Triunfo de aliado de Trump no Texas aprofunda racha republicano e fortalece agenda ultraconservadora
A vitória de Ken Paxton na primária republicana do Texas, revelada nesta quarta‑feira (27), confirma a força de Donald Trump sobre o partido ao impor candidatos alinhados ao movimento MAGA. Paxton derrotou o senador John Cornyn, nome tradicional da legenda, apesar de escândalos recentes e da resistência de líderes republicanos. O resultado expõe o avanço da ala ultraconservadora e o dilema do partido: candidatos apoiados por Trump vencem primárias, mas podem ter desempenho fraco nas eleições.
Carrie Nooten, correspondente da RFI em Nova York, em agências
É uma pequena primária republicana de aparência local, mas que simboliza disputas nacionais e mostra como o presidente Donald Trump vem abandonando, pouco a pouco, os republicanos tradicionais que o levaram ao poder, mas que têm se rebelado recentemente, especialmente sobre o financiamento do ICE ou o apoio à guerra no Irã.
A vitória de Ken Paxton na primária para o Senado do Texas reforça a capacidade de Donald Trump de moldar o futuro do Partido Republicano ao impor candidatos alinhados ao seu projeto político. O procurador‑geral texano, figura central do movimento MAGA (Make America Great Again) e aliado de longa data do presidente, derrotou com folga o senador John Cornyn, um dos nomes mais tradicionais da legenda e que ocupava o cargo havia quatro mandatos.
Embora se trate de uma disputa estadual, o resultado tem implicações nacionais: revela o avanço de uma ala ultraconservadora que desafia o establishment republicano e redefine as fronteiras internas do partido.
A primária expôs a estratégia de Trump de substituir quadros tradicionais por aliados mais leais, mesmo quando esses nomes enfrentam resistências internas ou carregam histórico de controvérsias.
Paxton, que há dois anos esteve envolvido em escândalos que ameaçaram sua carreira política, conseguiu capitalizar o apoio explícito de Trump, que mobilizou sua base para derrotar Cornyn.
Embora popular entre republicanos moderados, John Cornyn vinha sendo criticado por setores mais radicais por divergências recentes com o presidente, especialmente em temas como financiamento de agências federais e posicionamento sobre conflitos internacionais.
Trump tenta enfraquecer republicanos "pouco confiáveis"
O movimento de Trump no Texas não é isolado. Nos últimos meses, o presidente tem atuado para enfraquecer republicanos que considera pouco confiáveis, repetindo a fórmula usada recentemente na Louisiana, onde também ajudou a derrubar um senador tradicional.
As vitórias sucessivas ampliam sua influência num momento em que o partido se prepara para eleições legislativas decisivas, que definirão a correlação de forças no Congresso e o alcance do segundo mandato de Trump. Mesmo com sinais de desgaste no Capitólio, onde enfrenta críticas por decisões controversas, o ex‑presidente mantém forte controle sobre as bases conservadoras.
A vitória de Paxton, 63, aprofunda o desconforto entre senadores republicanos que temem que a intervenção de Trump nas primárias fragilize o partido nas eleições gerais. Muitos pediram que o presidente apoiasse Cornyn, considerado mais competitivo contra o candidato democrata em novembro. O líder da maioria no Senado, John Thune, alertou que atacar senadores em exercício pode ter consequências negativas, dificultando a implementação da agenda presidencial e abrindo espaço para derrotas em estados decisivos.
O dilema republicano é antigo, mas ganha intensidade com o avanço de candidatos ultraconservadores. O apoio de Trump costuma ser decisivo nas primárias, mas esses nomes nem sempre têm bom desempenho nas eleições gerais, quando precisam conquistar eleitores independentes e moderados. Cornyn, em entrevista à Fox News, afirmou que Paxton será "um peso" para o partido, argumentando que teria melhores condições de enfrentar o democrata James Talarico em novembro. Segundo ele, mesmo que Paxton vença, sua margem reduzida pode prejudicar outras disputas no estado.
Talarico, pastor e deputado estadual, ganhou notoriedade por confrontar conservadores em entrevistas e debates, defendendo que a interpretação da Bíblia não deve ser monopolizada pela direita religiosa. Após a confirmação da vitória de Paxton, ele convidou os apoiadores de Cornyn a se unirem à sua campanha, afirmando que há espaço para republicanos moderados em sua plataforma. O gesto indica que os democratas tentarão explorar a divisão interna do Partido Republicano para ampliar suas chances num estado historicamente conservador, mas que tem mostrado mudanças demográficas e políticas nos últimos anos.
A disputa no Texas também reflete o ambiente nacional de polarização e a transformação do Partido Republicano desde a ascensão de Trump pela primeira vez, em 2016. A antiga coalizão formada por conservadores tradicionais, empresários e moderados vem cedendo espaço a uma base mais radicalizada, que prioriza lealdade pessoal ao ex‑presidente e rejeita compromissos com instituições federais.
O processo tem provocado tensões internas e redefinido a dinâmica legislativa em Washington, onde senadores e deputados enfrentam pressão constante para se alinhar ao movimento MAGA.
Além disso, a vitória de Paxton ocorre num momento em que Trump enfrenta críticas por decisões recentes, como o projeto de construção de uma sala de baile na Casa Branca e a gestão de fundos destinados a aliados políticos. A guerra no Oriente Médio também tem gerado frustração entre parlamentares republicanos, que cobram maior clareza sobre os objetivos da política externa. Mesmo assim, o presidente mantém apoio sólido entre eleitores conservadores, que veem suas intervenções nas primárias como forma de "purificar" o partido e afastar figuras consideradas pouco leais.
O caso texano evidencia como Trump continua sendo o principal árbitro das carreiras republicanas. Candidatos que recebem seu apoio tendem a crescer rapidamente nas pesquisas, enquanto aqueles que o desafiam enfrentam risco de isolamento. Essa dinâmica cria um ambiente de incerteza para republicanos tradicionais, que precisam equilibrar a necessidade de manter apoio local com o temor de retaliação do ex‑presidente.
A tendência, segundo analistas, é que o partido continue se movendo para a direita, impulsionado por uma base mobilizada e por lideranças que veem vantagem eleitoral em adotar posições mais duras.
A primária no Texas não é apenas uma disputa estadual, mas um termômetro do futuro do Partido Republicano. A vitória de Paxton reforça Trump e sinaliza que o movimento MAGA continuará moldando candidaturas e estratégias eleitorais.
Para os democratas, o cenário abre oportunidades, mas também desafios, já que enfrentar candidatos ultraconservadores pode mobilizar ainda mais a base republicana. O resultado final dependerá da capacidade de cada partido de construir alianças e dialogar com eleitores que se mostram cada vez mais polarizados.
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