Escalada diplomática entre Alemanha e Rússia reforça clima de alerta na Europa
A imprensa francesa destaca nesta quinta-feira (3) a preocupação crescente dos países europeus diante da intensificação das ações atribuídas à Rússia fora do campo de batalha ucraniano. Em um dos episódios mais recentes desta escalada, Moscou ordenou o fechamento do instituto alemão Goethe, após Berlim acusar o país de estar por trás de uma tentativa de atentado, em agosto.
A tensão entre a Europa e a Rússia escalou após Moscou fechar o Instituto Goethe em resposta a sanções de Berlim, que atribuiu aos russos um atentado frustrado com drone em Leipzig. Diante de sucessivos ciberataques, sabotagens e bombardeios pesados contra Kiev, a imprensa internacional aponta que os europeus estão em alerta contra a guerra híbrida de Putin. As lideranças do continente agora debatem respostas mais duras para frear a desestabilização promovida pelo Kremlin sem iniciar um conflito direto.
A decisão da Rússia de fechar o Instituto Goethe em seu território foi anunciada nesta quinta-feira, em retaliação a uma medida semelhante tomada pela Alemanha contra o centro cultural russo em Berlim.
"Os alemães têm filiais do Instituto Goethe aqui, em Moscou, em São Petersburgo, Ecaterimburgo. É claro que elas serão fechadas", disse o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, citado por agências de notícias locais.
Na terça-feira (1°), Berlim havia anunciado o fechamento, a partir de 18 de setembro, do último consulado russo em seu território, em Bonn (oeste da Alemanha), e do centro cultural "Casa Russa" em Berlim.
Europa está "em pé de guerra"
As manchetes dos jornais franceses repercutem a tentativa de atentado com um drone carregado de explosivos contra o aeroporto de Leipzig, na Alemanha, frustrada em agosto e agora atribuída por Berlim a Moscou.
O Le Parisien afirma que a Europa está "em pé de guerra" diante de Vladimir Putin. O jornal destaca a reação coordenada da União Europeia e da Otan após as acusações alemãs e observa uma mudança de postura dos aliados, que já não hesitam em apontar diretamente a Rússia como responsável por atos descritos como sabotagens, ataques cibernéticos e operações clandestinas.
Segundo o diário, a preocupação também alcança a França. Os serviços de inteligência alertaram empresas e setores estratégicos para a possibilidade de ações russas mais diretas e violentas em território francês. O jornal afirma ainda que diversos países europeus reforçam suas capacidades de defesa diante da perspectiva de uma intensificação das operações russas.
A "outra guerra" de Putin
Na mesma direção, o jornal de esquerda Libération destaca na capa que Putin abriu uma "outra guerra" contra a Europa. Em sua reportagem, o diário afirma que, diante das dificuldades encontradas no conflito na Ucrânia, o Kremlin tenta desestabilizar os países que apoiam Kiev por meio de ataques híbridos, campanhas de influência e ações de intimidação.
Em seu editorial, o Libération sustenta que o presidente russo reage de forma cada vez mais agressiva à medida que sua posição se fragiliza internamente. O texto argumenta que os ataques de drones ucranianos em território russo, as perdas de mais de 1 mil militares por dia e as dificuldades econômicas reduzem gradualmente sua popularidade.
"Putin perde pouco a pouco seu prestígio junto à população. Ele sabe disso, não gosta disso e isso o deixa louco", resume o editorial. Para o jornal, a estratégia do Kremlin consiste em multiplicar ações de desestabilização, ciberataques e operações clandestinas destinadas a semear dúvidas, alimentar divisões e fortalecer forças políticas favoráveis a Moscou em diferentes países europeus.
Debate sobre a "guerra híbrida"
Já o Le Figaro destaca que a própria noção de "guerra híbrida" começa a ser questionada. Segundo o jornal conservador, militares e autoridades de segurança europeias consideram que o termo suaviza a gravidade das ações atribuídas à Rússia.
O diário cita responsáveis que falam em "terrorismo de Estado" e defendem uma revisão da forma como os países europeus respondem a essas ameaças. Para o Le Figaro, a questão central passa a ser como dissuadir Moscou sem provocar uma escalada militar direta.
O jornal argumenta ainda que a distinção tradicional entre guerra e paz se torna cada vez mais difícil de sustentar, à medida que sabotagens, ataques cibernéticos, campanhas de desinformação e incursões aéreas se multiplicam em diferentes países europeus.
Kiev sob fogo intenso
O Le Figaro também publica uma reportagem de Kiev que retrata a intensificação dos bombardeios russos contra a capital ucraniana.
Segundo o diário, os habitantes da cidade estão cada vez mais expostos aos ataques, enquanto as defesas antiaéreas enfrentam dificuldades para acompanhar a evolução tecnológica dos drones e mísseis empregados pela Rússia.
A reportagem destaca que Moscou passou a utilizar drones equipados com motores a jato, mais rápidos e difíceis de interceptar, num momento em que as reservas de mísseis defensivos da Ucrânia estão sob pressão.
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