Retrospectiva em Paris revisita cinco décadas de imagens de Nan Goldin entre arte, política e memória
This Will Not End Well, em cartaz no Grand Palais e na Capela Saint-Louis da Salpêtrière, oferece uma visão inédita em Paris da obra de Nan Goldin, norte-americana que acaba de completar 70 anos como estrela inconteste da fotografia mundial. Goldin descreve seu trabalho no material da mostra e dá o tom da curadoria que recupera cinco décadas de um trabalho intenso, cru e cheio de empatia : "Sempre quis ser cineasta. Meus slideshows são filmes compostos de fotos".
Márcia Bechara, da RFI em Paris
A mostra, aberta a partir de quarta-feira (18) para o público na capital francesa, ocupa o Salão de Honra do Grand Palais e a Capela Saint-Louis da Salpêtrière, onde está sendo apresentada a instalação Sisters, Saints and Sibyls, concebida em 2004 para o Festival de Outono de Paris. Apesar de não ter podido estar presente na coletiva de imprensa em 17 de março por problemas de saúde, a presença da artista é sentida em cada detalhe da mostra. A seu pedido, Goldin foi substituída, durante a coletiva em Paris, por uma longa e pungente mensagem gravada por ela e um vídeo de apoio aos palestinos e à Faixa de Gaza, projetado nas paredes do Grand Palais.
O curador sueco Fredrik Liew, responsável pela retrospectiva e diretor de exposições e coleções do Moderna Museet, em Estocolmo, acredita se tratar de "um grande erro quando se pensa nessa mensagem política como algo separado do resto da exposição". "Pelo que entendo da prática de Nan, o que me engaja é a dedicação dela às outras pessoas, à empatia e a como vivemos juntos. O que está acontecendo no mundo — populismo, terror, guerra — são consequências da falta de empatia. Nan propõe, com seu trabalho, mostrar como ser humano, estar junto e se esforçar para construir um mundo melhor", observou à RFI.
Gaza, AIDS e a convergência de lutas
Ao longo das últimas décadas, a fotógrafa Nan Goldin tem criado imagens marcantes que exploram a poética do pessoal. Mais do que qualquer outro artista de sua estatura, Goldin tem usado seu sucesso para denunciar a ganância dos poderosos, desde a resposta lenta do governo norte-americano à crise da AIDS, que matou tantos de seus amigos na década de 1980, até o lucro da indústria farmacêutica e a epidemia de overdoses que ela desencadeou.
Neta de judeus asquenazes da Polônia, ela passou os últimos anos, em suas próprias palavras, "consumida" pela destruição de Gaza e de seu povo. No início de 2026, ela e seu editor, David Sherman, começaram a costurar vídeos da Palestina - cenas de normalidade e de atrocidade, ambas - para produzir Gaza, um mosaico de dor e beleza, com imagens de antes e depois da guerra, vídeo apresentado também durante a coletiva de imprensa de lançamento de sua retrospectiva em Paris:
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Nan Goldin é reconhecida como uma artista maior que transita entre os séculos 20 e 21 revolucionando a fotografia contemporânea e a cultura visual. Com um título que encampa a ironia e a agudeza de seu olhar sobre o mundo, a retrospectiva This Will Not End Well (Isso Não Vai Acabar Bem, em tradução livre), no Grand Palais, é a primeira exposição na França a oferecer uma visão completa do trabalho da artista como cineasta, por meio de slideshows e vídeos.
Viagem sensorial
Cada pavilhão da exposição parisiense parece pensado para contar uma história própria, transformando o percurso em um passeio sensorial pela obra de Nan Goldin. Sobre a montagem no Grand Palais, Hala Wardé, arquiteta e cenógrafa que colabora com a artista há anos, observou que "esse grande espaço parisiense acabou de ser reformado e recuperou uma luz que tinha perdido. Era importante voltar a este espaço e brincar com essa luz, mesmo que tenhamos decidido filtrá-la para manter um jogo de sombras e claridade. Aqui, no Salão de Honra — um lugar muito alto e imponente — optamos por torná-la menos densa. São cinco salas, em vez de seis como nos outros museus. A singularidade desta apresentação parisiense está na instalação de Sisters, Saints and Sibyls: ela é diferente, mas fiel à original."
Para Wardé, a luz é mais que um detalhe, "ela é o elemento que mais muda de cidade para cidade". "A luz de Paris não é a mesma de Estocolmo nem a de Milão. Decidimos torná-la menos intensa, ajustando a experiência ao espaço e à narrativa da exposição", especificou.
Sobre a disposição da obra na Capela Saint-Louis da Salpêtrière, a arquiteta detalhou que preferiu "respeitar a instalação exatamente como foi concebida para este lugar". "Inclusive, me inspirei nela para criar uma sala específica, com planta octogonal. Mantivemos toda a estrutura. Há um mezanino suspenso que provoca vertigem. A obra evoca o suicídio de sua irmã Barbara, em relação à história de Santa Bárbara. É muito intensa, e a forma como foi montada está perfeitamente adaptada a esta apresentação."
Uma narrativa viva e política
Mais do que uma retrospectiva de fotografias, a mostra propõe redescobrir a obra como experiência audiovisual. O curador sueco Fredrik Liew explica: "Talvez as pessoas esperem fotografias em molduras, mas não há obras impressas. Meu convite à artista foi mostrar toda a sua prática, suas milhares de imagens, no formato de slideshows que ela produziu ao longo da carreira. Selecionamos seis para esta exposição. Essa é a curadoria dela de suas imagens, narrativas da sua obra de vida. Ela organiza todas as imagens que produz em diferentes histórias, contadas por meio desses slides e seus trabalhos em vídeo."
Ele também comentou à RFI a maneira como a artista revisita constantemente suas obras. "Ela nunca parou de trabalhar, sempre refaz. Não existe apenas uma maneira de mostrar suas obras, mas muitas, e isso se desenvolve. The Ballad of Sexual Dependency, por exemplo, quando começou a ser exibida no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, sempre era diferente, e continua diferente a cada apresentação. Ela sempre acrescentava imagens e apresentava tudo de maneira diferente, inspirada pelos contextos dos lugares. Ela sempre vê o trabalho a partir do presente: 'Este é meu trabalho e é assim que o vejo hoje'. Estamos apresentando Nan como cineasta e contadora de histórias. Não estamos retirando nada de sua fotografia, mas acrescentando essa dimensão", diz.
A particularidade da montagem parisiense está na reinstalação de Sisters, Saints and Sibyls, originalmente criada para a Salpêtrière. Liew observa: "O que é realmente único em Paris é poder revisitar a Salpêtrière para a instalação de Sisters, Saints and Sibyls. A obra foi criada para o Festival de Outono em 2004 e estreou nesse local. Somos muito gratos por poder reinstalá-la agora, 20 anos depois, e mostrar a um público maior, além de apresentar todo o contexto de seu trabalho na forma desta exposição no Grand Palais."
Som, emoção e diaporamas
O som é parte central da narrativa de Goldin. Barbara Kroher, curadora associada em Paris, explica que "a construção narrativa de Nan é muito sutil, quase epidérmica, incluindo a trilha sonora, que tem papel central. Os escolhidos musicais são ecléticos: Chopin, Schubert, Velvet Underground, Maria Callas, Edmundo Rivero. O som não pode ser separado da imagem; ele guia a narrativa. Em The Ballad of Sexual Dependency, há um subtexto sonoro. Em Sisters, Saints and Sibyls, na Capela da Salpêtrière, ouvimos coros medievais e a voz de Nan, ampliando a dor que permeia a obra. Em Memory Lost, há gravações de secretárias eletrônicas dos anos 1980, acrescentando significado às imagens. O diaporama é uma forma híbrida, entre fotografia e cinema."
A exposição inclui trabalhos que exploram traumas familiares, suicídio, dependência química e relações de gênero. Wardé ressalta: "Cada sala, cada luz, cada detalhe foi pensado para que o visitante se sinta atravessando uma experiência íntima e sensorial. A obra fala de dor, mas também de empatia, de estar junto com o outro."
Contexto histórico e social
Goldin é conhecida por abordar questões sociais como gênero, saúde mental e crises de dependência. Em Memory Lost, ela explora os aspectos mais sombrios da dependência química. Em 2017, fundou o grupo P.A.I.N. (Prescription Addiction Intervention Now), atuando contra a família Sackler, considerada responsável pela epidemia de overdoses de opioides, pressionando instituições a removerem o nome dos doadores de seus espaços.
O trabalho da artista também documenta a vida boêmia e alternativa de Nova York entre os anos 1970 e 1990, retratando amizades, festas e relacionamentos. Em material oficial, a exposição apresenta obras icônicas como The Ballad of Sexual Dependency (1981-2022), The Other Side (1992-2021), Sisters, Saints and Sibyls (2004-2022), Memory Lost (2019-2021), Sirens (2019-2020) e Stendhal Syndrome (2024).
Paris como memória e cena artística
A capital francesa mantém um vínculo duradouro com a artista. Kroher contextualiza: "Nan viajou pela Europa desde jovem, morou em Paris, fotografou amigos e apresentou trabalhos aqui. Alguns amigos aparecem em suas obras, como Valérie em Standard Syndrome e Kim Harlow, ícone transgênero dos cabarés parisienses nos anos 1980. Ela tem um vínculo duradouro com a cidade e a exposição reflete isso."
A curadora francesa observa ainda o impacto do olhar de Goldin: "São histórias sobre emoções e relações humanas em toda a sua diversidade e complexidade. A empatia é constante em seu trabalho. A exposição nos mostra que a arte pode criar um senso de comunidade."
Um vilarejo de slideshows
Os pavilhões formam um conjunto que funciona como um "vilarejo", em que cada espaço é adaptado à obra que apresenta. "Cada sala, luz e arquitetura dialogam com os slideshows, reforçando a intimidade e a narrativa política da obra, conduzindo o visitante por trajetórias de memória, emoção e cinema", explica Wardé.
This Will Not End Well fica em cartaz até 21 de junho de 2026 no o Salão de Honra do Grand Palais e na Capela Saint-Louis da Salpêtrière, em Paris.
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