"Herói" da independência da Ucrânia divide opiniões no país
Meio século depois de morrer nas mãos da KGB, Stepan Bandera, partidário da Segunda Guerra, não perdeu sua capacidade de congregar os ucranianos contra a Rússia ¿ e uns contra os outros. Monumentos a Bandera aparecem repentinamente por todo o oeste da Ucrânia. Sua luta pela independência do país é apaixonadamente relatada a crianças em excursões escolares, como se ele fosse o George Washington do nacionalismo ucraniano. Porém, no leste da Ucrânia, em Moscou e em Bruxelas, Bandera é insultado como uma marionete nazista.
O legado disputado garante a ele um papel importante na Ucrânia de hoje. No final de seu mandato na presidência, Viktor A. Yushchenko nomeou Bandera como "Herói da Ucrânia", uma das mais altas honrarias do país. Isso desencadeou uma batalha política que pode tornar ainda mais difícil para Viktor F. Yanukovich, que recentemente sucedeu Yushchenko como presidente, lidar com paixões étnicas, regionais e históricas que dividem o país.
Ucranianos do leste já realizaram protestos, queimando uma efígie de Bandera. Yanukovich, cuja plataforma de campanha girava em torno de melhorar as relações com a Rússia, tem sofrido pressões para revogar a honraria, não apenas por parte da Rússia, mas também do Parlamento Europeu. No entanto, uma atitude dessas poderia gerar uma retaliação por parte dos ucranianos do oeste.
Yanukovich, que é do leste da Ucrânia, criticou a honraria, mas até o momento não disse o que fará. Acho que o presidente da Ucrânia deve ser o presidente de todo o país, não só de uma parte", disse ele. As reações à honraria a Bandera salientam uma divisão que tem causado bastante instabilidade na Ucrânia nos últimos anos. Nacionalistas da parte ocidental falam ucraniano e repudiam a influência russa. No leste, há pessoas que falam russo e sentem afinidade por Moscou. Com a posse de Yanukovich, a Ucrânia foi de um polo a outro, e a questão é se uma presidência de Yanukovich pode modificar esta dinâmica.
Bandera é famoso no oeste da Ucrânia por liderar o movimento pela independência contra a União Soviética e a Polônia, nas décadas de 1930 e 1940. Em 1941, no auge da sublevação da Segunda Guerra, ele proclamou a Ucrânia como um estado independente. O país não atingiu esse objetivo até o colapso da União Soviética, em 1991, mas ele é considerado por alguns como o pai fundador da Ucrânia.
"Todos os povos, todas as nações têm o direito a ter seu próprio governo, a escrever sua própria história", disse Stepan Lesiv, diretor de um museu sobre Bandera aqui em Staryi Uhryniv, uma vila no sudoeste da Ucrânia, onde nasceu o líder. "Bandera, assim como muitas pessoas da Ucrânia, lutou e morreu por esse objetivo".
A Rússia, a Polônia e grupos judeus veem Bandera de formas diferentes. Para eles, Bandera era um fascista que uniu forças com os nazistas na época em que eles atacaram a União Soviética, e cujo movimento de independência era uma frente para Hitler. Eles disseram que Bandera ordenou ou tolerou o massacre de judeus e poloneses por parte de guerrilheiros ucranianos.
Defensores de Bandera argumentam que sua ligação com os nazistas foi breve e a serviço de ajudar a Ucrânia a alcançar sua independência. Eles observaram que mais tarde Bandera foi detido pelos nazistas e enviado para um campo de concentração. Ele foi assassinado pela KGB em 1959, em Munique, onde vivia exilado.
No entanto, até mesmo seus apoiadores o consideram uma figura incendiária, o que justifica a época da honraria que recebeu. Yushchenko só a concedeu depois de ter não ter conseguido mais um mandato no primeiro turno das eleições presidenciais da Ucrânia, em janeiro.
Após o anúncio, ele visitou o museu Bandera. "Glória a Stepan Bandera! Glória à Ucrânia!", ele escreveu no livro de visitas da instituição. A decisão de Yushchenko parecia ter o objetivo de assegurar sua reputação como um presidente que revitalizou o movimento nacionalista ucraniano. Certamente não escapou a sua atenção que essa atitude irritaria a Rússia, seu oponente.
O primeiro-ministro Vladimir V. Putin, como previsto, atacou afirmando que, ao conceder a honraria a Bandera, Yushchenko não apenas ofendeu a Rússia, mas também "cuspiu na cara" de países que apoiaram a Revolução Laranja de 2004, que Yushchenko ajudou a liderar.
O próprio Putin se tornou partidário regular nos conflitos da antiga União Soviética sobre quem controla a narrativa da história e que memoriais permanecerão. Desde o colapso soviético, antigas repúblicas tentaram criar identidades diferentes de Moscou ao abolir símbolos soviéticos e disseminando suas próprias perspectivas sobre eventos centrais.
Nikolai Svanidze, historiador russo que serve a um painel no Kremlin com o objetivo de combater "tentativas de falsificar a história", afirmou que o mundo muitas vezes não entendeu o trauma sofrido pela União Soviética na Segunda Guerra, quando 25 milhões de cidadãos soviéticos morreram. Svanidze disse que honrar uma pessoa ligada aos nazistas era manchar o sacrifício desses mortos.
Ele comparou algumas outras antigas repúblicas soviéticas a adolescentes que buscam afirmar sua individualidade. "Eles rejeitam tudo que lhes parece desagradável, que parece aliená-los, ou algo que não é natural para eles. Enfim, tudo que está no caminho para sua identidade própria", disse o historiador.
Alguns ucranianos descreveram essa visão como condescendente e egoísta. "Na mentalidade russa, sempre deve haver um inimigo", disse Mykola Posivnych, historiador ucraniano e especialista em partidários ucranianos. "Este inimigo, Bandera, é muito útil para eles".
Lesiv, diretor do museu, disse que o assunto era ainda mais simples: a Rússia nunca concordou com a soberania da Ucrânia. Ele disse que as pessoas do oeste da Ucrânia se revoltariam se Yanukovich tentasse retirar a honraria de Bandera. "Para nacionalistas ucranianos", disse ele, "não existe a palavra capitulação".