Keiko Fujimori fala em vitória contra 'inimigo de esquerda' no 1° turno da eleição no Peru
A candidata da direita à presidência do Peru, Keiko Fujimori, afirmou nesta segunda-feira (11) ter obtido uma "vitória sobre o inimigo de esquerda", após a divulgação dos primeiros resultados do pleito, que a colocam em posição favorável para avançar ao segundo turno de uma eleição marcada por falhas logísticas e acusações de fraude.
Longe dos 50% necessários para vencer no primeiro turno, a filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), de 50 anos, aparece como principal nome na disputa para o segundo turno previsto para 7 de junho, possivelmente contra o ultraconservador Rafael López Aliaga, em uma corrida apertada pela segunda vaga.
A apuração oficial avança lentamente, enquanto atrasos na distribuição do material eleitoral impediram a abertura de cerca de quinze locais de votação no domingo. Dezenas de milhares de eleitores ficaram sem votar. O Júri Nacional Eleitoral (JNE) anunciou o adiamento da abertura desses centros de votação para esta segunda-feira, entre 7h e 18h (horário local).
"Os resultados da contagem rápida são um sinal muito positivo para o nosso país, porque (...) o inimigo é a esquerda", disse Keiko Fujimori após a divulgação de uma contagem rápida do instituto Datum. Segundo esses dados, ela obteve 16,8% dos votos, contra 12,9% de Rafael López Aliaga, seguido pelo candidato de esquerda Hernando Nieto (11,6%) e pelo centrista Ricardo Belmont (10,1%).
Keiko Fujimori e outros 45 acusados de lavagem de dinheiro, de financiamento ilegal de campanha e outros crimes de corrupção foram investigados pela Lava Jato peruana que, ao contrário da matriz brasileira, continua ativa no Peru. Keiko Fujimori, três vezes candidata à Presidência, foi acusada de receber fundos ilegais da construtora brasileira Odebrecht, além de outras empresas peruanas. Só da Odebrecht, o partido Força Popular teria recebido US$ 17 milhões (cerca de R$ 96 milhões). Esse dinheiro ilegal teria sido destinado para as campanhas eleitorais de 2011 e de 2016, mas também para benefício da família Fujimori.
Pesquisas de boca de urna já haviam colocado Fujimori na liderança, seguida por vários candidatos em situação de empate técnico, incluindo o ex-prefeito de Lima, López Aliaga. Com 44% dos votos apurados oficialmente, Fujimori também aparece na frente.
O domingo de votação foi marcado por longas filas e eleitores impedidos de votar diante de locais fechados. "É uma vergonha, é uma tristeza imensa ver que isso acontece aqui", disse a eleitora Margarita Tumba, de 74 anos, em Lima. A polícia e investigadores foram enviados à sede do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE) para apurar falhas na organização da votação.
Acusações de fraude
Rafael López Aliaga, apelidado de "Porky", afirmou em coletiva de imprensa que houve uma "fraude eleitoral gravíssima". O chefe da ONPE, Piero Corvetto, rejeitou as acusações e afirmou que "não há nenhuma possibilidade de fraude", garantindo que os resultados "refletirão fielmente a vontade popular".
O contexto eleitoral é marcado por um número recorde de 35 candidatos e por uma crescente crise de segurança pública e descrédito da classe política no país. "Que tudo isso acabe. Vivemos em um país do narcotráfico (...) e estamos dominados pela criminalidade", disse a comerciante Elena Flores, de 50 anos, em Lima.
Segundo dados da polícia, os homicídios mais que dobraram desde 2018, chegando a cerca de 2.600 por ano, enquanto denúncias de extorsão aumentaram oito vezes. Diante do avanço da criminalidade, candidatos apresentaram propostas duras, incluindo construção de presídios na selva e até restauração da pena de morte.
Keiko Fujimori afirmou, na véspera da votação, que pretende "restaurar a ordem" nos primeiros 100 dias de governo.
Mais de 27 milhões de eleitores peruanos foram convocados para eleger presidente e parlamentares em votação obrigatória. O pleito marca ainda o retorno de um Parlamento bicameral, o primeiro desde 1990.
O Peru vive uma instabilidade política prolongada, tendo tido oito presidentes desde 2016, metade deles afastados pelo Congresso. A classe política é marcada por escândalos de corrupção, e quatro ex-presidentes estão atualmente presos.
O presidente interino de esquerda, José María Balcázar, não pôde concorrer. O sucessor eleito deve assumir em 28 de julho. Apesar do cenário político instável, a economia peruana segue relativamente estável, sustentada por baixa inflação — entre as mais baixas da América Latina — e exportações minerais robustas.
Com AFP