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O modelo espanhol que faz do país campeão de transplantes

A Espanha lidera há mais de três décadas os rankings internacionais de transplantes de órgãos quando se observa o número médio por habitante.

25 jan 2026 - 20h01
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A Espanha lidera há mais de três décadas os rankings internacionais de transplantes de órgãos quando se observa o número médio por habitante. Esse desempenho chama a atenção porque se mantém estável, mesmo com mudanças políticas, econômicas e demográficas ao longo dos anos. Em vez de resultar de um único fator, o modelo espanhol combina organização, legislação específica, treinamento de profissionais de saúde e uma cultura de doação trabalhada de forma contínua.

O sistema não se limita a uma boa lei ou a campanhas pontuais. Em vez disso, funciona como uma engrenagem em que hospitais, equipes de UTI, coordenadores de transplante e autoridades sanitárias atuam em conjunto. Ao mesmo tempo, equipes especializadas informam as famílias com clareza e respeito. Isso reduz recusas e fortalece a confiança na medicina de transplantes no país.

fígado – depositphotos.com / Tharakorn
fígado – depositphotos.com / Tharakorn
Foto: Giro 10

O que é o modelo espanhol de transplantes?

O chamado modelo espanhol de transplantes consiste, antes de tudo, em uma forma de organizar o sistema público de saúde. Ele permite identificar potenciais doadores, garantir a logística da captação de órgãos e realizar as cirurgias no menor tempo possível. No centro da estrutura, atua a Organização Nacional de Transplantes (ONT), criada no fim dos anos 1980, que coordena ações em âmbito nacional, regional e hospitalar.

Esse modelo utiliza uma rede de coordenação em vários níveis: nacional, autonômico (das comunidades autônomas) e hospitalar. Cada hospital com UTI relevante conta com um coordenador de transplantes, geralmente um médico intensivista, com tempo e formação dedicados a essa função. Assim, as equipes identificam potenciais doadores com rapidez. Além disso, organizam a comunicação com a família de forma respeitosa, o que evita improvisos em momentos de grande fragilidade emocional.

Por que a Espanha lidera em transplantes por habitante há 34 anos?

A liderança espanhola em transplantes de órgãos por habitante resulta da soma de três pilares principais: legislação adequada, estrutura de coordenação e cultura de doação construída ao longo dos anos. A legislação de "consentimento presumido" define que todo cidadão funciona como potencial doador, a menos que manifeste o contrário em vida. Na prática, porém, as equipes continuam consultando as famílias, o que mantém a transparência e diminui conflitos.

Outro ponto central envolve a profissionalização do processo de abordagem familiar. Em vez de entregar a conversa a quem estiver disponível, a Espanha investe em capacitação específica de profissionais para falar sobre doação em cenários de morte encefálica ou morte circulatória. Essa prática tende a reduzir recusas, porque a família recebe informações claras sobre o diagnóstico, o procedimento e o destino dos órgãos.

Além disso, o sistema integra de forma forte as UTIs e as coordenações de transplante. Protocolos bem definidos determinam o momento de acionar a equipe de transplantes e o modo de manter o potencial doador em condições estáveis até a captação. Também orientam como agilizar exames e documentação. Essa padronização amplia o número de doadores efetivos e diminui perdas por questões logísticas.

Quais elementos diferenciam o sistema espanhol de outros países?

Embora vários países adotem leis semelhantes de consentimento presumido, poucos alcançam índices próximos aos da Espanha. O diferencial aparece menos na letra da lei e mais na aplicação prática. A ONT monitora dados em tempo real, identifica gargalos, desenvolve protocolos e oferece treinamento contínuo às equipes. Desse modo, o sistema cria um ciclo de melhoria constante.

Alguns fatores frequentemente aparecem como marcas do modelo espanhol, incluindo ainda resultados positivos em avaliações internacionais:

  • Rede de coordenadores hospitalares: médicos e enfermeiros assumem funções específicas ligadas à doação e ao transplante, com papéis claros e metas definidas.
  • Formação em comunicação: as equipes recebem preparação técnica e emocional para abordar famílias em luto, com linguagem acessível e espaço para dúvidas.
  • Monitoramento de indicadores: as instituições coletam dados de forma sistemática sobre potenciais doadores, doadores efetivos, recusas familiares e tempos de resposta.
  • Planejamento logístico: equipes articulam o transporte de órgãos com serviços de emergência, aviação e rede hospitalar, o que reduz atrasos e desperdícios.
  • Integração com o sistema público de saúde: o sistema garante financiamento estável e inclui o transplante como parte estruturante da assistência, e não como serviço isolado.

Como a cultura de doação é trabalhada na sociedade espanhola?

A elevada taxa de doadores na Espanha também se relaciona a uma construção social de longo prazo. Campanhas de informação frequentemente destacam histórias de pessoas que receberam um órgão e retomaram a rotina. Contudo, essas ações concentram foco em dados e esclarecimentos, e não em apelos emotivos exagerados. A mensagem predominante enfatiza solidariedade e benefício coletivo, alinhados ao caráter majoritariamente público do sistema de saúde.

As escolas, os meios de comunicação e as entidades de pacientes colaboram para disseminar conhecimento sobre morte encefálica, processo de doação e critérios de alocação de órgãos. Quando instituições explicam temas sensíveis com regularidade, as dúvidas diminuem. Assim, famílias se sentem mais seguras ao tomar decisões em um momento de perda.

  1. Informação contínua sobre o que representa a doação de órgãos e como o processo funciona na prática.
  2. Transparência em relação às listas de espera e aos critérios médicos de prioridade, com acesso público aos dados.
  3. Participação de associações de pacientes, que esclarecem direitos e deveres e ajudam a mediar o diálogo com o sistema de saúde.
  4. Campanhas oficiais regulares, com linguagem simples, foco em dados reais e atualização constante sobre resultados.

Observadores de sistemas de saúde costumam apontar que o desempenho espanhol não decorre de ações pontuais, mas de um trabalho mantido por décadas. A combinação entre consentimento presumido, forte coordenação nacional, treinamento intensivo em UTIs e diálogo constante com a população sustenta, ano após ano, o lugar da Espanha como referência mundial em transplantes por habitante.

fígado – depositphotos.com / Tharakorn
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Foto: Giro 10
Giro 10
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