Homem preso após ataque racista na França admite ter visado 'pessoas de origem muçulmana e africana'
O principal suspeito do ataque terrorista racista em Trappes, na região metropolitana de Paris, admitiu ter "visado especificamente pessoas muçulmanas, africanas ou norte-africanas", informou nesta quinta-feira (29) o procurador da Promotoria Nacional Antiterrorista (Pnat), Olivier Christen. O principal investigado, Kévin T., teve sua prisão preventiva mantida e deve ser apresentado a um juiz ainda hoje, acrescentou o chefe do Pnat.
Kévin T., autor do ataque que deixou um morto e sete feridos nos arredores de Paris, admitiu ter mirado premeditadamente pessoas negras e muçulmanas, sem demonstrar arrependimento. Radicalizado na extrema direita, o agressor guardava armas, explosivos e propaganda política em casa. A Promotoria Antiterrorismo abriu inquérito por homicídio terrorista e racista, enquanto o caso intensificou debates políticos sobre a proliferação do extremismo e do ódio racial na França.
Embora reconhecesse ser o autor do ataque em Trappes, que matou uma pessoa há seis dias, Kévin T. havia negado, até então, qualquer motivação racista. Entretanto, após ser ouvido seis vezes no decorrer das investigações, o suspeito acabou mudando sua versão.
O homem de 39 anos admitiu ter "visado especificamente pessoas 'de perfil muçulmano, africano ou norte-africano'" e escolhido o local da ação, porque "Trappes é um reduto de islamistas", esclareceu o procurador Olivier Christen. O atirador também reconhece agora a "premeditação", mas refuta, por outro lado, "qualquer intenção terrorista, considerando sua ação legítima".
Além disso, foram encontrados 30 adesivos com os dizeres "Viva a França e o RN" (sigla de Reunião Nacional, partido de extrema direita) e "Orgulho de ser francês", cuja criação foi reivindicada pelo próprio investigado. Kévin T. revelou que ele mesmo "criou o design dos adesivos encontrados em sua casa e, há mais de um ano, encomendou a fabricação deles por meio da Amazon". Também foram encontrados vários "livros, incluindo um Alcorão, uma Bíblia e o Mein Kampf (Minha Luta), obra antissemita escrita por Adolf Hitler".
A busca na residência do suspeito permitiu descobrir ainda "armas e componentes de armas, incluindo um carregador, duas soqueiras, uma baioneta de aço e um silenciador, além de um dispositivo explosivo improvisado, composto por botijões de gás e fios elétricos conectados a um temporizador.
Diante desses elementos, o procurador nacional antiterrorismo pediu sua prisão preventiva. Kévin T. deverá ser apresentado a um juiz ainda nesta quinta-feira para a formalização das acusações.
"Nenhum arrependimento"
O ataque aconteceu na última sexta-feira (23), em Trappes e La Verrière, a 30 km de Paris, causando a morte de Pengo Bossio Wangi, um jovem negro de 26 anos, e deixando sete pessoas feridas, a maioria de origem africana. Entre os feridos está uma criança de 11 anos, que não corre mais risco de morte.
Embora Kévin T. "tenha negado a intenção de matar crianças, alegando ter se confundido devido ao porte físico da vítima de 11 anos, ele declarou, contudo, não sentir qualquer arrependimento", explicou o procurador do Pnat. Entre os feridos, "três ainda estão hospitalizados e um deles corre risco de morte", acrescentou Olivier Christen, ressaltando o "planejamento muito elaborado" do ataque.
Após o término da custódia policial, encerrada na madrugada de quarta-feira (28) para quinta-feira (29) de outubro, a Promotoria Nacional Antiterrorismo abriu um inquérito judicial, permitindo que um juiz assuma o caso, tipificado como "homicídio e tentativas de homicídio relacionados a uma ação terrorista, com a agravante de terem sido cometidos em razão do pertencimento, real ou suposto, das vítimas a uma determinada raça, etnia, nação ou religião".
Radical de extrema direita com quatro condenações
As análises revelaram "a presença de maconha e cocaína no sangue" do suspeito no momento do ataque. O Pnat informou ainda que o indivíduo possuía quatro condenações anteriores em sua ficha criminal, sendo a última de 2012.
Entretanto, ele não era conhecido pelos serviços de inteligência. De acordo com uma fonte próxima à investigação, Kévin T. foi diagnosticado com esquizofrenia e fazia tratamento médico.
Segundo outra fonte, o homem, que trabalhava na indústria automotiva e era solteiro, tornou-se um radical de extrema direita nos últimos dez anos, "culpando árabes e negros por tudo".
"Que a justiça seja feita"
O atentado causou um grande choque na França e acirrou o debate político. No último fim de semana, ocorreram diversas manifestações, especialmente na região de Paris, em apoio às vítimas e para "denunciar a banalização do ódio racista".
Durante um dos atos na noite de quarta-feira, a mãe da criança que ficou ferida pediu "que a justiça seja feita". Ela agradeceu, em especial, à jovem "muito corajosa" que "colocou a própria vida em risco para ajudar sua filha", e destacou a "onda de solidariedade" que cercou a família. Uma "homenagem nacional", presidida pelo primeiro-ministro Sébastien Lecornu, será realizada em breve.
Em entrevista ao canal "HugoDécrypte", no YouTube, o presidente da França, Emmanuel Macron, avaliou que existem "movimentos políticos que permitiram que isso se instalasse na extrema direita", ao ser questionado sobre os responsáveis por um clima por vezes racista que pode ter favorecido esse atentado, citando ainda o Reunião Nacional e "aqueles que lhes são próximos".
O RN respondeu nesta quinta-feira, por meio de seu deputado Jean-Philippe Tanguy, afirmando que foi o próprio presidente, a quem classificou como "muito problemático", quem permitiu que "ideologias odiosas" prosperassem.
J'ai répondu aux questions d'Hugo Décrypte. Rendez-vous sur YouTube : https://t.co/IvzLzzdjzI https://t.co/Wpx1RZqaM5
— Emmanuel Macron (@EmmanuelMacron) October 29, 2026
RFI com AFP
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