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Exportações disparam com acordo Mercosul-UE, mas barreiras ainda travam setores estratégicos

A entrada em vigor provisória, em 1º de maio de 2026, do Acordo Comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE) aumentou as expectativas de produtores brasileiros que buscam ampliar sua presença no mercado europeu. Dos grandes frigoríficos aos pequenos fruticultores, empresas e cooperativas estão de olho em novos consumidores e esperam se beneficiar de tarifas mais competitivas para conquistar espaço nos países do bloco.

28 out 2026 - 10h09
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Resumo
O acordo entre Mercosul e União Europeia impulsionou as exportações brasileiras em 30,6%, beneficiando cooperativas e produtos de nicho, como óleo de pequi e mel, com a redução de tarifas. No entanto, setores estratégicos enfrentam entraves: a indústria de carnes denuncia barreiras sanitárias e políticas que limitam o acesso europeu, cogitando medidas de reciprocidade. Enquanto produtores de ovos processados buscam espaço, o mercado vê a união como chance de expansão e parcerias globais.

Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris

É o caso de José Fábio Soares, de Minas Gerais, que começa a levar para a França produtos originários do Cerrado. A Cooperativa Grande Sertão acaba de entregar três toneladas de óleo de pequi a um parceiro comercial francês. Para ele, a redução dos custos de importação já começa a fazer diferença na competitividade do produto.

"Com certeza essa carga de óleo de pequi que nós mandamos para cá já foi, de certa forma, beneficiada com redução dos impostos com esse acordo com o Mercosul", comemora. "Nós tivemos uma redução bastante significativa de imposto no processo de importação dos nossos parceiros aqui na França. Então, automaticamente, a gente consegue entregar um produto de nicho de mercado. Não é uma commodity. E quando tem esse benefício fiscal e tributário, com certeza a gente vai conseguir entregar ele com preço mais competitivo, um preço mais baixo e consequentemente, nós vamos conseguir ampliar um pouco mais os volumes entregues", acredita. 

Pequi, fruta brasileira ganha mercado na Europa. Arquivo da Cooperativa Grande Sertão. Minas Gerais.
Pequi, fruta brasileira ganha mercado na Europa. Arquivo da Cooperativa Grande Sertão. Minas Gerais.
Foto: RFI

Rico em vitamina A, o óleo de pequi é usado na alimentação e também pela indústria de cosméticos. Para Soares, a exportação representa ainda a possibilidade de gerar renda para famílias ligadas ao extrativismo sustentável.

"É a realização de um sonho. A gente está conseguindo trazer esses produtos que beneficiam de fato as famílias, que beneficiam a mulher, o jovem, as pessoas que estão no campo, que praticam extrativismo sustentável. É um trabalho, uma oportunidade, com base na agroecologia, na conservação, na proteção do meio ambiente", analisa. 

Exportações em alta

Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações brasileiras para a União Europeia somaram US$ 27,2 bilhões entre maio e setembro de 2026, alta de 30,6% em relação ao mesmo período de 2025.

O novo ambiente comercial pode ampliar o acesso de produtos brasileiros ao mercado europeu, avalia Pedro Neto, gerente de Agronegócios da ApexBrasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos). Segundo ele, as oportunidades não se limitam às grandes empresas e podem chegar a cooperativas e pequenos produtores.

"O acordo com a União Europeia abre muita oportunidade real para o cooperativismo brasileiro, para micro, pequenas empresas e para os pequenos negócios do setor rural e também da economia urbana, da economia industrial do nosso país", avalia. "No caso da apicultura, por exemplo, uma cooperativa do semiárido brasileiro de pequenos produtores começou a conseguir exportar para a Alemanha, porque agora, com o acordo, a questão tarifária ficou mais favorável frente aos nossos concorrentes. Estamos concorrendo numa igualdade de condições", completa. "Então, temos vários exemplos disso acontecendo, das oportunidades do acordo chegando lá na ponta", destaca.

O agronegócio brasileiro está reunido na Sial Paris 2026, a maior feira profissional do setor agroalimentar do mundo, que termina nesta quarta-feira (21), podendo gerar US$ 3,5 bilhões em negócios para os produtores nacionais.
O agronegócio brasileiro está reunido na Sial Paris 2026, a maior feira profissional do setor agroalimentar do mundo, que termina nesta quarta-feira (21), podendo gerar US$ 3,5 bilhões em negócios para os produtores nacionais.
Foto: RFI

O acordo entre o Mercosul e a UE prevê a redução ou eliminação progressiva de tarifas aduaneiras. Alguns produtos passam a contar com benefícios tarifários mais rapidamente, enquanto outros seguem cronogramas graduais de redução ao longo dos próximos anos.

Para Pedro Neto, a legislação ambiental brasileira oferece condições para que o país responda às exigências do mercado europeu.

"A gente tem no Brasil uma legislação ambiental muito restritiva, que é muito acima do que vai acontecer no mundo todo e que é, inclusive, fiscalizada por satélite. É uma coisa que qualquer um pode ver. Então, a gente tem uma legislação muito robusta. A gente está muito seguro quanto a ela. A gente está na mínima histórica de desmatamento no nosso país. É claro que o ideal é o desmatamento ilegal zero. Mas a gente consegue ver que está dando certo", analisa.

Barreiras ainda preocupam setor de carnes

A abertura comercial, no entanto, não elimina os obstáculos enfrentados pelos exportadores brasileiros. Questões sanitárias e requisitos de acesso ao mercado europeu continuam no centro das preocupações de setores ligados aos produtos de origem animal.

Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC), considera contraditório que, depois de duas décadas de negociações, produtos importantes da pauta brasileira ainda encontrem restrições para entrar no mercado europeu.

"O acordo do Mercosul União Europeia demorou 20 anos para sair e não é admissível que os principais produtos produzidos pelo Brasil, no dia um do acordo sejam impedidos de acessar o mercado europeu", lamenta. "Então, o Brasil tem que olhar isso com muito cuidado do ponto de vista do setor privado. O Brasil tem que falar: olha, se for para fazer o acordo desse jeito, não sei se vale a pena para o Brasil. E não sei se vale a pena para o Mercosul", avalia "Eu acho que o governo está olhando isso. O próprio acordo prevê consequências para essas coisas. Então, medidas compensatórias de retaliação nós temos no Brasil, pois foi aprovada uma legislação de reciprocidade", destaca. "Mas eu acho que o acordo é um bom instrumento jurídico, mas ele precisa ser utilizado na sua plenitude", completa. 

Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC). Em entrevista à Maria Paula Carvalho, da RFI. Em Paris, em 19 de outubro de 2026.
Roberto Perosa, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC). Em entrevista à Maria Paula Carvalho, da RFI. Em Paris, em 19 de outubro de 2026.
Foto: RFI

Na avaliação de Perosa, as dificuldades enfrentadas pela carne brasileira não são apenas comerciais. O dirigente atribui parte das resistências a questões políticas dentro da União Europeia.

"A briga não é comercial. A briga é política. Só que tem coisas que se impõe a necessidade de consumo da maioria da população. É a necessidade de controle do preço de alimentos nos países e a capacidade produtiva de cada país. Essas são premissas que acabam se impondo com o decorrer do tempo, porque você pode tentar proteger um setor durante um período, deixar a população sem acesso a produto de qualidade, com preço competitivo, cria um problema. E onde pode se produzir mais e com mais competitividade? Onde se tem vasta extensão territorial, onde se tem água, onde se tem sol e onde se tem gente preparada para fazer isso? É no Brasil."

Produtores de ovos também esperam acesso ao mercado

A expectativa de uma abertura maior também está presente entre empresas de outros segmentos. A Netto Foods, de São Paulo, especializada em ovos processados, espera conquistar espaço no mercado da União Europeia.

O gestor de negócios Fausto Clemente afirma que a empresa já conta com certificações e está preparada para atender às exigências necessárias para exportar.

"Abre uma janela de oportunidades muito grande para a região. E um ponto importante é que nós estamos prontos para isso. Nós já temos todas as certificações, nós atendemos todos os requisitos legais, não só relacionado a lei, mas com relação à segurança do alimento, ao Ministério da Agricultura de cada país. Então nós estamos prontos para fazer negócio", explica

Apesar das oportunidades proporcionadas pela abertura comercial, Clemente ressalta que a competitividade das empresas continuará sendo determinante para conquistar novos mercados.

SIAL 2026. Em Paris, em 19 de outubro de 2026.
SIAL 2026. Em Paris, em 19 de outubro de 2026.
Foto: RFI

"O mais importante é você ser eficiente e ter um custo para poder ser competitivo. Quando você fala no mercado de ovo processado, ele não é tão comum. Então, o produtor muitas vezes não é tão impactado. Mas nada impede também de você ter parceria com os países, com produtor local e inclusive pensando em expansão", acrescenta.

Para o executivo, uma maior integração dos mercados também pode favorecer a troca de conhecimento e de tecnologias entre produtores de diferentes países.

"Vemos que é uma oportunidade muito interessante para ambos os lados. O mundo precisa disso, uma vez que os mercados estão abertos. Você consegue compartilhar boas práticas, novas tecnologias. Você consegue atender aos novos padrões que muitas vezes você não tinha no seu próprio país", afirma.

Um levantamento da ApexBrasil identificou 407 oportunidades comerciais para produtos brasileiros somente na França. Para produtores e empresas que buscam ampliar as exportações, a expectativa agora é transformar a redução das barreiras comerciais em maior presença nas prateleiras e nas cadeias produtivas europeias.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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