O modelo espanhol que faz do país campeão de transplantes
A Espanha lidera há mais de três décadas os rankings internacionais de transplantes de órgãos quando se observa o número médio por habitante.
A Espanha lidera há mais de três décadas os rankings internacionais de transplantes de órgãos quando se observa o número médio por habitante. Esse desempenho chama a atenção porque se mantém estável, mesmo com mudanças políticas, econômicas e demográficas ao longo dos anos. Em vez de resultar de um único fator, o modelo espanhol combina organização, legislação específica, treinamento de profissionais de saúde e uma cultura de doação trabalhada de forma contínua.
O sistema não se limita a uma boa lei ou a campanhas pontuais. Em vez disso, funciona como uma engrenagem em que hospitais, equipes de UTI, coordenadores de transplante e autoridades sanitárias atuam em conjunto. Ao mesmo tempo, equipes especializadas informam as famílias com clareza e respeito. Isso reduz recusas e fortalece a confiança na medicina de transplantes no país.
O que é o modelo espanhol de transplantes?
O chamado modelo espanhol de transplantes consiste, antes de tudo, em uma forma de organizar o sistema público de saúde. Ele permite identificar potenciais doadores, garantir a logística da captação de órgãos e realizar as cirurgias no menor tempo possível. No centro da estrutura, atua a Organização Nacional de Transplantes (ONT), criada no fim dos anos 1980, que coordena ações em âmbito nacional, regional e hospitalar.
Esse modelo utiliza uma rede de coordenação em vários níveis: nacional, autonômico (das comunidades autônomas) e hospitalar. Cada hospital com UTI relevante conta com um coordenador de transplantes, geralmente um médico intensivista, com tempo e formação dedicados a essa função. Assim, as equipes identificam potenciais doadores com rapidez. Além disso, organizam a comunicação com a família de forma respeitosa, o que evita improvisos em momentos de grande fragilidade emocional.
Por que a Espanha lidera em transplantes por habitante há 34 anos?
A liderança espanhola em transplantes de órgãos por habitante resulta da soma de três pilares principais: legislação adequada, estrutura de coordenação e cultura de doação construída ao longo dos anos. A legislação de "consentimento presumido" define que todo cidadão funciona como potencial doador, a menos que manifeste o contrário em vida. Na prática, porém, as equipes continuam consultando as famílias, o que mantém a transparência e diminui conflitos.
Outro ponto central envolve a profissionalização do processo de abordagem familiar. Em vez de entregar a conversa a quem estiver disponível, a Espanha investe em capacitação específica de profissionais para falar sobre doação em cenários de morte encefálica ou morte circulatória. Essa prática tende a reduzir recusas, porque a família recebe informações claras sobre o diagnóstico, o procedimento e o destino dos órgãos.
Além disso, o sistema integra de forma forte as UTIs e as coordenações de transplante. Protocolos bem definidos determinam o momento de acionar a equipe de transplantes e o modo de manter o potencial doador em condições estáveis até a captação. Também orientam como agilizar exames e documentação. Essa padronização amplia o número de doadores efetivos e diminui perdas por questões logísticas.
Quais elementos diferenciam o sistema espanhol de outros países?
Embora vários países adotem leis semelhantes de consentimento presumido, poucos alcançam índices próximos aos da Espanha. O diferencial aparece menos na letra da lei e mais na aplicação prática. A ONT monitora dados em tempo real, identifica gargalos, desenvolve protocolos e oferece treinamento contínuo às equipes. Desse modo, o sistema cria um ciclo de melhoria constante.
Alguns fatores frequentemente aparecem como marcas do modelo espanhol, incluindo ainda resultados positivos em avaliações internacionais:
- Rede de coordenadores hospitalares: médicos e enfermeiros assumem funções específicas ligadas à doação e ao transplante, com papéis claros e metas definidas.
- Formação em comunicação: as equipes recebem preparação técnica e emocional para abordar famílias em luto, com linguagem acessível e espaço para dúvidas.
- Monitoramento de indicadores: as instituições coletam dados de forma sistemática sobre potenciais doadores, doadores efetivos, recusas familiares e tempos de resposta.
- Planejamento logístico: equipes articulam o transporte de órgãos com serviços de emergência, aviação e rede hospitalar, o que reduz atrasos e desperdícios.
- Integração com o sistema público de saúde: o sistema garante financiamento estável e inclui o transplante como parte estruturante da assistência, e não como serviço isolado.
Como a cultura de doação é trabalhada na sociedade espanhola?
A elevada taxa de doadores na Espanha também se relaciona a uma construção social de longo prazo. Campanhas de informação frequentemente destacam histórias de pessoas que receberam um órgão e retomaram a rotina. Contudo, essas ações concentram foco em dados e esclarecimentos, e não em apelos emotivos exagerados. A mensagem predominante enfatiza solidariedade e benefício coletivo, alinhados ao caráter majoritariamente público do sistema de saúde.
As escolas, os meios de comunicação e as entidades de pacientes colaboram para disseminar conhecimento sobre morte encefálica, processo de doação e critérios de alocação de órgãos. Quando instituições explicam temas sensíveis com regularidade, as dúvidas diminuem. Assim, famílias se sentem mais seguras ao tomar decisões em um momento de perda.
- Informação contínua sobre o que representa a doação de órgãos e como o processo funciona na prática.
- Transparência em relação às listas de espera e aos critérios médicos de prioridade, com acesso público aos dados.
- Participação de associações de pacientes, que esclarecem direitos e deveres e ajudam a mediar o diálogo com o sistema de saúde.
- Campanhas oficiais regulares, com linguagem simples, foco em dados reais e atualização constante sobre resultados.
Observadores de sistemas de saúde costumam apontar que o desempenho espanhol não decorre de ações pontuais, mas de um trabalho mantido por décadas. A combinação entre consentimento presumido, forte coordenação nacional, treinamento intensivo em UTIs e diálogo constante com a população sustenta, ano após ano, o lugar da Espanha como referência mundial em transplantes por habitante.