Moradores de Brisbane relembram pânico durante enchentes
- Diego Freire
- Direto de Brisbane, Austrália
O técnico de informática Brent Silva, australiano de ascendência portuguesa, não consegue evitar a imagem das inundações ao percorrer locais afetados pelas enchentes na cidade de Brisbane, no último mês de janeiro. Ainda que a rotina da cidade já esteja próxima da normalidade, as marcas dos acontecimentos seguem presentes em muitos dos muros, manchados pela água.
"Foi assustador. Como não era nascido em 1974, nunca vi nada parecido", comenta Brent, relembrando o último ano em que a capital do estado de Queensland enfrentou alagamentos em proporções comparáveis às de 2011.
Caracterizada por um relevo de subidas e descidas, cortada por um rio e localizada em uma área onde são comuns chuvas sazonais e ciclones no oceano, Brisbane já sofreu pelo menos sete grandes enchentes em sua história (1841, 1887, 1890, 1893, 1931, 1974 e 2011). A experiência rendeu à cidade uma boa estrutura de evacuação, mas ainda não é possível evitar grandes perdas quando o volume de água ultrapassa as expectativas.
"Percebemos que ainda temos muito a melhorar, não apenas em estrutura. Acredito que na última enchente tivemos problemas de comunicação, já que muitas pessoas não acreditaram que o incidente seria tão sério quando receberam os primeiros alarmes do governo e da imprensa. Quando se convenceram, já era muito tarde para abandonar suas casas", aponta Brent, que, apesar de morar em uma rua alta que não foi alagada, pôde ver, do seu apartamento, alguns dos lugares afetados.
"No meu prédio a maioria das pessoas foram para abrigos, temendo que a água chegasse aqui. Nós que ficamos não tínhamos o que fazer, sem energia elétrica, e nem para onde ir, com a cidade inteira alagada. Só nos restava nos reunir para conversar. De noite, sem luzes, era terrível a escuridão¿, completa, com uma ressalva: ""ó não nos sentíamos totalmente na idade da pedra porque podíamos ouvir muitos helicópteros de TVs e equipes de resgate".
Jogador brasileiro foi uma das vítimas
Herói em Brisbane após converter o pênalti que deu ao Roars, time de futebol da cidade, o título da temporada 2010/2011 do Campeonato Australiano de futebol, o ponta direito Henrique Andrade viveu momentos de tensão durante as enchentes, quando ficou ilhado em sua casa por seis dias, na companhia da esposa.
"Foi uma situação terrível. Nunca passei por uma experiência de vida como essa", conta o atleta. Se recuperando de uma contusão, ele foi poupado de jogar uma partida da sua equipe fora de casa e vivenciou o drama.
"O time inteiro estava jogando em Sydney, só eu fiquei aqui. Me avisaram para fazer compras e evacuar minha casa, mas não achei que teria essa gravidade toda. Fiquei preso, sem eletricidade, telefone e contato com ninguém. Para piorar, a comida foi acabando e vivemos um pesadelo", relata Henrique, que, após a normalização do nível da água, ainda foi obrigado a viver em um hotel por dez dias, até que sua casa voltasse a ter energia elétrica.
"Lembro que no primeiro dia falaram que seria uma grande catástrofe e a água do rio subiu só um pouco, então achei que fosse ser mais tranquilo. Mas os dias seguintes foram terríveis. Na minha casa não entrou na água, porém as ruas de acesso estavam todas alagadas. Como a garagem é elétrica, não podia usar meu carro, e também não tinha como ninguém vir para cá. Queria mandar notícias, mas a bateria do meu celular tinha acabado. Foi um grande pânico", descreve Henrique.