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Bolívia entra na quarta semana de protestos contra o governo, apesar de concessões do presidente

Uma grande marcha na capital da Bolívia terminou em confrontos com a polícia na segunda-feira (25). A mobilização continua no país mesmo após o presidente Rodrigo Paz anunciar a redução de seu salário pela metade na tentativa de acalmar a revolta.

26 mai 2026 - 12h06
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Com informações de Gabriela Orozco, correspondente da RFI em La Paz, e da AFP

A capital La Paz voltou a ser palco de um grande protesto contra o governo, mas também de confrontos. De um lado, camponeses, mineiros e operários e, de outro, a polícia. As violências foram registradas apesar de uma iniciativa de Paz de apaziguar os ânimos. 

Na segunda-feira (25), durante a comemoração do aniversário de 217 anos da Revolução de Chuquisaca — considerado o primeiro levante do continente americano contra o domínio colonial espanhol — o presidente boliviano fez uma autocrítica. "Digo isso com a maior humildade: talvez tenhamos nos descuidado em compreender que deveria ser um governo amplo. Não tenho medo de dizer que nos faltou espaço e de incluir essa diferença na unidade da pátria e do governo", afirmou.

Paz também anunciou que ele e seus ministros reduzirão seus salários em 50% e que impulsionarão uma lei de isenção de impostos para os setores mais afetados pela crise econômica. A medida é quase simbólica: a renda mensal do chefe de Estado é de cerca de 24.000 bolivianos (R$ 17.262) e sua redução não está entre as reivindicações dos manifestantes.

O presidente boliviano ainda renovou seu chamado ao diálogo com as organizações que lideram os protestos, mas descartou conversar com quem recorre à violência. No entanto, aqueles que estão nas ruas acreditam que a medida é insuficiente.

"Vimos que estão reduzindo salários, mas o povo já não confia mais. O único pedido do povo é a renúncia", explicou um manifestante à RFI.

Confrontos em La Paz

O presidente de centro-direita Rodrigo Paz, que assumiu o poder há apenas seis meses, enfrenta uma onda de manifestações que exigem sua renúncia diante da crise econômica que o país andino enfrenta, a maior das últimas quatro décadas. Os manifestantes rejeitam sua política econômica liberal, exigem aumentos salariais e o culpam pela distribuição de gasolina de má qualidade que danificou milhares de veículos.

Na segunda-feira, depois de chegar ao centro de La Paz, grupos tentaram invadir a praça Murillo, onde o líder boliviano tem seus escritórios e cujos acessos estavam cercados por centenas de policiais. Os participantes do ato foram repelidos com gás lacrimogêneo.

Muitos manifestantes responderam atirando pedras, paus e fogos de artifício contra as forças de segurança. Cerca de dez pessoas foram detidas. 

"Assassinos!", gritavam, para denunciar a morte de uma pessoa em outros confrontos com policiais e militares no sábado. Embora tenha negado inicialmente, o governo confirmou a tragédia ocorrida no fim de semana.

Evo Morales é acusado de impulsionar protestos

Paz e seus ministros acusam o ex-presidente Evo Morales (2006-2019), foragido por um caso de suposta exploração de uma menor, de estar por trás dos protestos. O líder cocaleiro desafiou o governo a convocar novas eleições em 90 dias.

O governo de centro-direita denunciou que essas mobilizações buscam "alterar a ordem democrática". Os Estados Unidos e outros países da América Latina manifestaram seu apoio ao presidente boliviano.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antigo aliado do ex-presidente socialista Evo Morales, falou por telefone com Paz para expressar seu apoio à democracia boliviana e ao diálogo. De acordo com um comunicado do governo brasileiro, "Lula determinou o envio de ajuda humanitária à Bolívia".  

A escassez de alimentos, remédios e gasolina afeta principalmente a capital La Paz e sua vizinha El Alto. Em outras cidades, como Oruro (oeste), Potosí (sudoeste) e Cochabamba (centro), o problema é menor.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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