesar de sua posição estratégica, os partidos árabes continuam enfrentando resistência de parte significativa da classe política israelense.
Netanyahu e seus aliados rejeitam qualquer entendimento com essas legendas. Do lado da oposição, Eisenkot tem demonstrado reservas em relação à hipótese de uma coalizão apoiada por partidos árabes. Já seu aliado Avigdor Lieberman descarta completamente essa possibilidade.
É justamente essa contradição que explica o atual impasse: os partidos árabes podem ser indispensáveis para formar uma maioria, mas continuam enfrentando forte resistência entre os principais grupos políticos judeus.
Netanyahu e Eisenkot disputam narrativa
Em discurso na madrugada de quarta-feira em Jerusalém, Netanyahu afirmou que pretende formar um governo de direita "forte" e voltou a apresentar-se como o principal garantidor da segurança israelense.
O premiê ressaltou os sucessos militares de Israel e afirmou existir uma oportunidade histórica para enfrentar o Irã com o apoio do presidente norte-americano Donald Trump.
Já Eisenkot declarou que os eleitores demonstraram rejeição à continuidade de Netanyahu no cargo. O ex-chefe do Estado-Maior afirmou que um líder responsável deveria reconhecer a mensagem das urnas e considerar sua retirada da vida política.
Eleição marcada pelo trauma do 7 de Outubro
A votação foi a primeira realizada desde os ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023, que mataram mais de 1.200 pessoas em Israel e desencadearam os conflitos posteriores em Gaza, no Líbano e contra o Irã.
Por isso, muitos analistas veem o pleito como uma espécie de referendo sobre a liderança de Netanyahu. Seus adversários o responsabilizam por não ter impedido os ataques e criticam o isolamento internacional enfrentado por Israel nos últimos anos.
Netanyahu, por sua vez, sustenta que reforçou a segurança do país ao eliminar lideranças do Hamas, do Hezbollah e de grupos ligados ao Irã.
A participação chegou a 77,7%, o maior índice registrado desde 1988 e cerca de sete pontos acima do observado nas eleições legislativas de 2022, refletindo a percepção de que o país atravessa um dos momentos políticos mais decisivos de sua história recente.
Com AFP
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