Impasse com Orbán e crise no Oriente Médio dominam cúpula da União Europeia
Líderes europeus tentam destravar ajuda de 90 bilhões de euros à Ucrânia enquanto buscam resposta diplomática para tensão no Estreito de Ormuz.
Artur Capuani, correspondente da RFI em Bruxelas
O Conselho Europeu realiza nesta quinta-feira (19), em Bruxelas, uma cúpula marcada por divisões internas e pressões externas. Os 27 chefes de Estado e de governo do bloco discutem o veto da Hungria a um pacote de 90 bilhões de euros para a Ucrânia, além da escalada da crise no Oriente Médio, que já impacta o preço global da energia.
O bloqueio imposto pelo primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, é o principal ponto de tensão do encontro. O pacote de ajuda a Kiev, previsto para os próximos dois anos, já havia sido aprovado anteriormente pelos líderes europeus, o que aumentou a irritação com a decisão de Budapeste de barrar o acordo na reta final.
Nos bastidores, a avaliação é de que Orbán utiliza o tema como instrumento político em meio a uma campanha presidencial acirrada na Hungria, com eleições previstas para abril. O governo húngaro sustenta que a Ucrânia estaria atrasando os reparos no oleoduto Druzhba, responsável por abastecer o país com petróleo russo. Kiev nega e atribui os danos a ataques da Rússia.
Para tentar contornar o impasse, a União Europeia propôs apoio técnico e financeiro para acelerar os trabalhos no oleoduto, além de uma inspeção independente.
Estreito de Ormuz
Outro tema central da cúpula é a crise no Oriente Médio, especialmente após o fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte global de petróleo. A situação elevou os preços da energia e aumentou a pressão sobre as economias europeias.
A UE foi surpreendida por um pedido dos Estados Unidos para ajudar a reabrir o estreito, mas há forte resistência entre os países-membros a qualquer envolvimento militar direto. A possibilidade de ampliar a missão naval europeia na região foi descartada, principalmente por limitações legais e operacionais.
Diante desse cenário, os líderes devem apostar em uma resposta diplomática. A reunião contará com a participação do secretário-geral da ONU, António Guterres, e a expectativa é de que sejam discutidas alternativas para garantir a segurança da navegação sem ampliar o conflito.
Crise energética e outros temas
A crise energética também ocupa lugar de destaque na agenda. Desde o início da guerra na Ucrânia, os preços da energia permanecem elevados, cenário agora agravado pelas tensões no Oriente Médio. O impacto vai além dos combustíveis e atinge diretamente a competitividade da indústria europeia.
No entanto, não há consenso sobre como enfrentar o problema. Um dos principais pontos de divergência é o sistema europeu de comércio de emissões, o ETS. Parte dos países defende maior flexibilidade nas regras, argumentando que o mecanismo encarece a energia, enquanto outros consideram o sistema essencial para a transição climática.
A Comissão Europeia tenta equilibrar essas posições, mantendo o ETS, mas prometendo ajustes para reduzir a volatilidade e seus efeitos sobre os preços.
Além desses temas, os líderes também devem discutir medidas para reforçar a competitividade econômica do bloco, além de questões relacionadas à defesa e à migração. Na prática, porém, esses assuntos tendem a ficar em segundo plano diante das urgências políticas que dominam a cúpula.