Impedida desde 2ª Guerra, Alemanha pode começar a desenvolver armas nucleares sob pretexto de 'dissuasão'
A Alemanha entrou em 2026 tendo de enfrentar um debate incômodo: a necessidade ou não de o país desenvolver suas próprias armas nucleares. Embora o tema seja controverso, há um consenso na imprensa, entre especialistas e políticos: Berlim não pode mais confiar 100% no chamado "guarda-chuva nuclear americano", que garantiu a segurança do país por décadas.
Gabriel Brust, correspondente da RFI em Düsseldorf
A Alemanha é proibida de desenvolver armas nucleares desde o final da Segunda Guerra Mundial, mas a restrição se consolida com o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), assinado em 1968 e em vigor desde 1970, do qual a então Alemanha Ocidental se tornou signatária em 1975.
O que disparou o atual debate sobre armas nucleares na Alemanha foi uma mistura de fatores que começou com a invasão da Ucrânia pela Rússia, mas que ganhou força neste começo do ano com as ameaças americanas de anexação da Groenlândia, que pertence à Dinamarca.
A lógica é que um conflito pela Groenlândia poderia levar ao fim da Otan, o que, por sua vez, poderia levar ao fim do guarda-chuva nuclear dos Estados Unidos para a Alemanha, que existe desde a Guerra Fria. Os americanos atualmente mantêm bombas nucleares armazenadas na Base Aérea de Büchel, no Oeste da Alemanha.
Em outubro do ano passado, o chanceler Friedrich Merz disse não estar pensando na questão nuclear naquele momento, mas o cenário mudou. Na semana passada, o Brigadeiro-General Frank Pieper, que pertence à Academia de Liderança do exército alemão, publicou nas redes sociais um texto dizendo com todas as letras: "A Alemanha não pode mais confiar sua existência aos Estados Unidos e ao seu guarda-chuva nuclear. A Alemanha precisa de armas nucleares táticas para se opor à ameaça russa".
Nesta semana, um membro do próprio partido de Merz quebrou o silêncio sobre o tema. O especialista em política externa da CDU, o coronel aposentado Roderich Kiesewetter, sugeriu que a Alemanha contribua financeiramente para um sistema europeu de proteção nuclear, porém sem assumir a liderança.
A tese de que a Alemanha deva fazer um acordo para ter proteção nuclear da França é descartada por quase todos os especialistas, incluindo membros do governo. Primeiro, porque a oferta feita pela França até aqui foi tímida e com quase nenhuma garantia. Segundo, que a possibilidade da chegada do partido de Marine Le Pen ao poder na França colocaria a segurança da Alemanha novamente em risco.
Alemanha poderia desenvolver ogiva em até 5 anos
Especialistas como Rainer Moormann, que trabalhou durante anos no Centro de Pesquisa Nuclear de Jülich, acreditam que a Alemanha possui o conhecimento técnico para construir sua própria ogiva nuclear em um período de três a cinco anos, graças à usina de enriquecimento nuclear de Gronau.
Mas não seria algo tão simples: vale lembrar que o país é signatário de dois tratados que, em tese, o impedem de desenvolver armas nucleares. Já o especialista Eckhard Lübkemeier defendeu, em entrevista ao Frankfurter Allgemeine, que em um cenário profundamente alterado, ou seja, sem a proteção americana e com uma Rússia agressiva no leste, o direito internacional dos tratados permite a revogação de antigos compromissos. Lübkemeier, que é ex-vice-chefe do departamento europeu da Chancelaria Federal, é um dos que defendem a ideia da "bomba alemã", caso "nenhum de nossos parceiros esteja preparado para assumir um compromisso".
Vale registrar ainda que a opinião pública alemã, que ainda é majoritariamente contra a ideia, mas que vem mudando. Em 2020, apenas 5% se diziam a favor de uma bomba nuclear alemã. Em 2025, este número se multiplicou por seis, atingindo 30%.
O poder da dissuasão
Uma das vozes mais eloquentes na defesa de uma nova dissuasão nuclear para a Alemanha é a de Claudia Major, vice-presidente do German Marshall Fund e assessora do governo alemão. Ela disse ao Die Zeit que a guerra na Ucrânia está demonstrando que o poder da dissuasão nuclear ainda funciona. A Rússia até agora evitou qualquer conflito militar com os países da Otan porque sabe dessa ameaça. Ao mesmo tempo, os países ocidentais estão calibrando seu apoio à Ucrânia com muita cautela, justamente por medo das ameaças nucleares russas.
Mas, segundo Major, agora há uma novidade. Tradicionalmente, a dissuasão era entendida como a defesa do status quo: a Otan e a Rússia protegem suas fronteiras e a ordem vigente. Mas a Rússia agora está usando a proteção de suas armas nucleares para mudar a ordem vigente: redesenhou fronteiras e anexou quatro regiões ucranianas