O papa Bento XVI carrega a joia em ouro maciço desde 2005
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O papa Bento XVI abriu as portas do Vaticano aos tradicionalistas anglicanos em prol da unidade dos cristãos, mas durante seu pontificado não pôde acabar com a divisão aberta em 1988 pelos "lefebvrianos", cujas negociações em curso passarão para o próximo pontificado.
O papa Bento XVI deu um passo de grande envergadura e repercussão ao abrir em 2009 as portas da Igreja Católica aos tradicionalistas anglicanos contrários às medidas de abertura da comunhão anglicana, como a ordenação de mulheres e de homossexuais como bispos.
No dia 20 de outubro daquele ano, o Vaticano anunciou a aprovação da constituição apostólica (norma de máxima categoria) "Anglicanorum coetibus", que prevê a criação de "Ordinariatos Pessoais" (como Ordinariatos Militares) para permitir aos anglicanos descontentes entrar em plena comunhão com a Igreja Católica Apostólica Romana, mas com elementos do patrimônio espiritual e litúrgico anglicano.
Ou seja, se transformar em "católicos de rito anglicano", na mesma linha que os Uniatas ucranianos, que são católicos de rito bizantino e aqueles das outras igrejas de rito oriental, que mantêm suas tradições, mas reconhecem a autoridade do papa de Roma.
Apesar de o documento "Anglicanorum coetibus" contemplar a presença de clérigos casados, não significa uma mudança na disciplina da Igreja no que se refere ao celibato sacerdotal, que continua sendo obrigatório para os religiosos de rito latino.
O Vaticano justificou a decisão de Bento XVI ao afirmar que era uma resposta aos vários "pedidos feitos à Santa Sé por grupos de clérigos e fiéis anglicanos de diferentes partes de mundo que desejavam entrar em plena e visível comunhão" com a Igreja Católica.
Milhares de fiéis e 50 bispos anglicanos voltaram ao redil de Roma, quase cinco séculos depois de o rei inglês Enrique VIII, após não conseguir do papa Clemente VII a anulação de seu casamento com Catarina de Aragão, criou em 1534 a Igreja da Inglaterra, da qual se proclamou chefe.
Os anglicanos são hoje cerca de 77 milhões. Nos últimos anos, sua igreja viveu momentos de crise e de forte divisão interna devido à ordenação de mulheres como bispos e de homossexuais declarados também como bispos e a bênção dos casamentos entre pessoas do mesmo sexo.
O retorno ao catolicismo romano para eles é possível, mas o mesmo não ocorre por enquanto com os tradicionalistas seguidores do arcebispo francês Marcel Lefebvre, que criou uma divisão na igreja em 1988 ao ordenar quatro bispos sem a permissão de João Paulo II. Um dos bispos "lefebvrianos" mais conhecidos é o britânico Richard Williamson, que nega o Holocausto judeu.
Os lefebvrianos surgiram em 1969, quando Lefebvre (1905-1991) criou a Fraternidade São Pio X, que rejeita o Concílio Vaticano II por considerá-lo uma "heresia" e suas reformas como "destrutivas".
Bento XVI tentou fechar a ferida aberta com essa divisão e, em sinal de boa vontade, revogou as quatro excomunhões. Além disso, liberalizou em 2007 a missa em latim e lhes ofereceu uma Prelatura Pessoal, similar à do Opus Dei.
Mas tudo isso foi pouco para os lefebvrianos, que continuam acusando o Vaticano de ser o culpado pela situação da Igreja na sociedade atual. Eles consideram poder criticar publicamente "os erros" do Concílio Vaticano II e seus autores como uma condição "irrenunciável" para voltar.
Também apresentam como condição o uso exclusivo da liturgia de 1962, anterior ao Concílio Vaticano II, o que já foi concedido após a liberalização da missa em latim. O problema que se apresenta é a aceitação do Concílio Vaticano II, que rejeitam diretamente, enquanto para a Santa Sé o mesmo é "vinculativo".
O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, disse que as negociações, por desejo expresso de Bento XVI, vão passar para o próximo papa. Os lefebvrianos contam com quatro bispos, cerca de 500 sacerdotes e mais de 200 mil fiéis espalhados pelo mundo.
Na juventude, Joseph Ratzinger serviu como assistente de forças militares alemãs durante a Segunda Guerra Mundial. Nesta foto, de 1943, ele tinha 16 anos
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Em 1952, durante missa na Alemanha
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Nesta foto, de 1959, Joseph Ratzinger posa ao lado de um piano em um escritório. Na época, Ratzinger, com 32 anos, era professor de teologia dogmática em Freising, na Bavária
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Nos anos 1970, antes de se tornar cardeal
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Em maio de 1977, Joseph Ratzinger foi ordenado arcebispo de Munique e Freising pelo bispo de Berlim, o cardeal Alfred Bengsh. Foi um dos passos que o levariam ao papado em 19 de abril de 2005
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Então cardeal, Joseph Ratzinger participa de missa ao lado da Madre Teresa no 85º dia dos católicos alemães, em Freiburg. O evento ocorreu de 13 a 19 de setembro de 1978
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Nesta foto de 1979, Joseph Ratzinger posa ao lado do papa João Paulo II. Em 1981, Ratzinger passou a cumular cargos na Igreja Católica Romana. Foi nomeado líder da Congregação para a Doutrina da Fé e presidente da Comissão Bìblica Pontífica e da Comissão Teológica Internacional
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Em 1994, ratzinger já gozava de fama entre católicos. Nesta imagem, feita em junho, ele autografa uma publicação no aniversário de 1240 anos da cidade alemã de Fulda
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Em 2005, Ratzinger foi fotografado cumprimentando o papa João Paulo II, que morreria no mesm oano
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Em 18 de outubro de 2003, Ratzinger acompanhava o papa João Paulo II no aniversário de 25 anos da eleição de João Paulo. Cardeais do mundo inteiro compareceram ao evento no Vaticano
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Em 8 de abril de 2005 o cardeal Ratzinger (centro) passa em frente ao caixão de João Paulo II na praça São Pedro, no Vaticano. Ratzinger já era um dos líderes mais importantes do catolicismo
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Dias depois de abençoar o caixão de João Paulo II, Ratzinger acena para a multidão pela janela da Basílica de São Pedro, agora como o Papa eleito, no dia 19 de abril de 2005
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Em 24 de junho de 2005, um dos primeiros atos políticos do Papa Bento XVI, que visitou o presidente italiano Carlo Azeglio Ciampi. Na foto, ele acena para o público ao passar pela guarda Corazzieri (guarda montada presidencial italiana), na frente do palácio presidencial de Quirinale
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Papa Bento XVI acena para peregrinos de um barco cruzando o rio Rhine em Colônia, sua terra natal, em 18 agosto de 2005. Essa foi a primeira visita de Joseph Ratzinger como o Papa ao local emque nasceu. Mais de 400 mil jovens católicos de cerca de 200 países compareceram ao encontro
Foto: Patrick Hertzog / AFP
No Brasil, em 11 de maio de 2007, o Bento XVI compareceu à missa pela canonização do Frei Galvão no Campo de Marte, em São Paulo. Quase um milhão de pessoas compareceram à cerimônia que canonizou o primeiro santo nascido no Brasil
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Na véspera de completar 82 anos, o Papa acena para peregrinos na praça São Pedro no dia 15 de abril de 2009, ao lado do seu secretário, o bispo George Gaenswein
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Na sua segunda passagem pela África, Bento XVI abençoa uma criança no seminário de São Gall, em Ouidah. A foto foi feita em 19 de novembro de 2011
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Ao final do Angelus de 2012, no dia 29 de janeiro, Bento XVI olha para a pomba que soltou de uma janela no Vaticano. A imagem foi capturada pelo setor de imprensa do Pontífice
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Na sua última aparição pública antes do anúncio da renúncia, no domingo, 10 de fevereiro de 2013, o Papa Bento XVI conduziu a oração do Angelus
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Papa Bento XVI é cumprimentado pelo cardeal Angelo Sodano, decano do colégio de cardiais da Igreja Católica, logo após o anúncio da renúncia neste dia 11 de fevereiro
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Dois dias após o surpreendente anúncio, o Papa rezou a tradicional missa de Quarta-feira de Cinzas
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Mesmo após anunciar a saída do Trono de Pedro, Bento XVI seguiu com a agenda normal. No domingo, 23 de fevereiro, o Papa recebeu o presidente italiano, Giorgio Napolitano, em uma audiência no Vaticano.
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Na quarta-feira, 27 de fevereiro, um dia antes de renunciar, Bento XVI participou de sua última audiência pública como Sumo Pontífice
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Bento XVI abençoa bebê durante desfile de papamóvel ao chegar à Praça São Pedro
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Cerca de 150 mil pessoas ocuparam a Praça São Pedro para acompanhar a cerimônia de despedida do Papa
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Em seu pronunciamento, Bento XVI afirmou que, apesar de deixar suas atividades oficiais, seguirá acompanhando o caminho da Igreja. "Dei este passo com plena consciência da sua gravidade e inovação, mas com uma profunda serenidade de espírito", disse