O que levou Donald Trump a mudar de ideia e retomar apoio militar à Ucrânia?
Em mais uma reviravolta, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou no início desta semana a entrega de um grande estoque de equipamentos militares à Ucrânia. Apenas duas semanas antes, Washington havia declarado o fim de seu apoio ao país, após uma série de gestos de reaproximação com Moscou e mensagens contraditórias a Kiev sobre a continuidade do compromisso de ajuda americana.
Em mais uma reviravolta, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou no início desta semana a entrega de um grande estoque de equipamentos militares à Ucrânia. Apenas duas semanas antes, Washington havia declarado o fim de seu apoio ao país, após uma série de gestos de reaproximação com Moscou e mensagens contraditórias a Kiev sobre a continuidade do compromisso de ajuda americana.
Jean-Baptiste Marot, da RFI em Paris
Donald Trump estaria tentando recuperar a "liderança" do Ocidente, como afirmou o ministro das Relações Exteriores da Lituânia, Kestutis Budrys? Na segunda-feira (14), o presidente dos Estados Unidos anunciou ter "concluído um acordo muito importante" com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).
"Equipamentos militares no valor de vários bilhões de dólares serão comprados dos Estados Unidos, enviados à Otan e rapidamente distribuídos para o campo de batalha", em particular "sistemas de mísseis de defesa aérea Patriot", disse Trump, ao receber o secretário-geral da organização, Mark Rutte, na Casa Branca. Repetindo que estava "descontente" com Vladimir Putin, que continua bombardeando a Ucrânia quando "achávamos que tínhamos um acordo em cerca de quatro ocasiões", Donald Trump também ameaçou sancionar a Rússia e os parceiros comerciais de Moscou.
O republicano ameaçou aumentar em 100% as taxas alfandegárias "secundárias" a Moscou, se o Kremlin não chegar a um acordo de cessar-fogo com Kiev em 50 dias.
Para Ulrich Bounat, analista geopolítico, pesquisador associado do Open Diplomacy Institute e especialista em Europa Central e Oriental, essa reviravolta do presidente americano é resultado do "contexto", mas também de uma certa "exasperação". Enquanto Donald Trump "consegue obter tudo o que quer dos europeus, o que alimenta sua sensação de só obter vitórias de um lado", ele sente frustração com Vladimir Putin, que não cede às suas exigências.
Depois de obter uma mudança significativa de seus aliados na última cúpula da Otan, em junho, com um aumento da meta de gastos com defesa para 5% do PIB até 2035 - um pedido que Washington fazia há anos -, Trump antecipou que "os Estados Unidos não comprarão essas armas". "Nós as fabricamos, eles pagam!", insistiu, apontando para os países europeus.
Satisfação para o público interno
O "acordo" se assemelha a uma vitória política para Washington, explicou Camille Grand, pesquisador do Conselho Europeu de Relações Exteriores e ex-secretário-geral-adjunto da Otan para Investimentos em Defesa, à RFI. Ao contrário do que acontecia sob o governo Biden, as "armas americanas serão enviadas para a Ucrânia, mas a maior parte delas não serão mais pagas pelo contribuinte americano", afirmou. A mudança permite que o republicano demonstre ao seu eleitorado que esse novo apoio a Kiev não lhe custará nada, e que ele transferiu com sucesso o ônus da ajuda para os europeus.
"Está claro que Donald Trump se recusa a dar um centavo à Ucrânia e que qualquer apoio de seu governo a Kiev agora virá em troca de dinheiro. Mas, com Moscou, essa mudança de tom reflete principalmente o fracasso de sua estratégia de estender cada vez mais a mão à Rússia para trazê-la de volta à mesa de negociações, e isso não está funcionando", alerta Ulrich Bounat.
"Vemos que Donald Trump está se conscientizando de que Vladimir Putin o enrolou nos últimos meses e que está em uma situação em que não pode anunciar o tipo de vitória diplomática que queria", acrescenta Camille Grand. Para ele, o presidente americano "está sensível ao fato de que a imprensa americana começa a retratar seu relacionamento com Putin como ele sendo feito de idiota". "Isso está afetando sua popularidade na política interna: as pesquisas estão começando a mostrar menos apoio a ele", completou.
Para reverter essa imagem, o líder republicano precisa ter mais sucesso na Ucrânia - o que passa por trazer Vladimir Putin à mesa de negociações. "O principal obstáculo hoje nesta questão é ele (Putin)", acrescenta Jean-Pierre Maulny, vice-diretor do Instituto de Pesquisas em Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), com sede em Paris, onde é pesquisador sobre a indústria e a venda de armas.
Mudança de postura de europeus - principalmente, da Alemanha
Ao mesmo tempo, a mudança de estratégia por parte do presidente ucraniano e dos líderes europeus para reconquistar o apoio americano parecem ter dado resultados, afirma o Wall Street Journal. "Alexander Stubb, o presidente da Finlândia, estabeleceu uma amizade com Trump durante um torneio de golfe na Flórida [...]. Friedrich Merz [chanceler alemão] visitou Trump em 5 de junho na Casa Branca e, posteriormente, reuniu-se com ele quase semanalmente [...]. Quanto ao secretário-geral da Otan, Mark Rutte, enviou a Trump mensagens elogiosas de texto ", escreveu o jornal.
O diário observa ainda que, nos meses que antecederam a cúpula da Otan, "líderes europeus persuadiram o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, a dialogar diretamente com Donald Trump e a aceitar incondicionalmente as negociações com Vladimir Putin", enquanto, nos bastidores, alguns se aproximavam de toda uma rede de congressistas republicanos e altos funcionários do governo americano "considerados mais pró-Ucrânia, incluindo o secretário do Tesouro, Scott Bessent, e o secretário de Estado, Marco Rubio".
"Vários países [europeus] entenderam que precisam conversar com Trump com frequência e recorrer a bajulações extraordinárias para obter resultados a curto prazo", resume Ulrich Bounat.
A Alemanha, em particular, parece ter compreendido a dinâmica do presidente, em especial após a saída de Olaf Scholz da chancelaria. Embora tenha de arcar com grande parte do custo dos novos sistemas Patriot fornecidos à Ucrânia, "a mudança de atitude de Berlim, com um discurso muito mais proativo sobre rearmamento, e sua postura diferente da França em relação às taxas alfandegárias, certamente desempenharam um papel na situação atual. Mas, no geral, o problema com essa estratégia é que ela não garante resultados a longo prazo", complementa.