Governo Meloni, de extrema direita, se torna o mais longevo na Itália desde a Segunda Guerra Mundial
O governo de Giorgia Meloni se tornou nesta sexta-feira (4) o mais longevo da história da República Italiana. A primeira-ministra alcançou 1.413 dias no cargo e superou o segundo governo de Silvio Berlusconi, que até então detinha o recorde. Seu gabinete celebra o marco como um símbolo de estabilidade política.
O governo de extrema direita de Giorgia Meloni tornou-se o mais longevo da Itália republicana, trazendo rara estabilidade política ao país. Líder nas pesquisas, o partido Fratelli d'Italia exalta a queda do desemprego e a redução da imigração ilegal, embora enfrente críticas da oposição e revezes institucionais. A permanência de Meloni no poder apoia-se no alinhamento pragmático com a União Europeia, apesar de atritos com Donald Trump e de impasses na controversa política migratória na Albânia.
Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão
Para marcar a data, o partido de Meloni, o Fratelli d'Italia (Irmãos da Itália, em português), realiza um evento no porto de Bari, no sul do país. Cerca de 10 mil pessoas são esperadas para acompanhar a celebração, que vai contar com a presença de todos os parlamentares do partido. A previsão é de que Meloni faça um discurso aos apoiadores.
O Fratelli d'Italia aproveita o marco já de olho nas eleições parlamentares, previstas para o ano que vem.
A Itália tem um histórico de frequentes mudanças no poder, com 68 governos em 80 anos de República. Por isso, Meloni busca reforçar a imagem de uma líder que conseguiu trazer estabilidade para a política italiana.
Nas redes sociais, a premiê afirmou que encara o feito como uma grande responsabilidade: "A estabilidade não é um recorde a ser exibido, mas a condição que permite a uma nação planejar, decidir, cumprir seus compromissos e se fazer respeitar", escreveu.
Oggi è un giorno storico per l'Italia. Con Giorgia Meloni, la Nazione raggiunge un nuovo record: il Governo più longevo della storia della Repubblica. pic.twitter.com/OgicYwAaI5
— Fratelli d'Italia 🇮🇹 (@FratellidItalia) September 4, 2026
Oposição questiona balanço do governo
Um documento publicado pelo partido nesta semana exalta os números do governo Meloni. Entre os destaques estão mais de um milhão de pessoas empregadas a mais desde o início do governo e a queda da taxa de desemprego para 5,8%.
O Fratelli d'Italia também ressalta a redução dos desembarques irregulares de migrantes, uma das principais pautas do governo. Nos primeiros sete meses deste ano, segundo o relatório, cerca de 16 mil migrantes desembarcaram de forma irregular na Itália, 60% a menos que no mesmo período de 2022, antes de Meloni assumir o governo.
A oposição, por outro lado, questiona a narrativa do Fratelli d'Italia e argumenta que estabilidade não significa, necessariamente, um governo bem-sucedido, especialmente diante da dificuldade de promover grandes reformas institucionais.
Os adversários de Meloni tentam manter em pauta a derrota da primeira-ministra no referendo popular realizado em março sobre uma reforma do sistema judiciário. O resultado, com 53,7% rejeitando a proposta, é usado pela oposição como um sinal de que o apoio do eleitorado ao governo não é tão sólido.
Nas pesquisas eleitorais mais recentes, o Fratelli d'Italia segue na liderança. Em levantamento publicado pelo instituto SWG em 31 de agosto, o partido de Giorgia Meloni aparece com 26,8% das intenções de voto. O principal partido da esquerda, o Partido Democrático, registra 20,7%. Já no campo da direita, ganha espaço uma nova força política: o Futuro Nazionale, de Roberto Vannacci, que chega a 7,5% e se apresenta como uma alternativa ainda mais à direita do que o partido de Meloni.
Alinhamento com a União Europeia
Giorgia Meloni chegou ao poder em outubro de 2022 à frente do Fratelli d'Italia, comandando uma coalizão de extrema direita. Nos últimos anos, porém, a primeira-ministra moderou parte do discurso, principalmente para manter o alinhamento com os parceiros europeus - uma das razões apontadas para a longevidade do governo.
Ao assumir o cargo, por exemplo, abandonou uma posição que havia defendido durante anos, de que a Itália deveria abandonar o euro. No governo, seguiu o caminho contrário e buscou estreitar as relações com Bruxelas.
Além disso, vista como uma líder pragmática, Meloni conseguiu administrar as diferentes posições dentro da própria coalizão, formada tanto pela Lega, mais radical, quanto pelo Forza Italia, de perfil mais moderado.
Política migratória e atritos com Trump
No entanto, o governo não escapou de polêmicas. Um dos principais exemplos são os dois centros migratórios construídos na Albânia para processar pedidos de asilo fora do território italiano. O projeto enfrentou uma série de obstáculos judiciais que impediram seu funcionamento como inicialmente previsto e acabou sendo reformulado para atuar principalmente na repatriação de migrantes transferidos da Itália.
No cenário internacional, Meloni, que era vista como uma possível ponte entre a Europa e o governo de Donald Trump, se distanciou do presidente americano nos últimos meses.
Os dois chegaram a trocar críticas publicamente. Um dos principais atritos aconteceu depois que a Itália não autorizou o uso de bases militares no país para operações de combate dos Estados Unidos contra o Irã. A decisão desagradou Trump, que acusou Meloni de não ter apoiado os Estados Unidos no conflito.
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