Rabino de Roma vê novo papa aberto para o diálogo entre católicos e judeus
Em entrevista ao Terra, Riccardo Di Segni afirmou que, a despeito das diferenças inerentes às religiões, a escolha de Bergoglio para o Trono de São Pedro renova o diálogo entre o Catolicismo e o Judaísmo
Um dos primeiros gestos do papa Francisco foi dirigido à comunidade judaica de Roma. Ainda no dia 13 de março, logo após ser apresentado como o novo líder da Igreja Católica, o Pontífice enviou uma carta ao rabino chefe da capital italiana, o doutor Riccardo Di Segni, um homem cordial e conhecido por não ficar calado na hora de responder as opiniões nem sempre tolerantes das lideranças católicas.
Em sua carta, Francisco convidava Di Segni para participar da missa de inauguração de seu pontificado. O novo papa também dizia esperar “poder contribuir para o progresso que as relações entre judeus e católicos conheceram a partir do Concílio Vaticano II.”
As palavras dirigidas a Di Segni e a realização de uma audiência com representantes de outras religiões logo após a sua entronização mostram uma abertura clara de Jorge Mario Bergoglio em relação ao diálogo inter-religioso. E a citação ao Concílio Vaticano II foi vista pelo rabino como um bom sinal para as relações, muitas vezes conturbadas, entre judeus e católicos.
Di Signe recebeu a reportagem do Terra na Sinagoga de Roma, onde falou sobre o estado do diálogo inter-religioso e deu suas impressões sobre o novo papa. O prédio alto e extremamente protegido fica a menos de três quilômetros do Vaticano, centro do poder político e espiritual da Igreja Católica Apostólica Romana.
Terra - O que o senhor achou da escolha de Bergoglio como pontífice?
Riccardo Di Segni - O novo papa mostra-se aberto ao diálogo com o mundo judaico. Além disso, recebemos testemunhos positivos vindos da Argentina sobre a relação que ele tem com o judaísmo.
Terra - Como o senhor recebeu a carta que Francisco enviou-lhe?
Di Segni - Foi um prazer receber, apenas algumas horas após a eleição, uma carta do papa Francisco. É algo que já tinha sido feito por Bento XVI e repetir esse gesto é um sinal claro de continuidade. A carta faz uma clara referência ao Concílio Vaticano II como base para o diálogo católico-judaico, e isso é positivo. Agora, vamos ver que medidas podem ser tomadas por ambos os lados para melhorarmos nossa relação.
Terra - Como anda o diálogo inter-religioso entre católicos e judeus?
Di Segni - É uma longa história, com muitas coisas interessantes. Judeus estão espalhados ideológica e religiosamente. Não existe uma única linha (de pensamento) sobre isso. Existem grupos especializados de pessoas envolvidas nesse diálogo e uma população mais ampla, que vê esse tipo de relação com base nos resultados. Se os resultados são boas relações, amizade e respeito mútuo, são bons resultados. Mas existem incidentes que são inevitáveis.
Terra - Mas existe um problema neste momento?
Di Segni - O diálogo entre as duas religiões é sempre complicado. Ele possui tantos argumentos teoricamente possíveis de serem discutidos, alguns inapropriados para serem discutidos, outros críticos e outros, tranquilos. É uma agenda complicada, que vai sendo reconstruída dia a dia.
Terra - Por que essa agenda é complicada?
Di Segni - Porque temos visões diferentes sobre alguns argumentos. Faço uma lista: a interpretação da história, do Holocausto, do papel do cristianismo no antissemitismo e, especialmente, do papel de Pio XII. As diferenças doutrinais, o sentido do diálogo. Para que serve o diálogo? Para respeitar-se ou para convencer o outro da bondade de suas próprias posições?
Terra - Como era a sua relação com Bento XVI?
Di Segni - Era uma relação muito interessante. Acima de tudo, foi progressivamente boa do ponto de vista humano - o conheci ainda como Cardeal.
Terra - Como você recebeu a notícia da renúncia do papa?
Di Segni - Foi uma surpresa. E, com certeza, foi também uma tristeza. Pois, apesar de todas as dificuldades, nós conseguimos estabelecer uma boa relação.
Terra -O senhor fala, no entanto, de um profundo problema ideológico no diálogo inter-religioso. Que problema é esse?
Di Segni - Temos vários problemas ideológicos. Antes de mais nada, somos duas religiões diferentes. Apesar do cristianismo ter emanado da mesma raiz, é diferente. Um dos problemas é saber se podemos discutir teologia. A resposta é que o melhor é não discutir teologia, pois não podemos colocar em discussão nossos fundamentos religiosos. O segundo ponto é como interpretamos religiosamente o papel do outros. O que fizeram os judeus na história, segundo os cristão? O que fizeram os cristão na história, segundo os judeus? Isso é algo muito interessante. No fim das contas, para que serve o diálogo?
Terra - Mas, segundo o senhor mesmo disse, esse problema é a primeira coisa a ser resolvida para permitir um possível diálogo.
Di Segni - Acho que a pergunta deveria ser: para um cristão, um ser humano que não acredita em Cristo pode salvar-se?