Para argentinos, Malvinas ainda representam destino improvável
- Aline Duvoisin
- Direto de Buenos Aires
Os problemas diplomáticos existentes entre o Reino Unido e a Argentina em função da disputa pelas ilhas Malvinas (Falklands, em inglês) não afetam atualmente a circulação de turistas entre ambos os países. São muitos os argentinos que viajam à Inglaterra, assim como é corriqueiro encontrar ingleses caminhando pelas ruas de Buenos Aires ou frequentando outros destinos turísticos argentinos. Apesar disso, no arquipélago, o fluxo de argentinos aumentou somente nos últimos anos, porque a maioria deles pensava que não podia viajar às Malvinas.
"Ainda hoje tem gente que liga para cá e diz que não sabia que podia viajar às Malvinas", diz Carlos Pelli, gerente do grupo BFP, agência que organiza viagens à região. Mesmo depois do conflito armado, os argentinos podiam viajar às ilhas, mas tinham que solicitar uma autorização prévia na embaixada do Reino Unido. No fim dos anos 1990, o Ministério de turismo iniciou tratativas para facilitar o acesso dos argentinos às Malvinas. Assim, a Argentina cedeu seu espaço aéreo à passagem de voos destinados ao arquipélago em troca de que os argentinos pudessem viajar somente portando o passaporte. Desde 1999, se exige dos argentinos o mesmo que a qualquer turista que não seja de uma região que integre a Commonwealth, e o avião que sai de Santiago do Chile com destino às ilhas Malvinas faz uma escala em Rio Gallegos, no sul da Argentina, no segundo sábado de cada mês.
Para entrar nas ilhas Malvinas, é necessário ter um passaporte com pelo menos seis meses de validez. O visto de entrada e saída é concedido no próprio aeroporto. Além disso, se exige um seguro de saúde que tenha uma cobertura de US$ 225 mil, dos quais pelo menos US$ 100 mil devem estar destinados à repatriação de restos mortais em caso de morte. Pelli explica que essa exigência se deve ao fato de que as Malvinas têm somente um hospital, que fica em Stanley, além de outro hospital militar que é exclusivo para uso do Exército, de alta complexidade, localizado na base militar das ilhas. Se o atendimento requerido é simples, pode ser realizado no hospital local e é cobrado do seguro médico. Entretanto, "se acontece algo grave com você, eles têm que lhe trasladar ao continente e a única maneira da fazê-lo é num avião ou helicóptero militar de longo alcance; mover um desses helicópteros custa cerca de US$ 120 mil", afirma Pelli. Por isso, é quase impossível que autorizem a entrada de alguém que não possui seguro.
Restrições de capacidade e transporte
As Malvinas também impõem limites de capacidade para o ingresso de pessoas e de acesso às localidades. Apesar de possuir 287 ilhas no total, muitas estão inabitadas, outras são ilhotas e algumas pertencem a um único dono e ninguém tem acesso permitido a elas. Somente 15 ilhas são acessíveis por via aérea. Às outras se chega somente com helicóptero militar ou veleiro, e alugá-los custa caro.
A capacidade hoteleira está quase totalmente concentrada na capital. São somente três hotéis que, no total, possuem 132 camas. O restante se restringe a pequenos alojamentos que possuem entre quatro e seis dormitórios. Acampar é praticamente impossível; quase 100% das terras são privadas e é necessário pedir permissão ao dono. O controle de entrada e saída de gente é rígido e bastante simples. "As pessoas da base aérea têm uma lista com os nomes de todos os passageiros do avião e uma planilha com todas as reservas de alojamento", diz o gerente do grupo BFP. Com isso, basta comparar e, se há alguém sem reserva, eles mandam o turista de volta ao continente no mesmo avião que ele chegou. "Já aconteceu de mandarem gente de volta por isso, pelo seguro, pela atitude", afirma ele.
Há somente um voo comercial por semana que chega às ilhas Malvinas. Ele sai aos sábados pela manhã de Santiago do Chile e regressa na tarde do mesmo dia. Uma passagem de ida e volta custa cerca de US$ 1,4 mil. O avião chega a uma base militar, chamada Mount Pleasant, e não a um aeroporto civil. Por isso, as regulamentações são mais rígidas. "É como qualquer outra base militar em qualquer parte do mundo", diz Pelli. Este é o único aeroporto internacional que está habilitado para receber aviões de grande envergadura. Os aeródromos que a Argentina utilizava antes do conflito militar foram destruídos durante a guerra e os outros ainda estão começando a se preparar para receber aeronaves um pouco maiores, principalmente o de Puerto Argentino (Stanley, em inglês).
Além desse voo, há outro que parte no meio da semana de Heathrow, principal aeroporto da Inglaterra, mas esse não é um voo comercial. Trata-se de um avião militar que reabastece a base aérea. Esse voo faz uma parada na ilha de Ascensão, que fica no meio do Oceano Atlântico, e daí parte para Malvinas. Neste avião, há espaço para oito civis.
Algumas pessoas viajam às ilhas Malvinas em aviões particulares. Nesse caso, as aeronaves podem ter no máximo oito passageiros, precisam ter permissão aérea argentina e o dono do avião deve estar presente no voo. O que facilita é a distância: são apenas 490 km saindo de Río Grande, no sul da Argentina. Já o preço dificulta a viagem.
Um exemplo é o caso de um estrangeiro que viaja à Argentina para pescar. Segundo Pelli, é possível pescar nos rios das Malvinas quase o mesmo que em Río Grande ou na Terra do Fogo. No continente, um turista gasta entre US$ 2 e 3 mil dólares por dia para pescar. Pelli diz que o preço de um táxi aéreo às Malvinas pode custar entre US$ 3 e 4 mil dólares, mas o turista estará sozinho.
Outro motivo que faz algumas pessoas quererem ir às Malvinas em um avião particular é a maratona de Stanley - a maratona internacional mais austral da Terra conta pontos para o mundial de corredores. Ela é realizada no terceiro domingo de março de cada ano, e alguns corredores não têm tempo ou não querem permanecer uma semana no arquipélago para ir e retornar em voo comercial.
Economia e atrativos das Malvinas
A população que vive nas Malvinas é formada por 2,7 mil habitantes. Desses, a maioria (1,8 mil) vive na capital, Puerto Argentino (Stanley), que está localizada na ilha oriental (Soledad). O segundo maior assentamento é Port Howard, que fica na ilha oeste, Gran Malvinas. Nele, vivem 38 pessoas.
Sessenta por cento da população tem ascendência britânica, 30% são de Santa Helena, uma ilha localizada no meio do Oceano Atlântico, e os outros 10% estão repartidos entre 50 uruguaios, 26 argentinos, 100 chilenos e alguns franceses, italianos e brasileiros. A maioria deles é expatriada por questões de trabalho. Em geral, ocupam cargos públicos ou estão empregados em companhias pesqueiras, hospital, etc.
A principal produção das Malvinas segue sendo a lã, como sempre foi. Entretanto, este não é o principal recurso econômico da região. A principal renda vem das regalias pesqueiras e dos serviços para manter uma frota, levar, trazer, empacotar, etc. "As Malvinas têm um dos melhores pesqueiros salmonídeos (família de peixe relacionada ao Salmão) do Atlântico Sul", diz Pelli. A segunda principal fonte de renda é o turismo, principalmente turismo de terra e de cruzeiro.
A cada ano que passa, cresce mais a procura por viagens às Malvinas. Pelli afirma que, em 2004, quando começou a trabalhar com turismo para as Malvinas, viajavam cerca de 300 turistas de terra por ano. Neste ano, subiu muito o interesse devido ao aniversário da Guerra das Malvinas ao fato de que muitos argentinos ficaram sabendo recentemente que podiam visitar o arquipélago. De maio de 2011 a maio deste ano, cerca de 4 mil turistas de terra estiveram nas ilhas. "O que não é nada para nós, para eles é muitíssimo", diz o gerente da agência de viagens. Ele acredita que, no ano que vem, esse número deve baixar para cerca de 3 mil.
Para os argentinos, o principal interesse nas ilhas são os resquícios da guerra de 1982, como campos de batalha e o cemitério militar de Darwin, onde estão enterrados muitos soldados argentinos que lutaram no conflito. Para os outros turistas, o principal atrativo do arquipélago é a variedade de sua fauna. Segundo Pelli, enquanto na Argentina é possível encontrar no máximo três tipos de pinguins, nas Malvinas existem seis tipos diferentes desse animal - as Malvinas possuem a maior colônia de pinguins rei depois da Antártica. Por isso, muitas pessoas viajam somente para tirar fotos das aves. Há ainda elefantes e leões marinhos e várias colônias de aves de várias espécies.