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Após 100 anos de fundação, kibutz busca resistir ao capitalismo em Israel

23 dez 2010
06h06

Israel celebra em 2010 o centenário da fundação do primeiro kibutz, a comuna agrícola que foi símbolo fundamental para a constituição do Estado judaico e que hoje luta para sobreviver em plena sociedade capitalista.

Quando se atravessa o portão de entrada de Degania, o primeiro kibutz estabelecido em outubro de 1910 junto ao Mar da Galileia, no norte de Israel, tem-se a sensação de que o tempo parou há décadas.

Casas modestas, de pequena altura e telhados vermelhos, velhos tratores expostos como estátuas e trilhas onde a bicicleta é o meio de transporte conformam a paisagem idílica desta utopia israelense.

Custa crer que apenas um século atrás o mesmo terreno era um lodaçal junto ao Rio Jordão que o Fundo Nacional Judeu tinha comprado de uma aldeia beduína.

A ideia surgiu de um grupo de judeus procedentes da Europa do Leste que, sem sabê-lo, lançou a pedra fundamental do que se transformaria em um movimento de comunidades agrícolas de inspiração socialista e sionista, sem as quais não se pode entender o estabelecimento do Estado de Israel, em 1948.

Os pioneiros acreditavam em uma sociedade igualitária na qual os judeus deveriam administrar sua propriedade em comum, como se deduz da palavra "kibutz", que do hebraico significa agrupamento.

"Cada um conforme sua capacidade, a cada qual conforme suas necessidades" foi a insígnia deste sonho coletivo.

Considerado um dos experimentos comunitários mais importantes da história, o kibutz foi fundado num momento em que a agricultura independente não era prática e se consolidou graças à migração de judeus, que chegaram à região no século passado.

Atualmente, 273 kibutzim, lar de mais de 106 mil pessoas, se encontram espalhados por todo o país e pelas Colinas de Golã (território sírio ocupado), em sua maioria em zonas periféricas.

O kibutz teve de passar por um processo de transformação iniciado na década de 1980, que pôs em dúvida a vigência desta forma de vida alternativa.

Exemplo disso é o próprio Degania, que se viu obrigado há três anos a adentrar em um processo de capitalização parcial.

"Buscou-se dar mais liberdade aos membros do kibutz com a possibilidade de prosperar na vida", afirma Gen Vardi, de 54 anos, expoente da terceira geração do kibutz.

Apesar de muitos considerarem as novas medidas como uma "privatização" que põe fim ao sonho socialista, seus habitantes as consideram uma decisão pragmática e, em muitos casos, a única maneira de sobreviver.

"O que se fez foi mudar o equilíbrio. As propriedades continuam sendo coletivas, mas os lucros são distribuídos de acordo com os diferentes cálculos", aponta Vardi, proprietário do Café dos Pioneiros, que arrendou da própria administração do kibutz.

Atualmente, 190 kibutzim (dois terços do total) distribuem os lucros de forma diferenciada entre seus membros em função de suas atividades, tamanho da família e contribuição laboral à comuna.

"Existem salários mínimos, uma espécie de rede social para aqueles que não contribuem com nada, mas os que querem progredir obtêm lucros e sua atividade recebe incentivos", comenta Sergio Weiner, de 47 anos, natural da Argentina e casado com uma neta dos fundadores do kibutz.

Os membros de pleno direito como ele não pagam aluguel e continuam tendo muitos serviços gratuitos ou subvencionados, inclusive nos kibutzim que adotaram o "sistema renovado".

O salão do refeitório, todo um símbolo onde outrora os agricultores compartilhavam as principais refeições do dia, se mostra em nítida decadência.

"Hoje aqui só se serve diariamente o almoço e o jantar das sextas-feiras, mas as pessoas preferem ficar em casa com a família", acrescenta Weiner.

A refeição é paga. Custa cerca de 4 euros - isso porque é subsidiada - e as empresas de catering assumiram a elaboração dos cardápios.

O mesmo edifício do refeitório continua abrigando o correio e o telefone público, últimos vestígios de que o núcleo da vida comunitária do kibutz passava por ali.

"Continuo pensando que a ideia de uma vida compartilhada e comunitária, como algo autóctone israelense, permanece sendo relevante para o próximo século", sustenta Shlomit Gross, responsável pela administração do kibutz, um sonho coletivo que resiste às exigências da era capitalista.

EFE   

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