Vídeos amadores mostram realidade de Gaza a israelenses
- Ethan Bronner
- Do New York Times, em Gaza
Nos 12 meses transcorridos desde que tropas invadiram e aviões israelenses bombardearam a Faixa de Gaza, um território palestino, a fim de deter os ataques com foguetes contra o território israelense, o tempo parece se ter congelado. O bloqueio imposto por Israel e Egito para isolar o governo do Hamas impede a entrada e saída da maioria dos bens e pessoas.
Isso significa que não existe reconstrução de edifícios destruídos. Milhares de pessoas continuam desabrigadas. O inverno chegou. Com a assistência humanitária, que evita a fome e combate as doenças, talvez a parte mais difícil da experiência, para os moradores locais, seja a sensação de abandono. A economia está paralisada, as saídas estão bloqueadas e um ar de desânimo impera.
Mas existem milhares histórias a contar, depois da guerra e em meio ao bloqueio. A B'Tselem, uma organização israelense de defesa dos direitos humanos, decidiu fazer alguma coisa para contá-las, e distribuiu câmeras de vídeo a 18 jovens de Gaza, pedindo que, com a ajuda de um instrutor e de conselhos via Web, contassem ao mundo sobre suas vidas.
"A ideia era ajudar as pessoas locais a mostrar as dificuldades que enfrentam aos israelenses, combatendo o medo e os estereótipos", disse Sarit Michaeli, porta-voz da B'Tselem. "Eles vivem a uma hora de carro de Tel Aviv, mas para a maioria dos israelenses a uma distância intransponível".
O resultado é uma série de vídeos curtos, com legendas, sobre assuntos como o trabalho nos túneis que permitem contrabando de bens vindos do Sinai egípcio, o estado dos feridos na guerra, um retrato de um time de futebol feminino.
O maior site israelense de notícias, o Ynet, que pertence ao grupo jornalístico Yediot Aharonot, acaba de veicular cinco dos vídeos, sob o título "Gaza vista de dentro". Porque tão poucas imagens de Gaza chegam à mídia israelense - os jornalistas do país, como os demais cidadãos, foram proibidos pelo governo de visitar a região, já há mais de três anos -, os vídeos representam território inexplorado.
"Acreditávamos que fosse muito importante mostrar ao público israelense o outro lado do conflito", disse Yael Golan, diretor de notícias do Ynet, que recebe um milhão de visitas ao dia. "Com esses vídeos, temos a oportunidade de mostrar algo que normalmente não poderíamos".
O primeiro vídeo exibido no site, intitulado "Canção de Protesto", de Mohammed Fares, mostra Ayman Maghmas, de um grupo de rap chamado Palestinian Rapperz, explicando a uma plateia em Gaza o papel do rap e hip-hop como forma de protesto. "O hip-hop não morreu. Sobrevive na Palestina", diz a camiseta de Maghmas, que perdeu o pai e seu apartamento por conta da guerra. Ele explica que, da mesma maneira que os negros norte-americanos usam o rap para denunciar a opressão, os moradores de Gaza podem expressar seu sofrimento por meio dele.
Em árabe, ele e seu grupo cantam que "mãos que degradam e ferem uma criança pequena que luta para se libertar do feitor, o conquistador que veio e conquistou nossas vidas, arruinou a cor de nossa esperança... Quando chegará o dia em que a consciência vai despertar?"
Sobre a letra, correm imagens mostrando a destruição causada pela guerra. Fares, 22 anos, o autor do vídeo, vive no campo de refugiados de Jabaliya, e está estudando inglês. Diz que acredita na resistência pacífica e que vê os vídeos como forma de mostrar sua situação a Israel e ao mundo.
A seção de comentários sobre cada vídeo no Ynet contém respostas, muitas das quais não muito simpáticas ("Ynet, vocês deveriam se envergonhar! Estão fornecendo um palanque aos nossos inimigos!"), mas há também comentários como este, de Shoshana: "É comovente ver como é a vida do lado de lá da barreira. Eles são seres humanos, como nós".
Awatif Aljadili, 28 anos, vive em Gaza e trabalha como produtora de televisão, e disse que era exatamente essa a resposta que estava procurando. Ela produziu um vídeo sobre uma viagem de campo de uma escola feminina, e sobre a situação de duas alunas que se feriram na guerra. As meninas cantam canções sobre comer bem e cuidar dos dentes, e sobre como desejam viver normalmente, a exemplo das crianças de todo o mundo.
"Por muito tempo, imaginávamos que as pessoas de fora de casa nos odiassem", disse Aljadili. "Mas depois compreendemos que simplesmente não nos conheciam. Precisávamos fazer contato. A paz entre os países começa quando surge um bom relacionamento entre os indivíduos. Temos de dialogar. Mas muita gente aqui tinha medo de conversar com os israelenses, porque podem ser acusados de espionagem".
Perguntada se trabalhar com uma organização israelense, para divulgar os vídeos, os incomodava, todos os participantes responderam que não. "Não vejo problema na origem das câmeras", diz Mazem Naim, 23 amos, um dos videastas. "Todos sabemos que a B'Tselem trabalha pelos direitos humanos".
Um dos vídeos mais interessantes mostra o interior dos túneis dos contrabandistas, através dos quais a maioria dos bens de consumo são trazidos a Gaza. Jovens, perguntados sobre o motivo de seu trabalho nos túneis, explicam que não existem outros empregos. Acrescentam que sempre rezam antes de entrar nos túneis, devido ao grande número de acidentes e mortes.
O responsável pelo vídeo, Rifaat Hamdia, 30 anos, disse que desejava mostrar ao mundo que os túneis, vistos por muita gente como conduto de contrabando de armas para o Hamas, na verdade servem ao transporte de bens básicos como óleo de cozinha e detergentes.
Hamdia entrou nos túneis para filmá-los, e os conhece bem. Ele tem mais um motivo forte para seu apego a eles: sua noiva, que vivia na Jordânia, recentemente foi contrabandeada para se reunir a ele por meio de um desses túneis.
Tradução: Paulo Migliacci ME