'Ouro verde': após petróleo, pistache vira alvo de disputa entre EUA e Irã e expõe guerra global
Muito além do petróleo e do conflito militar, Estados Unidos e Irã travam uma disputa estratégica pelo controle do mercado global de pistache, o chamado "ouro verde". Com consumo em alta e preços pressionados, o produto deixou de ser apenas um item de luxo para se tornar ativo geopolítico. Washington assumiu a liderança na produção, enquanto Teerã perde espaço sob sanções, crise hídrica e impactos diretos das tensões no Oriente Médio.
Embora receba menos atenção do que temas como o programa nuclear iraniano ou as tensões no estreito de Ormuz, o mercado de pistache se transformou em mais uma frente de disputa entre Teerã e Washington. Trata-se de uma guerra silenciosa, com raízes antigas, mas que ganhou novos contornos nas últimas décadas.
A demanda global pelo pistache nunca foi tão alta, e o mercado vive um momento de forte pressão. Consumido há milhares de anos e historicamente associado ao luxo, o fruto seco enfrenta hoje escassez e valorização acelerada. Nesse cenário, o Irã - berço tradicional do produto - vem perdendo espaço de forma contínua.
Até o início dos anos 2010, o país ainda aparecia como principal referência mundial na produção de pistaches. Hoje, porém, foi ultrapassado pelos Estados Unidos. Os iranianos respondem por cerca de 20% da produção global, ocupando o segundo lugar, enquanto os norte-americanos consolidaram a liderança no setor.
O Irã ainda exporta pistaches por via terrestre para países como Turquia, Rússia e Azerbaijão. Mas as vendas por via marítima enfrentam custos crescentes, em especial devido às tensões no estreito de Ormuz, que encarecem o transporte. A partir do porto de Bandar Abbas, o país segue enviando produtos de alta qualidade para destinos como União Europeia e Reino Unido - mas sob pressão logística e geopolítica crescente.
"Chocolate de Dubai"
Além da instabilidade regional, o pistache também sofre os efeitos de seu próprio sucesso. A popularização de produtos como o chamado "chocolate de Dubai", feito com creme de pistache, impulsionou o consumo e contribuiu para uma escassez global. Em apenas um ano, o preço da libra subiu de US$ 7,65 para US$ 10,30, refletindo a dificuldade de atender à demanda.
No comércio, o impacto já é sentido. Um comerciante iraniano em Paris afirma que ainda consegue manter os preços, vendendo 350 gramas por € 15, mas apenas porque trabalha com estoques anteriores ao agravamento do conflito. Ele resume a situação com uma crítica recorrente:
"Tudo o que dá errado vem dos Estados Unidos".
A origem dessa disputa remonta a 1979, quando a Revolução Islâmica derrubou o xá no Irã. O novo regime apostou em modernizar a irrigação - essencial para uma cultura que exige muita água - para ampliar a produção. Durante décadas, o pistache se tornou uma das principais fontes de receita externa do país, atrás apenas do petróleo e dos tapetes, com produção anual de cerca de 200 mil toneladas e faturamento superior a € 1 bilhão.
Esse cenário começou a mudar com a combinação de crise econômica, mudanças climáticas, secas prolongadas e escassez de água. A queda de produtividade abriu espaço para os Estados Unidos, que já cultivavam pistache desde os anos 1930, embora em escala reduzida. Foi a partir de 1979, com o embargo comercial ao Irã, que a produção californiana ganhou impulso e se expandiu rapidamente.
Hoje, o setor é amplamente dominado por empresas norte-americanas, com destaque para a The Wonderful Company, controlada pelos bilionários Stewart e Lynda Resnick. O grupo lidera o mercado desde os anos 1980 e possui extensas plantações no norte de Los Angeles.
Em 2023, a produção de pistache na Califórnia movimentou cerca de US$ 3 bilhões. Dados mais recentes indicam que os Estados Unidos respondem por aproximadamente 65% da produção global e metade das exportações, enquanto o Irã ficou muito atrás. Em determinados períodos recentes, a participação iraniana chegou a cair para apenas 7% do mercado, especialmente após a retomada de sanções americanas.
Questionamentos políticos
A força desse setor também levanta questionamentos políticos. O documentário Pistachio Wars, lançado em 2025, analisa a influência dos proprietários da Wonderful Company na política dos Estados Unidos. Segundo a produção, o casal Resnick doou milhões de dólares a organizações ligadas a Israel, incluindo instituições relacionadas às Forças de Defesa do país.
Essa ligação alimenta a tese de que o mercado de pistache não envolve apenas interesses comerciais, mas também conexões estratégicas com a política externa norte-americana no Oriente Médio.
Mais recentemente, surgiram suspeitas de que o próprio conflito armado na região possa afetar diretamente o setor. O site investigativo Drop Site relatou que bombardeios realizados entre março e abril de 2026 teriam atingido áreas produtoras de pistache no sul do Irã, incluindo a região de Rafsanjan, considerada o coração dessa indústria no país.
Imagens de satélite indicariam danos a armazéns próximos ao aeroporto local. As informações levantam questionamentos sobre possível impacto intencional sobre a economia iraniana e eventuais interesses de produtores estrangeiros em enfraquecer a concorrência.
Israel entra na disputa pelo "ouro verde"
A disputa ganha ainda um novo ator: Israel. Tradicional consumidor do produto, o país começou recentemente a investir em produção própria para reduzir sua dependência do Irã. Projetos no deserto do Neguev, como a fazenda Mashkit, buscam desenvolver cultivos usando técnicas e mudas vindas da Califórnia. Há também estudos para plantio nas Colinas de Golã.
Essa expansão reforça o caráter estratégico do pistache. Cada plantação passa a ser vista como um ativo econômico e geopolítico, e cada remessa, como um elemento de disputa internacional.
Apesar disso, o produto continua presente no cotidiano de milhões de consumidores ao redor do mundo. Ao abrir um pistache, o gesto parece banal - mas por trás dele existe uma complexa cadeia de produção, comércio e conflito, refletindo parte das tensões que marcam o Oriente Médio contemporâneo.
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