'Vamos bloquear tudo': o que esperar do movimento que promete paralisar a França neste 10 de setembro
Protestos nas ruas, perturbações nos transportes, fechamento de escolas: nesta quarta-feira (10), a França será palco da primeira mobilização social deste início de segundo semestre contra o governo. O movimento reforça o clima de insatisfação no país dois dias após a queda do primeiro-ministro François Bayrou e a nomeação de um político da direita, Sébastien Lecornu, para o cargo.
Protestos nas ruas, perturbações nos transportes, fechamento de escolas: nesta quarta-feira (10), a França será palco da primeira mobilização social deste início de segundo semestre contra o governo. O movimento reforça o clima de insatisfação no país dois dias após a queda do primeiro-ministro François Bayrou e a nomeação de um político da direita, Sébastien Lecornu, para o cargo.
Convocado há várias semanas por meio das redes sociais, as autoridades francesas têm dificuldades de prever a dimensão do movimento batizado "Vamos bloquear tudo" ("Bloquons tout", em francês). A poucas horas do início da mobilização, os serviços de inteligência do país seguem com atenção as assembleias cidadãs que tentam organizar os protestos e o engajamento das publicações nas redes sociais para se preparar para os atos desta quarta-feira.
Segundo as estimativas do Ministério do Interior da França, a participação da população no movimento será "moderada", com a previsão de até 100 mil pessoas nas ruas. Entre os principais atos aguardados estão operações para a abertura de pedágios, bloqueios de rotatórias, estradas, refinarias e depósitos de petróleo, paralisação nos transportes públicos e até possíveis depredações de caixas eletrônicos.
Se o tamanho da mobilização é imprevisível, a orientação política das manifestações não deixa dúvidas. Sem o envolvimento de lideranças e partidos políticos em sua concepção, a esquerda radical se apropriou nos últimos dias da mobilização.
Além do comando das assembleias cidadãs pelas legendas França Insubmissa e Novo Partido Anticapitalista, os serviços de inteligência também identificaram o engajamento de militantes sindicais, ativistas pró-Palestina e membros de movimentos ambientalistas ultraprogressistas como Extinction Rebellion e Soulèvements de la Terre. A predisposição para protestar também é mais intensa nos bastiões da esquerda e da extrema esquerda da França: além de Paris, as cidades de Nantes, Rennes, Toulouse, Lyon e Bordeaux.
Transportes e educação
Há previsão de perturbações na circulação de trens que fazem a ligação entre Paris e algumas cidades, como Clermont-Ferrand, Limoges, Toulouse, além da linha Bordeaux-Marselha e nos trens noturnos. Na capital francesa e arredores, a circulação ferroviária também será afetada, inclusive o RER B, o trem que faz a ligação entre Paris e os aeroportos Charles de Gaulle e Orly. Já algumas linhas de metrô e de ônibus terão uma leve diminuição no tráfego, já que apenas 1.400 trabalhadores de um total de 46 mil preveem aderir ao movimento.
O Ministério do Transporte também prevê "ações radicais", sobretudo nos arredores da Gare du Nord, em Paris, a estação ferroviária mais frequentada da Europa em número de passageiros. "Estaremos particularmente vigilantes, seja nas vias férreas, nas estradas ou nas rodovias, para evitar uma série de bloqueios", prometeu o ministro francês dos Transportes, Philippe Tabarot.
Em entrevista ao canal BFMTV, o secretário de Segurança Pública de Paris, Laurent Nuñez, disse esperar "ações bastante duras" e bloqueios, que podem atingir o anel viário parisiense e até mesmo os aeroportos. A Direção Geral da Aviação Civil prevê perturbações e atrasos "em todos os aeroportos franceses".
Nas estradas e rodovias, a partir da madrugada de quarta-feira, militantes preveem bloquear diversos pontos que ligam Paris às cidades da periferia. No oeste da França, ações similares são esperadas em rodovias de Rennes, Nantes, Brest e Caen.
No funcionalismo público, a maior mobilização deverá ocorrer no setor da Educação, no qual as centrais sindicais pedem que trabalhadores "façam greve neste 10 de setembro e participem massivamente de todas as iniciativas". Mesmo tom do lado dos sindicatos estudantis, que denunciam um aumento da precariedade de universitários desde a chegada do presidente Emmanuel Macron ao poder.
80 mil membros das forças de segurança
Apesar de o ministro francês do Interior, Bruno Retailleau, não acreditar em um "imenso movimento", ele teme "ações espetaculares" neste 10 de setembro. Por isso, deu ordem para que qualquer tentativa de bloqueio de infraestruturas essenciais seja impedida. Cerca de 80 mil membros das forças de segurança estão mobilizados para o dia de protesto. Segundo ele, intervenções ocorrerão em todos os locais visados pelas manifestações, como estações de trem, portos, aeroportos, refinarias e depósitos de petróleo, centrais elétricas e de tratamento de água.
Laurent Nuñez diz temer "atos de sabotagem", principalmente nos transportes públicos. "Esperamos ações de impacto (...) e estamos nos preparando para responder a elas, inclusive durante a noite", reiterou o secretário de Segurança Pública de Paris.
Já Sophie Binet, secretária-geral da CGT, a maior central sindical da França, afirma que o governo tentará tornar o movimento "impopular" e "espalhar o medo". "É o discurso que [o ministro do Interior, Bruno] Retailleau tentará promover, fazendo com que aqueles que se mobilizam pareçam pessoas violentas", afirmou, em entrevista ao canal France 3.
(RFI com agências)