França mantém oposição a acordo com Mercosul, mas admite isolamento
Representantes dos Estados-membros devem votar texto nesta sexta-feira
A França deve manter sua oposição ao acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia na votação prevista para esta sexta-feira (9).
Embaixadores dos Estados-membros da UE se reunirão no Comitê de Representantes Permanentes (Coreper) para deliberar sobre o tratado, que era para ter sido votado e assinado em dezembro passado, mas acabou adiado devido à resistência de França e Itália.
"O voto francês deve ser 'não', obviamente. É a palavra dada pelo governo há semanas e que não mudou", disse nesta quinta (8) o ministro de Relações com o Parlamento de Paris, Laurent Panifous, em entrevista a uma rádio local. Ele, no entanto, reconheceu que a França deve ficar "isolada".
"Mas, para mim, o que conta é que a palavra do governo francês seja ouvida na Europa e que os agricultores e pecuaristas saibam que o governo os apoia", acrescentou o ministro, em meio a novos protestos com tratores em Paris contra o acordo, inclusive em monumentos como a Torre Eiffel e o Arco do Triunfo.
A França impõe três condições para aprovar o tratado com o Mercosul: salvaguardas contra flutuações excessivas nos preços e nas importações de produtos agropecuários sul-americanos; a proibição de mercadorias feitas com pesticidas e aditivos vetados na União Europeia; e a possibilidade de efetuar controles fitossanitários diretamente nos países exportadores.
Para receber o aval da UE, o texto precisa de uma maioria qualificada de pelo menos 15 dos 27 Estados-membros, desde que representem no mínimo 65% da população. Além da França, Hungria e Polônia também devem ficar contra o acordo, e as atenções se voltam novamente para a Itália, que será decisiva.
Em dezembro, Roma travou a votação ao exigir garantias de reciprocidade em regras fitossanitárias, porém a premiê Giorgia Meloni assegurou ao presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que é favorável à parceria e que precisava de apenas algumas semanas para convencer os agricultores italianos.
"Falta o último passo. Nossos diplomatas estão verificando se as garantias obtidas hoje são respaldadas por elementos técnicos e políticos. Faremos um balanço da situação na sexta-feira, no Coreper", disse o ministro da Agricultura da Itália, Francesco Lollobrigida, ao jornal Il Sole 24 Ore.
"É necessário garantir que os produtos agrícolas de países terceiros importados pela Europa cumpram as mesmas regras de segurança alimentar impostas aos produtores da UE", acrescentou.
Uma eventual aprovação dos embaixadores no Coreper permitiria à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, viajar ao Paraguai em 12 de janeiro para assinar o acordo, dando fim a mais de 25 anos de negociações entre os dois blocos.