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María Corina Machado entrega sua medalha do Nobel da Paz para Trump

Presidente americano disse que receber o prêmio foi 'um gesto maravilhoso de respeito mútuo'.

16 jan 2026 - 22h58
(atualizado em 16/1/2026 às 00h13)
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María Corina Machado se encontrou nesta quinta-feira (15/1) com Donald Trump na Casa Branca
María Corina Machado se encontrou nesta quinta-feira (15/1) com Donald Trump na Casa Branca
Foto: Reuters / BBC News Brasil

A líder da oposição venezuelana María Corina Machado disse a repórteres que entregou a medalha de seu prêmio Nobel da Paz ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em uma reunião privada na Casa Branca nesta quinta-feira (15/1).

"Eu acho que hoje é um dia histórico para nós, venezuelanos", afirmou a venezuelana após a reunião, a primeira vez em que os dois se encontraram pessoalmente.

Machado recebeu o Nobel da Paz em 2025.

O encontro entre os dois aconteceu semanas depois de as forças americanas prenderem o líder venezuelano Nicolás Maduro em Caracas e o acusarem de tráfico de drogas.

Trump expressou sua gratidão em uma publicação nas redes sociais, dizendo que receber o prêmio foi "um gesto maravilhoso de respeito mútuo".

Mas o presidente dos EUA não apoiou Machado — cujo grupo político afirmou ter vencido as eleições amplamente contestadas de 2024 na Venezuela — como nova presidente do país sul-americano.

Em vez disso, ele está dialogando com a presidente interina do país, Delcy Rodríguez, ex-vice-presidente de Maduro.

Mas ele disse que conhecer Machado foi uma "grande honra", chamando-a de "uma mulher maravilhosa que passou por tanta coisa".

María Corina Machado recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2025
María Corina Machado recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2025
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Depois de deixar a Casa Branca, Machado falou com apoiadores reunidos nos portões do lado de fora, dizendo, em espanhol, segundo a Associated Press: "Nós podemos contar com o presidente Trump".

"Eu entreguei ao presidente dos Estados Unidos a medalha do prêmio Nobel da Paz", disse mais tarde a jornalistas em inglês, chamando o gesto de um reconhecimento do "compromisso único" de Trump com a liberdade dos venezuelanos.

O presidente americano, que com frequência fala sobre seu desejo de receber o Nobel da Paz, expressou insatisfação no ano passado quando a premiação foi concedida a Machado.

A BBC entrou em contato com a Casa Branca para comentários.

Machado disse na semana passada que dividiria a medalha com Trump, mas o comitê do Nobel esclareceu, posteriormente, que o prêmio era intransferível.

"Uma vez que o Prêmio Nobel é anunciado, ele não pode ser revogado, dividido ou transferido para outros", afirmou o comitê em um comunicado na última semana.

"A decisão final é definitiva."

Questionado pela BBC sobre as declarações de Machado, o comitê manteve sua declaração anterior.

Antes da reunião na Casa Branca na quinta-feira, o Centro Nobel da Paz publicou na rede social X que "uma medalha pode mudar de dono, mas o título de laureado com o Prêmio Nobel da Paz não".

Machado descreveu como o Marquês de Lafayette, que lutou na Guerra da Independência Americana, presenteou Simón Bolívar, um dos pais fundadores da Venezuela moderna, com uma medalha com a efígie de George Washington.

O presente foi "um sinal da irmandade" entre seu país e os EUA "em sua luta pela liberdade contra a tirania", disse Machado.

"E, 200 anos depois, o povo de Bolívar devolve ao herdeiro de Washington uma medalha, neste caso, a medalha do Prêmio Nobel da Paz, como reconhecimento por seu compromisso único com a nossa liberdade."

Delcy Rodríguez recebeu a bênção de Trump para liderar a Venezuela após a prisão de Maduro
Delcy Rodríguez recebeu a bênção de Trump para liderar a Venezuela após a prisão de Maduro
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Durante sua visita a Washington, Machado também esteve no Congresso para se encontrar senadores americanos.

No local, suas declarações à imprensa foram abafadas por apoiadores que gritavam "María, presidente" e balançavam bandeiras venezuelanas.

Esperava-se que Machado aproveitasse seu tempo com Trump para tentar convencê-lo de que apoiar o governo interino de Rodríguez foi um erro e que sua coalizão de oposição deveria estar no comando dessa transição.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse a repórteres, enquanto a reunião estava em andamento nesta quinta, que Machado é "uma voz notável e corajosa para muitos venezuelanos".

Leavitt acrescentou que Trump "estava ansioso por essa reunião e esperando por uma discussão franca e positiva" sobre a realidade da vida na Venezuela.

Trump já descreveu Machado como uma "lutadora pela liberdade", mas rejeitou a ideia de nomeá-la para liderar a Venezuela após a prisão de Maduro, argumentando que ela não possui apoio interno suficiente.

Desde que Maduro foi detido em 3 de janeiro, o governo Trump agiu rapidamente para reformular o setor petrolífero da Venezuela, que estava sob sanções dos EUA.

Na quarta-feira (14), uma fonte do governo americano disse que os EUA concluíram sua primeira venda de petróleo venezuelano, avaliada em US$ 500 milhões (R$ 2,685 bilhões).

Navios suspeitos de transportar petróleo venezuelano sancionado também foram detidos pelos EUA.

Forças americanas afirmaram ter abordado um sexto petroleiro nesta quinta-feira.

Um enviado do governo venezuelano deve viajar a Washington na quinta-feira para encontrar com oficiais americanos e dar os primeiros passos para reabrir a embaixada do país, afirmou o jornal americano New York Times.

O enviado é considerado um aliado próximo e amigo de Rodríguez, que foi descrita como "extremamente cooperativa" pela Casa Branca.

Rodríguez fez o discurso anual "Mensagem à Nação" em Caracas nesta quinta-feira e disse estar disposta a participar também de reuniões em Washington.

"Se eu tiver que ir a Washington como presidente interina, irei de pé, caminhando, e não rastejando", disse, pedindo ao país para "não ter medo da diplomacia" com os EUA.

Trump e Rodríguez também conversaram por telefone na quarta-feira.

Nas redes sociais, Trump descreveu a presidente interina da Venezuela como "uma pessoa fantástica".

Rodríguez, por sua vez, disse que a ligação foi "produtiva e cortês" e caracterizada por "respeito mútuo".

Encontro pode mudar algo na Venezuela?

Trump é famoso por ser imprevisível em seus relacionamentos pessoais com outros políticos, mas a forma como ele enxerga o papel de Machado provavelmente dependerá menos do encontro que teve com ela e mais do que Rodríguez fizer nas próximas semanas.

Embora muitos apoiadores da oposição venezuelana tenham ficado chocados quando Trump deixou Machado de lado em favor de Rodríguez, alguns agora começam a entender o que pode ter motivado essa decisão.

Machado é uma figura polarizadora. Embora amada por seus apoiadores — que, entre outras coisas, admiram sua habilidade em unir uma oposição anteriormente fragmentada —, ela é odiada pelo regime e seus partidários justamente por esse motivo.

Para eles, ela é uma oponente formidável e, acima de tudo, franca.

Embora o governo venezuelano tenha agora apoio popular minoritário, de acordo com pesquisas e analistas, ele mantém controle sobre as instituições do Estado, incluindo as Forças Armadas.

Grupos civis armados e financiados pelo Estado, conhecidos como colectivos, continuam sendo parte do movimento pró-governo.

Neste clima, expressar apoio público a Machado, ou à intervenção dos EUA, é arriscado.

Até mesmo alguns opositores de Maduro temem o que poderia acontecer se Trump colocasse um líder da oposição sem realizar novas eleições.

Os venezuelanos estão divididos quanto às ações de Trump, mesmo aqueles que se opunham a Maduro.

Enquanto alguns expressam apoio em voz baixa, outros discordam particularmente de suas declarações que sugerem que os EUA poderiam controlar a Venezuela e seu petróleo.

Apoiadores de María Corina Machado estavam reunidos do lado de fora da Casa Branca
Apoiadores de María Corina Machado estavam reunidos do lado de fora da Casa Branca
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

A divisão sobre quem deve liderar o país é ainda mais profunda.

Muitos venezuelanos admiram Machado. Em Caracas, algumas pessoas entrevistadas pela BBC disseram que, ao contrário do que Trump afirma, ela tem forte apoio no país.

Elas apontam para sua vitória esmagadora nas primárias da oposição antes da eleição presidencial de 2024 e para sua capacidade de mobilizar milhares de venezuelanos para protestar quando Maduro declarou vitória na eleição — mesmo que apurações independentes tenham mostrado que o candidato apoiado por Machado, Edmundo González, havia vencido.

Esse grupo vê a presidente interina Delcy Rodríguez como uma das arquitetas do governo Maduro e de seus abusos.

Eles querem que Machado pressione Trump sobre como os EUA planejam "governar" a Venezuela e tente convencê-lo de que, embora sua promessa de "Tornar a Venezuela Grande Novamente" controlando a indústria petrolífera do país possa atrair alguns apoiadores do Make America Great Again (Torne a América Grande Novamente) nos EUA, ela pouco contribui para restaurar a democracia.

Outros, no entanto, concordam com Trump e acreditam que Rodríguez deveria supervisionar a transição.

Eles a veem como a melhor opção para evitar a instabilidade que poderia ser desencadeada por uma reação negativa dos apoiadores do governo atual e dos colectivos.

Eles não gostariam que a oposição assumisse o poder após uma operação militar dos EUA na qual Maduro foi preso e enviado a Nova York para responder por acusações de tráfico de drogas e porte de armas.

Atualmente, é improvável que o exército e os colectivos aceitem ordens da oposição.

Pelo menos no curto prazo, alguns acreditam que o status quo é mais seguro.

Um proeminente analista político venezuelano, que preferiu não ser identificado, disse à BBC que muitas pessoas acreditam que a capacidade de Trump de derrubar Maduro foi possibilitada em grande parte pelos esforços de Machado para enfraquecer o regime.

"Pessoalmente, duvido que Trump acredite plenamente no que disse. Se ele realmente achasse que Machado não tinha apoio na Venezuela, por que a receberia na Casa Branca?", questionou.

"Mais de 80% dos venezuelanos querem mudança política", acrescentou.

"Eles acreditam que a oposição é a única capaz de conduzir um processo de retorno à democracia na Venezuela. E a maioria desses venezuelanos que querem mudança não acredita que isso aconteceria sob o governo de Delcy Rodríguez."

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