Presença feminina no front muda rotina de exército dos EUA
Steven Lee Myers
Do New York Times
Não há dúvidas de que este acampamento de poeira e pedra a nordeste de Bagdá é um posto avançado de combate em uma terra ainda hostil. E não há dúvidas de que mulheres de uniforme causaram uma transformação por aqui. Elas têm seus próprios alojamentos, trailers chamados CHU (um acrônimo militar em inglês para unidade de habitação em contêiner).
Existem banheiros e chuveiros femininos ao lado dos masculinos. Pessoas casadas vivem juntas. A clínica da base trata problemas ginecológicos e possui, ao lado do equipamento necessário para tratar traumas do combate moderno, uma máquina de ultrassom.
Opositores à introdução de mulheres à zona de combate temiam que o sexo pudesse significar o fim da bravura militar dos EUA. Mas hoje existem métodos de controle de natalidade - em um dia recente, todos os preservativos vendidos pela loja militar se esgotaram -, refletindo uma realidade amplamente aceita de que soldados fazem sexo em postos avançados do Iraque.
As guerras no Iraque e Afeganistão são as primeiras em que dezenas de milhares de mulheres americanas vivem, trabalham e combatem ao lado de homens por longos períodos. Essas guerras sem linhas de frente fizeram mais do que apenas romper as regras que mantinham mulheres afastadas do contato direto com o inimigo.
Elas mudaram a maneira pela qual os militares americanos vão para a guerra. Elas redefiniram a vida nas bases do Iraque e do Afeganistão, criando uma nova geração de mulheres com espírito guerreiro - e experiência de combate -, que por milênios foi algo cultivado quase exclusivamente pelos homens.
E tudo isso aconteceu sem prejudicar a disciplina e a coesão, como alguns temiam que acontecesse em lugares como Warhorse. "Houve muito debate sobre onde as mulheres deveriam ficar", disse a brigadeiro-general Heidi V. Brown, uma das duas mulheres de alto escalão no Iraque atualmente, relembrando o princípio da guerra. "Aqui estamos seis anos depois e ninguém fala mais sobre isso. Não se deveria falar sobre isso." De muitas maneiras, a trajetória de Brown desde o início dos conflitos reflete a expansão do papel das mulheres na guerra.
Em 2003, como coronel, ela comandou a brigada de defesa aérea Patriot, que saiu do Kuwait para o ataque a Bagdá, perdendo nove soldados de um batalhão de manutenção nos arredores de Nassíria três dias após o início da invasão. Uma delas, a soldado Lori Ann Piestewa, foi a primeira mulher morta em combate no Iraque; outra soldado, Jessica D. Lynche, foi capturada no mesmo ataque. Agora, com a diminuição do papel americano no Iraque, Brown vai supervisionar a logística de retirada de uma vasta quantidade de equipamento militar do país no próximo ano.
"Precisamos da contribuição tanto de nossos homens quanto de nossas mulheres", disse a brigadeiro-general Mary A. Legere, diretora de inteligência para o esforço de guerra americano no Iraque, outra mulher de alto posto no Iraque. O exército, obviamente, não ignora a diferença entre os sexos, especialmente no campo de batalha.
O assédio sexual em uma instituição ainda predominantemente masculina continua sendo um problema. Assim como o abuso sexual. Ambos são pouco denunciados, dizem oficiais e soldados, porque a rigidez da hierarquia militar de comando pode tornar as acusações um desconforto ou mesmo um risco para vítimas vivendo tão próximo do alojamento daqueles que acusam.
Como precaução, mulheres são aconselhadas a viajar em duplas, particularmente em bases menores habitadas também por tropas e civis iraquianos. A capitã Margaret D. Taafe-McMenamy, comandante da célula analítica de inteligência de Warhorse, carrega um punhal e uma pesada lanterna - presente de Natal de seu marido, com quem vive aqui - como precaução quando deixa a base à noite.
A sargento-chefe Patricia F. Bradford, 27 anos, soldado de operações psicológicas, disse que comentários pejorativos, sutis ou não, são comuns, alguns mais fáceis de ignorar do que outros. Mulheres ainda são às vezes ridicularizadas nos ambientes confinados, e geralmente tensos, de postos avançados como Warhorse.
"Você é cadela, piranha, ou sapatão - ou é casada, mas mesmo se você for casada, provavelmente ainda vai ser uma das três", disse Bradford. Ao mesmo tempo, ela e outras soldados enfrentam os comentários demonstrando impetuosidade desarmadora. "Acho que ser uma sargento-chefe - e uma cadela - ajuda a contornar essas coisas", acrescentou.
Os temas que surgem com a presença de mulheres em combate - assédio, preconceito, adversidades e mesmo relações sexuais - são, segundo ela e outras, mais uma questão de disciplina, maturidade e profissionalismo do que um motivo para a separação dos sexos.
Bradford lembrou o dia de sua primeira missão, quando seu comboio foi para o sul, enquanto o soldado de quem estava noiva foi para o norte pela mesma estrada. Ela estava escutando pelo rádio quando o comboio dele sofreu um ataque, que continuou depois que o rádio ficou fora de alcance. "Fiquei quatro dias sem ter ideia do que havia acontecido com ele", disse, "mas precisava continuar minha missão, porque é isso que se faz quando se é um soldado". (Posteriormente, ela descobriu que ele havia saído ileso.)
Imprevistos
Alguns problemas não foram previstos quando a guerra no Iraque começou em 2003, apesar da força de invasão inicial já ter incluído mulheres na vanguarda. Em termos práticos, os militares estavam despreparados para acomodar e lidar com necessidades específicas das mulheres na zona de guerra - inclusive em temas como saúde e privacidade.
Inicialmente, as bases eram em sua maioria provisórias e muito mais perigosas. Poucos soldados, de ambos os sexos, tinham mais do que alojamentos ou latrinas rudimentares. Ninguém tinha muita privacidade. Em 2005 e 2006, a sargento Dawn M. Cloukey, especialista de comunicações, era a única mulher entre 45 soldados no Iraque, operando uma estação de retransmissão nas montanhas do norte do país e depois no centro de Bagdá.
Ela sobrevivia com uma mochila, sem banheiro ou quarto próprios. Ela descreveu a experiência como isoladora. "Sempre me sentia como uma praga", disse em Warhorse, em sua segunda estada no Iraque, onde cuida das comunicações do comando da 1ª Brigada Blindada da 25ª Divisão de Infantaria.
Com o estabelecimento de bases mais permanentes, muitas dificuldades iniciais diminuíram, à medida que o Exército foi se adaptando gradualmente à nova realidade de ir à guerra com uma força mista. Assim como os próprios soldados.
As mulheres procuraram aceitação em um ambiente ainda predominantemente masculino, não enfatizando seu sexo, mas demonstrando sua resistência e sua vontade de se ajustar a condições que são menos que ideais.
"Expulsei meus homens do caminhão para urinar em uma garrafa como essa", disse a sargento Joelene M. Lachance, do 172º Batalhão de Inteligência Militar, em Warhorse, apontando para uma das garrafas d'água que são onipresentes nas bases do Iraque. "Corte a garrafa, urine nela e depois jogue fora. Às vezes isso é um problema, mas na maioria das vezes, faço a coisa funcionar."
"Não digo coisas como, 'Não dá para dormir aqui'", continuou. "Se eles dormem lá, eu também durmo. Passei cinco dias em um caminhão certa vez - com seis de meus homens dormindo no chão."
Warhorse ainda reverbera com o tremor de comboios blindados e o baque de helicópteros transportando tropas e, às vezes, feridos. A base fica a norte de Baqouba, capital regional da província de Diyala, uma das mais conturbadas do Iraque. Aqui, a guerra não terminou. Warhorse estará provavelmente entre as últimas bases a fechar no Iraque quando as tropas americanas se retirarem por completo.
No princípio da guerra, a introdução de mulheres em postos como Warhorse levantou temores não só sobre abuso ou assédio, mas também sobre sexo e gravidez. Os piores medos, segundo oficiais, não se materializaram. Na verdade, o sexo nas zonas de guerra dos Estados Unidos é algo bem comum, dizem soldados, e não se mostrou em geral prejudicial.
Em abril, a última iteração da Ordem Geral Nº 1, as regras de conduta de soldados no Iraque, afrouxou discretamente a proibição explícita ao sexo na zona de guerra, embora ainda impeça soldados de fazer sexo com iraquianos e passar a noite na CHU de outra pessoa. Alguns comandos, inclusive Bagdá, mantêm restrições gerais, como ficar em um alojamento que pertença a pessoas do sexo oposto.
"A cadeia de comando já precisa lidar com coisa suficiente", Taafe-McMenamy disse. "Eles não querem ter que punir soldados por namorarem." Mulheres engravidam - uma condição que, intencional ou não, dentro ou fora do casamento, exige que a mulher seja removida em duas semanas, causando problemas de pessoal em unidades individuais.
O Exército e a Marinha se recusaram a dizer exatamente quantas mulheres deixaram o Iraque e o Afeganistão após terem engravidado, mas isso parece ser relativamente raro e ter pouco efeito na prontidão geral das unidades, dizem os comandantes. Na base Warhorse, a 1ª Brigada Blindada, que tem milhares de soldados, enviou apenas três mulheres para casa por causa de gravidez em 10 meses no Iraque, segundo a brigada.
"Havia o medo de que se integrássemos homens e mulheres nas unidades, teríamos um monte de jovens com hormônios à flor da pele, resultando em muita gravidez indesejada, e não vale a pena tanto trabalho", disse Peter Mansoor, ex-comandante de batalhão no Iraque que, até se aposentar recentemente, servia como oficial executivo do general David H. Petraeus. "Com boa liderança e aconselhamento, fomos capazes de manter esses problemas ao mínimo."
Novos papéis
Cerca de 1 em cada 20 dos 5,6 mil soldados de Warhorse é do sexo feminino, uma pequena proporção em comparação ao Exército como um todo. Mesmo assim, elas estão totalmente integradas às operações da base. Muitas mulheres em Warhorse servem em postos que tradicionalmente são ocupados por mulheres: hospital da base, serviço, fornecimento e administração de alimentos.
Outras, no entanto, servem na equipe de brigada, em operações de inteligência e psicológicas, que até recentemente faziam parte das Forças Especiais e, portanto, inacessíveis a mulheres.
"Mudamos muito", o coronel Burt K. Thompson, comandante da Warhorse, disse sobre o Exército, observando que, toda vez que ele deixa a base, sua patrulha conta com duas mulheres, Cloukey nas comunicações e uma paramédica, a sargento Evette T. Lee-Stewart. "Ter uma mulher na brigada de infantaria? Ah, meu Deus."
Como muitos comandantes que serviram no Iraque ou Afeganistão, ele afirma que as mulheres encerraram o debate sobre seu papel no Exército com seu desempenho. "Já afastei homens do comando", ele disse. "Nunca tive que substituir uma mulher no comando em dois anos e meio como comandante."
A natureza da guerra também fez muito para mudar o debate sobre os papéis de combate das mulheres. Qualquer missão fora das fortemente protegidas bases é um convite efetivo ao contato com o inimigo.
Muitas mulheres também foram retiradas de suas ocupações regulares e treinadas para revistar mulheres iraquianas em postos de checagem por causa de sensibilidades culturais locais, ficando expostas ao mesmo risco que os homens. Quando a especialista Jennifer M. Hoeppner deixa a proteção de arame farpado da Warhorse para uma patrulha, ela ocupa o que chama de "o melhor assento do caminhão", uma torre no topo do mais novo veículo blindado do Exército, o MRAP.
"Sou a artilheira de todas as nossas missões", ela disse, especializada no uso da metralhadora M240B. "Acho que alguns dos homens ficam confusos quando eu vou para cima do carro", Hoeppner disse. "Eles perguntam, 'Quem é seu atirador?'"
As mulheres também estão cada vez mais "apegadas" às unidades de infantaria e de veículos blindados, treinando e aconselhando a polícia e as forças militares iraquianas. Agora que quase todas as forças de combate dos EUA recuaram para bases fora das cidades iraquianas, esse treinamento se tornou a principal missão no Iraque.
O envolvimento de mulheres tem sido um choque cultural para os homens iraquianos, muito menos acostumados a lidar com mulheres profissionalmente, em especial na atividade militar.
As mulheres citam comentários inapropriados ou elogios constrangedores, e até mesmo presentes. "Ganhei de tudo, de doces a lingerie", disse a capitã Victoria Ferreira, 29 anos, que passou um ano com um esquadrão de 11 pessoas treinando oficiais iraquianos. "Como reajo a isso? 'Obrigada?'" Na maior parte do tempo, no entanto, os iraquianos parecem aceitar o papel das mulheres nas forças americanas - eles até mesmo expandiram seu próprio pessoal para tarefas como revista de mulheres em postos de checagem -, mesmo parecendo improvável que elas sejam incorporadas mais amplamente às forças armadas iraquianas em um futuro próximo.
"Acho que agora, após seis anos desde que a guerra começou, eles aprenderam a se adaptar ou tolerar o fato de que o Exército americano possui postos de alto escalão ocupados por mulheres", disse a capitã Violeta Z. Sifuentes, que comanda a 591ª Companhia da Polícia Militar.
Não foi sempre assim. Ela se lembra da primeira vez que foi a Samarra em 2006. "Eles sempre pensavam que meu sargento de pelotão ou meu líder de esquadrão era quem estava no comando, até eu dizer, 'Escutem aqui, eu estou no comando, quer vocês gostem ou não.'"
O comentário da capitã costumava ser comum. Mulheres que servem no Exército hoje representam uma mudança de geração. Elas são mulheres jovens e confiantes, que não tiveram que lutar as mesmas batalhas exaustivas em relação a seu sexo que suas predecessoras em uniforme lutaram. "Nunca senti a necessidade de brigar para ter sucesso no Exército", foi como Taafe-McMenamy, 27 anos, colocou.
Adaptação às tarefas
As mulheres no Exército de hoje dizem que não sentem a mesma pressão para provarem seu valor. Elas se adaptam e esperam que os outros se adaptem. Elas preservam sua feminilidade sem fazer muito alarde.
Hoeppner e sua colega de quarto, Bradford, pertencem à 361ª Companhia de Operações Táticas Psicológicas, que patrulha as cidades e vilarejos de Diyala com esquadrões de infantaria para disseminar e coletar informações. Em uma recente patrulha ao pequeno vilarejo de Shifta, elas pareciam ser mais novidade para os iraquianos que encontravam do que para os soldados com quem patrulhavam, assumindo posições defensivas ao lado de seus colegas sempre que eles faziam uma pausa.
"Na verdade, tive essa ideia de um milhão de dólares na minha primeira missão", Bradford disse sobre sua viagem como motorista de um caminhão de suprimentos em 2004. "Pensei, preciso de algo como um funil para poder fazer xixi de pé sem precisar abaixar as calças. Como éramos motoristas de caminhão, parávamos na beira da estrada. Não existem arbustos. Contei a minha grande ideia a um dos meus soldados e ele disse que eles já faziam aquilo."
Ela produziu no beliche de sua CHU um aparelho vendido pela empresa REI chamado "direcionador urinário feminino". "Ele é até rosa", Hoeppner exclamou. A oficial de suprimentos da Warhouse adquiriu dezenas deles. "A primeira vez que um dos homens passou pelo caminhão e me viu fazendo xixi no pneu", ela disse sobre um de seus colegas, "achei que ele fosse ter um ataque do coração".
Tradução: Amy Traduções