Papa Francisco, o pontífice argentino que nunca voltou para casa
Os argentinos há muito tempo esperam que o papa Francisco visite a terra natal que ele deixou em 2013 para se tornar o chefe da Igreja Católica Romana. Com a saúde delicada conforme enfrenta uma pneumonia dupla, o retorno parece cada vez mais improvável agora.
O papa Francisco, 88 anos, está em uma condição crítica devido a uma infecção pulmonar. Ele está internado no hospital Gemelli, em Roma, há duas semanas, maior período de hospitalização do seu papado, em uma evidência da sua fragilidade.
Francisco já fez mais de 45 viagens internacionais durante seu papado, incluindo a primeira de qualquer papa ao Iraque, Emirados Árabes Unidos, Mianmar, Macedônia do Norte, Bahrein e Mongólia.
Mas o antigo arcebispo de Buenos Aires nunca retornou à Argentina.
"Uma das grandes curiosidades de seu papado foi o fato de que, ao contrário de seus antecessores, Francisco nunca visitou seu país natal", disse Jimmy Burns, autor de um biografia do pappa de 2015.
Burns disse acreditar que Francisco não quer ser visto como partidário dos peronistas de esquerda ou dos conservadores no ambiente político polarizado do país.
"Qualquer visita tentaria ser explorada por um lado ou por outro e, sem querer, ele alimentaria essas divisões", disse ele.
Muitos na Argentina previram uma visita ao país logo depois que Francisco assumiu o cargo e visitou o Brasil. No ano passado, houve novamente conversas sobre uma viagem. Mas em ambos os casos a visita nunca se concretizou.
Guillermo Marco, ex-porta-voz do papa quando ele era o cardeal Jorge Bergoglio em Buenos Aires, disse à Reuters que foi uma "oportunidade perdida" para a Argentina. Francisco, disse ele, tinha uma "alma de tango" -- uma referência à música e à dança que tem suas origens nas ruas das periferias de Buenos Aires.
"Ele teria gostado (de vir) se pudesse fazer uma viagem simples, digamos, onde viesse visitar as pessoas que ama e, não sei, celebrar uma missa para as pessoas", disse Marco, que mantém um relacionamento próximo com Francisco.
"Mas ele tem plena consciência de que há toda uma rede de apoiadores e detratores que estão brigando por ele."
Em setembro, o papa disse aos jornalistas que queria ir à Argentina, dizendo que "eles são meu povo", mas que "vários assuntos tinham que ser resolvidos primeiro".
Maximo Jurcinovic, porta-voz da conferência episcopal argentina, disse que a Igreja está concentrada em orar pela saúde do papa e não comentaria outros assuntos.
Marco disse que Francisco parecia cansado quando conversou com ele no final de janeiro.
"Ele tem 88 anos e, a esses 88 anos, somam-se as preocupações e o ritmo de vida que ele tenta levar", disse ele.
"É como se ele tivesse uma força de vontade, uma força espiritual que Deus lhe dá e que faz com que seu corpo faça as coisas, mas seu corpo já está lhe dizendo: 'Não consigo' Foi um pouco isso que aconteceu com ele agora."