Dividida pela questão do casamento gay e do aborto, chocada pelos escâdalos de padres pedófilos, a comunidade católica dos Estados Unidos, a quarta maior do mundo, vê a chegada de um novo papa como meio de "começar do zero".
Os católicos do país, contudo, são unânimes em dizer que o próximo papa não deve ser americano.
Imagem de 2009 mostra Timothy Dolan em um evento em Nova York
Foto: AFP
Pouco depois do anúncio da renúncia de Bento XVI, o presidente da conferência americana de bispos, cardeal Timothy Dolan - cujo nome é citado para sucessão, assim como Charles Chaput, arcebispo da Filadélfia - pediu "ao Espírito Santo que dê um sucessor digno de superar os desafios do mundo contemporâneo".
A fala do religioso é vaga o suficiente para contentar os 35 milhões de católicos - quase um habitante em cada quatro e maior congregação religiosa do país -, divididos pelas questões sociais e pelas prioridades da igreja.
"A eleição de um novo papa deve ser a oportunidade de recomeçar do zero", disse à AFP James Salt, diretor da associação de caráter progressista Catholics United.
"Muitos bispos americanos ficaram polarizados por questões como aborto ou casamento gay, enquanto as prioridades são a crise econômica ou o aquecimento global", disse Salt.
Há pouco mais de um ano os bispos americanos lideram a contestação da reforma de saúde promovida pelo presidente Barack Obama, que incluiu contraceptivos na cobertura do plano de saúde. Eles também estão na linha de frente contra o casamento gay e o aborto.
O clero também foi acusado e condenado por ter acobertado padres pedófilos e resistido para que eles fosssem levados à justiça.
"Nós torcemos por alguém que tenha a experiência de uma paróquia, que conheça as alegrias e as lutas do católico comum", disse a irmã Florence Deacon, presidente de uma associação de religiosas que recentemente entrou em conflito com o Vaticano, que as repreendeu por serem muito liberais.
Pesquisas de opinião revelam a tendência progressista da comunidade católica dos EUA, com 56% de fiéis a favor do casamento gay, 53% a favor de que o aborto continue legalizado e oito em cada dez católicos a favor da contracepção.
Mas para a militante contra o aborto Carol Anderson, moradora de Washington, alguns cardeais são muito progressistas e ela vê a eleição se aproximar "com apreensão" por conta "desta época de ideias liberais".
"As divisões políticas no país se refletem cada vez mais nos fiéis", nota Stephen Schneck, diretor de um instituto de pesquisas na Universidade Católica da América. "Por isso, os católicos gostariam de ver um papa que não acentue ainda mais as divisões, mas que sirva de mediador".
Entre os papáveis europeus, o cardeal italiano Angelo Scola, 71 anos, é visto como o preferido do papa Bento XVI. O sinal teria sido dado em 2011, quando Joseph Ratzinger promoveu Scola para o comando da diocese de Milão, uma das mais influentes da igreja católica o cargo já alçou a papa dois arcebispos no século XX, Paulo VI e Pio XI.
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Odilo Pedro Scherer, 63 anos, indicou que, para a imprensa estrangeira, ele está entre os mais cotados para suceder o papa Bento XVI. Dom Odilo nasceu em uma família de 13 filhos, de pais descendentes de alemães radicados no interior do Rio Grande do Sul.
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O cardeal nigeriano Francis Arinze, 80 anos, é prefeito regional emérito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Também visto como um conservador em assuntos como a homossexualidade, Arinze já entrou nas apostas dos "papáveis" no Conclave de 2005, quando Bento XVI foi escolhido como papa. O clérigo nigeriano, que se converteu ao catolicismo aos nove anos, se formou doutor em Teologia em Roma, foi ordenado sacerdote em 1958 e bispo em 1965, sendo que, em 1985, João Paulo II lhe designou como cardeal.
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Jorge Bergoglio, cardeal da Argentina, tem 77 anos. Sua idade, um pouco mais velho que seus adversários, pesa contra no momento em que a Igreja busca por um papa mais jovem. Bergoglio tem origem jesuíta e ficou conhecido por haver sido responsável na América Latina pela redação do documento sobre o segredo de Aparecida.
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O cardeal Tarcisio Pietro Bertone, secretário de Estado do Vaticano, é o atual camerlengo, como se denomina o administrador de bens e direitos temporários da Santa Sé até a escolha do sucessor de Bento XVI. Bertone nasceu na cidade turinesa de Romano Canavese, em 2 de dezembro de 1934. Membro da Sociedade de São Francisco de Sales São João Bosco (salesianos), estudou no Oratório di Valdocco e no noviciado salesiano de Monte Oliveto, em Pinerolo (Itália).
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João Braz de Aviz, atual prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, mora em Roma, e será um dos cinco cardeais brasileiros que vão participar do Conclave que elegerá o sucessor do papa Bento XVI.
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O cardeal Timothy Dolan, 63 anos, arcebispo de Nova York, está na lista dos mais cotados. Entre os 117 cardeais que votam no Conclave, Dolan se destaca pelo bom humor: está sempre sorrindo e não perde a oportunidade de fazer piadas. Caso seja eleito, sua personalidade pode ajudar a Igreja Católica a reconstruir uma imagem danificada por escândalos sexuais e divisões internas.
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Aos 61 anos, o arcebispo de Budapeste, Peter Ergö, 60 anos, é um dos mais jovens cardeais do Vaticano, mas isso não o impede de defender um catolicismo mais conservador. Como presidente da Conferência Episcopal da Europa, Erdö prega que, apesar das pressões, a Igreja revitalize e dissemine os seus dogmas tradicionais.
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O cardeal dom Cláudio Hummes, de 78 anos, é um dos brasileiros com maior trânsito na burocracia vaticana. Ex-arcebispo de São Paulo, foi prefeito para a Congregação para o Clero (espécie de ministro papal) até 2011. Desde então, é membro da Pontifícia Comissão para a América Latina.
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John Onaiyekan, cardeal da Nigéria, foi ordenado em 3 de agosto de 1969. Professor de Sagrada Escritura e francês no Colégio São Kizito, Isanlu em 1969, reitor do Seminário Menor São Clemente de Lokoja, em 1971, e estudou em Roma a partir desse ano.
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O cardeal canadense Marc Ouellet já chegou a afirmar que virar Papa "seria um pesadelo", mas este defensor ferrenho da ortodoxia, que viveu muitos anos na Colômbia e comanda a Pontifícia Comissão para a América Latina, é considerado um dos favoritos para suceder Bento XVI. Ouellet, um teólogo de prestígio, de 68 anos, provocou fortes polêmicas em Quebec, a província francófona do Canadá, ao defender nos anos 2000 as posições do Vaticano contra o casamento gay e contra o aborto, inclusive nos casos de estupro, e criticar a "decadência" de uma sociedade na qual duas em cada três crianças nascem fora do matrimônio.
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Oscar Andres Rodriguez, cardeal-arcebispo de Tegucigalpa desde 8 de janeiro de 1993, recebeu a ordenação presbiteral no dia 28 de junho de 1970, pelas mãos de Dom Girolamo Prigione. Foi ordenado bispo no dia 8 de dezembro de 1978 e se tornou cardeal no consistório de 21 de fevereiro de 2001, presidido por João Paulo II, recebendo o título de Cardeal-presbítero de Santa Maria da Esperança. Apoiou o Golpe de Estado em Honduras em 28 de junho de 2009. Desde 2007 é Presidente da Cáritas Internacional, sendo reeleito em maio de 2011 para o período que se concluirá em 2015.
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O cardeal-arcebispo austríaco Christoph Schönborn, ao contrário, tem uma idade considerada ideal: 67 anos, que lhe conferem ao mesmo tempo experiência e longos anos de pontificado pela frente. A dedicação profunda aos estudos também o aproxima do atual papa, chamado de "pai intelectual" do austríaco.
Foto: AFP
O cardeal filipino Luis Antonio Tagle, de 55 anos, o mais jovem dos cardeais cotados para suceder Bento XVI, é considerado um progressista por sua pregação por uma Igreja humilde, em um país de grande fervor religioso e de muita pobreza. Especialista do Concílio Vaticano II e teólogo brilhante formado nas Filipinas e nos Estados Unidos, Luis Antonio "Chito" Tagle tem trinta anos a menos que Bento XVI, o Papa que renunciou aos 85 anos por falta de forças.
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Peter Kodwao Appiah Turkson, cardeal de Gana, talvez o mais preparado dos papáveis africanos, foi designado arcebispo de Cape Coast em 1992 pelo papa João Paulo II, quem lhe ordenou cardeal em 2003. Turkson é um especialista na Bíblia, já que estudou as Sagradas Escrituras no Instituto Pontifício Bíblico de Roma, onde se formou em 1980 e se tornou doutor nessa mesma matéria em 1992.
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O cardeal americano Sean O'Malley, com muita fama na internet, cumpriu uma importante tarefa há dez anos ao limpar a diocese de Boston, atingida por um escândalo de padres pedófilos. Conhecido por sua simplicidade, de acordo com a pregada por sua ordem - do padre Pierre da França -, este erudito de 68 anos e língua hispânica, de óculos e barba branca, retomou em 2003 a diocese onde eclodiu o primeiro escândalo com impacto internacional sobre abusos sexuais na Igreja Católica.
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Todos parecem, contudo, estar de acordo em um ponto: o próximo papa não deve ser americano.
Os Estados Unidos "têm o poder militar, o poder econômico. Um americano à frente da Igreja Católica não pareceria justo para muitas pessoas", acredita Stephanie Niedringhaus, da associação católica Network, que trabalha pela justiça social.
Nem mesmo o cardeal Dolan acredita na eleição de um americano. "Ainda não acabei de enviar os agradecimentos àqueles que me felicitaram quando fui nomeado cardeal ano passado", brincou o religioso em entrevista coletiva na segunda-feira.
<a data-cke-saved-href=" http://www.terra.com.br/noticias/infograficos/renuncia-papa/iframe.htm" href=" http://www.terra.com.br/noticias/infograficos/renuncia-papa/iframe.htm">veja o infográfico</a>
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