França abrirá consulado na Groenlândia em meio à disputa dos EUA pela ilha
O anúncio do consulado francês foi originalmente prometido pelo presidente Emmanuel Macron durante visita à ilha em junho de 2025
A França abrirá um consulado geral na Groenlândia até julho de 2026, reforçando laços diplomáticos e interesses estratégicos no Ártico, em meio à crescente disputa de influência territorial e geopolítica envolvendo os EUA.
A França iniciará em fevereiro as primeiras etapas para a instalação de um consulado geral na Groenlândia, com previsão de abertura antes de julho, anunciou na segunda-feira, 12, a chancelaria. A medida é parte de um esforço diplomático para reafirmar o apoio francês ao território autônomo do Reino da Dinamarca, em um contexto geopolítico cada vez mais sensível, marcado pelo interesse crescente dos EUA pela importância da Groenlândia na pesquisa científica e no desenvolvimento de recursos naturais.
O anúncio do consulado francês foi originalmente prometido pelo presidente Emmanuel Macron durante visita à ilha em junho de 2025, quando ressaltou a necessidade de fortalecer laços diplomáticos e científicos com a região. Oficialmente, apenas seis franceses estão registrados como residentes na Groenlândia.
No entanto, segundo o Quai d'Orsay, sede da chancelaria francesa, o consulado terá "competências ampliadas". Além de atender à população francesa residente, acompanhará cerca de 30 pesquisadores que realizam expedições científicas anuais na ilha e facilitará a cooperação com autoridades e instituições groenlandesas.
O consulado também orientará empresas francesas interessadas em investir ou se estabelecer na Groenlândia, incluindo projetos de exploração mineral, energia hidrelétrica e outras áreas de investimento sustentável. Além disso, pretende desenvolver iniciativas científicas com os groenlandeses, como pesquisas ambientais e estudos sobre mudanças climáticas, fortalecendo a cooperação em áreas estratégicas.
Importância estratégica da Groenlândia
A ilha é considerada estratégica por acumular reservas estimadas em até 36 milhões de toneladas de terras raras — minérios como urânio, lítio, zinco, cobre e níquel — e cerca de 31 bilhões de barris de petróleo não explorados, segundo estudos do US Geological Survey.
A aceleração do projeto francês ocorre em meio a repetidas declarações do presidente norte-americano, Donald Trump, sobre a intenção de controlar a Groenlândia. A iniciativa de Paris tem, portanto, forte componente político, enviando um sinal claro de apoio à soberania do território e à Dinamarca, enquanto outros países, como o Canadá, seguem o exemplo e inauguram seus consulados em Nuuk ainda neste mês.
França entra no jogo estratégico do Ártico
Segundo especialistas em relações internacionais, a abertura do consulado francês não é apenas simbólica: ela insere a França no xadrez estratégico do Ártico, onde Rússia, Estados Unidos, China e Canadá disputam influência sobre rotas marítimas, recursos minerais e pesquisas científicas. A França busca garantir participação neste espaço estratégico antes que outros países ampliem seu controle direto.
Atualmente, cerca de 15 países mantêm algum tipo de representação consular na Groenlândia, mas, na maioria dos casos, trata-se de consulados honorários, exercidos por personalidades locais de forma voluntária. A França já possui um consulado honorário em Nuuk, mas a criação de um consulado geral sinaliza um interesse mais estratégico e de longo prazo. Um representante do Ministério das Relações Exteriores será enviado a Nuuk no próximo mês para iniciar a busca por um prédio que abrigará o consulado.
Presença americana na ilha
A Groenlândia ocupa uma posição geopolítica estratégica há décadas. Durante a Guerra Fria, o território era essencial para a patrulha da aviação estratégica norte-americana, armada com ogivas nucleares. A base americana de Thulé — atualmente chamada Pituffik Space Base — foi construída em apenas um verão, de forma acelerada, no norte da Groenlândia, a cerca de 1.500 km do Polo Norte. A instalação, conduzida em absoluto segredo e acompanhada por intensa propaganda em 1952, representava um ponto-chave para o controle do Ártico e da rota entre Moscou e Nova York.
Desde então, os Estados Unidos consideram que possuir bases na Groenlândia não basta; é necessário ter influência direta sobre sua soberania. Em 1946, os americanos propuseram secretamente a compra do território à Dinamarca, que recusou reiteradamente — em 1955, 1975 e novamente em 2019, quando intermediários do então presidente Donald Trump retomaram a ideia.
Para os dinamarqueses, a Groenlândia faz parte integral de sua identidade nacional, ligada à herança do explorador viking Érik, o Vermelho, que a batizou de "Terra Verde" para atrair colonos por volta do ano 1000. A ilha representa orgulho nacional e não pode ser separada da Dinamarca.
O interesse norte-americano não é recente. Em 1867, quando os Estados Unidos compraram o Alasca da Rússia, também havia planos de adquirir a Groenlândia e a Islândia. O então secretário de Estado William Henry Seward via o território como uma terra pouco explorada, rica em peixes e minerais. Havia ainda uma estratégia geopolítica: se a Groenlândia se tornasse americana, isso aumentaria a pressão sobre o Canadá, incentivando sua eventual integração aos Estados Unidos — objetivo que, ironicamente, Trump voltou a mencionar recentemente.
Com agências