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Irã acusa EUA de 'pirataria' após restrição à navegação no Estreito de Ormuz e fracasso de negociações

Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou que tentativa de limitar o tráfego marítimo na região "viola o direito internacional"

13 abr 2026 - 06h26
(atualizado às 07h12)
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Uma embarcação de patrulha da Guarda Costeira da Polícia Real de Omã monitora a área enquanto o tráfego diminui no Estreito de Ormuz, em meio ao conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, em Mascate, Omã, 12 de março de 2026.
Uma embarcação de patrulha da Guarda Costeira da Polícia Real de Omã monitora a área enquanto o tráfego diminui no Estreito de Ormuz, em meio ao conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, em Mascate, Omã, 12 de março de 2026.
Foto: REUTERS - Benoit Tessier / RFI

Os Estados Unidos anunciaram medidas de restrição à navegação comercial associada ao Irã no entorno do Estreito de Ormuz, nesta segunda-feira, 13, após o fracasso das negociações diplomáticas com Teerã no fim de semana, segundo autoridades. A iniciativa foi imediatamente contestada pelo governo iraniano, que a classificou como ilegal e equivalente a "pirataria", enquanto o risco de escalada militar e interrupção de fluxos energéticos globais provocou forte reação nos mercados internacionais.

O Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou que qualquer tentativa de limitar o tráfego marítimo na região "viola o direito internacional e constitui uma ameaça direta à liberdade de navegação". Em comunicado, o porta-voz da pasta, Nasser Kanaani, disse que "o Estreito de Ormuz não pode ser transformado em ferramenta de pressão política" e advertiu que o país responderá a qualquer ação que considere hostil.

Já a Guarda da Revolução Islâmica (IRGC) declarou que trata qualquer presença militar estrangeira no estreito como "potencial violação de segurança", acrescentando que "as forças iranianas estão preparadas para responder de forma imediata e proporcional a qualquer provocação". A declaração foi divulgada pela agência estatal Tasnim.

A natureza exata das medidas norte-americanas não foi totalmente detalhada por Washington até o momento, mas autoridades citadas sob condição de anonimato indicam que se trata de um regime de interdição e monitoramento ampliado de embarcações ligadas ao Irã, e não de um bloqueio naval formal no sentido jurídico clássico.

Ainda assim, a simples perspectiva de restrição no Estreito de Ormuz — por onde transita cerca de um quinto do petróleo consumido globalmente — foi suficiente para gerar forte tensão diplomática e volatilidade nos mercados.

O impasse ocorre após o colapso de negociações indiretas realizadas no fim de semana no Paquistão, que atuou como intermediário entre as partes, segundo fontes diplomáticas. De acordo com um responsável norte-americano, o Irã rejeitou exigências centrais de Washington que incluíam a suspensão completa do enriquecimento de urânio, o desmantelamento de instalações nucleares sensíveis e a entrega de estoques de urânio altamente enriquecido. Também teria havido impasse em relação ao apoio iraniano a grupos armados regionais, incluindo Hamas, Hezbollah e houthis.

"A posição iraniana não demonstrou flexibilidade suficiente em pontos centrais do programa nuclear", disse o funcionário norte-americano, também sob anonimato. "As exigências apresentadas eram necessárias para qualquer avanço significativo."

Autoridades iranianas, por sua vez, sustentam que houve avanços parciais em temas técnicos, mas afirmam que as condições impostas pelos Estados Unidos foram consideradas excessivas e incompatíveis com sua soberania energética e militar. A questão nuclear e o acesso irrestrito ao Estreito de Ormuz permanecem como os principais pontos de divergência.

A crise tem impacto imediato nos mercados globais. O petróleo Brent chegou a ultrapassar a marca de US$ 100 por barril em contratos futuros, impulsionado por preocupações com possíveis interrupções no fluxo de energia do Golfo. Bolsas europeias registraram queda generalizada, enquanto investidores migraram para ativos considerados mais seguros diante do aumento da aversão ao risco. Analistas apontam que o movimento reflete não apenas o risco geopolítico direto, mas também a possibilidade de pressão inflacionária global caso o preço da energia permaneça elevado.

"Qualquer ameaça ao Estreito de Ormuz tem impacto direto sobre preços de energia e inflação global", disse a analista de energia Amrita Sen, da consultoria Energy Aspects. "O mercado está precificando risco de interrupção, mesmo sem bloqueio efetivo."

Os rendimentos dos títulos soberanos na zona do euro subiram, refletindo expectativas de que choques energéticos possam dificultar o processo de desinflação e limitar a margem de manobra do Banco Central Europeu (BCE) em sua política monetária.

No mercado de metais, o alumínio atingiu o maior nível em quatro anos na London Metal Exchange, em meio a preocupações sobre cadeias de suprimento globais em caso de deterioração adicional da situação no Oriente Médio. Um economista do BCE, que não quis ser identificado, afirmou que "um choque prolongado no petróleo poderia alterar significativamente a trajetória esperada de inflação".

Reações na Europa e no mundo

No plano diplomático, governos europeus adotaram tom de cautela. No campo político, o primeiro-ministro britânico Keir Starmer afirmou em comunicado divulgado por Downing Street que "a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz é essencial para a estabilidade econômica global" e que o Reino Unido "não apoia qualquer tentativa de bloqueio da rota marítima". Starmer acrescentou que Londres "não pretende se envolver militarmente na escalada em curso".

Na Alemanha, o chanceler Friedrich Merz disse que "as consequências desta crise serão sentidas por muito tempo na economia europeia e na estabilidade internacional", segundo comunicado do gabinete do chanceler. Ele acrescentou que Berlim "apoia esforços diplomáticos para evitar uma nova escalada militar na região".

A China, por meio do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Guo Jiakun, pediu "contenção de todas as partes e respeito à liberdade de navegação no Estreito de Ormuz". Em coletiva de imprensa, afirmou que "manter esta rota aberta e segura é de interesse comum da comunidade internacional e da estabilidade econômica global".

Analistas de segurança marítima observam que, independentemente da ausência de um bloqueio formal declarado, o aumento da presença militar e da retórica agressiva na região já cria um cenário de risco operacional elevado para embarcações comerciais. Incidentes anteriores no Golfo demonstram que mesmo confrontos limitados podem gerar efeitos desproporcionais sobre seguros marítimos, custos de frete e fluxos energéticos.

No campo político, a ausência de sinais claros de convergência entre Washington e Teerã reduz as expectativas de retomada imediata das negociações. O presidente norte-americano, Donald Trump, afirmou que, caso o Irã não retorne à mesa de negociações, "isso não seria um problema", sugerindo baixa disposição para concessões no curto prazo.

Diante desse cenário, diplomatas e analistas apontam para um risco crescente de que a crise ultrapasse o nível diplomático e econômico e passe a envolver incidentes de segurança no mar, com potencial de rápida escalada regional. A combinação de incerteza jurídica sobre as medidas norte-americanas, respostas militares condicionais do Irã e sensibilidade extrema do mercado energético mantém o Estreito de Ormuz como o principal ponto de instabilidade geopolítica global no momento.

Com AFP

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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