Ceuta: primeiro‑ministro espanhol isenta Marrocos, mas reafirma a soberania de seu país
Pedro Sánchez voltou a afirmar nesta quinta-feira (3) que não dispõe de "nenhuma prova sólida" de uma eventual participação do Marrocos na crise migratória em Ceuta, ao mesmo tempo em que condenou firmemente declarações de ministros marroquinos reivindicando a soberania sobre o território. O possível papel de Rabat na entrada súbita de dezenas de milhares de migrantes no enclave nos dias 30 e 31 de julho está no centro dos debates na Espanha há um mês.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, declarou não haver provas sólidas da implicação de Marrocos na entrada massiva de migrantes em Ceuta, apesar de um relatório policial apontar permissividade das forças marroquinas e sugerir uma ação coordenada. Pressionado pela oposição, Sánchez prometeu firmeza caso surjam provas e reafirmou a soberania espanhola sobre Ceuta e Melilla, sugerindo uma visita do rei aos enclaves após declarações de Rabat reivindicando os territórios.
As dúvidas se intensificaram em 2 de setembro, após a divulgação na imprensa de um relatório policial que apontava, entre outros elementos, a "permissividade" das forças de segurança marroquinas nesses dois dias. Sobre o afluxo massivo de migrantes ocorrido em 30 e 31 de julho em Ceuta, o primeiro‑ministro espanhol mantém sua posição. Diante dos deputados, em Madri, na manhã desta quinta‑feira, Pedro Sánchez reiterou não ter "nenhuma prova sólida" da implicação das autoridades marroquinas.
O discurso é contestado pela oposição espanhola de direita e extrema direita, e também fragilizado por um relatório da polícia espanhola, consultado na quarta‑feira por vários meios de comunicação. Esse relatório não atribui às autoridades do Marrocos a responsabilidade pela chegada de dezenas de milhares de pessoas em dois dias ao território espanhol, mas aponta um conjunto de indícios que convergem para uma atitude permissiva, e até facilitadora, por parte dos policiais marroquinos.
A unidade de inteligência espanhola que investigou o caso observa, por exemplo, a ausência de "tentativa séria" das forças de segurança marroquinas de afastar a multidão do "perímetro fronteiriço", além de relatos de policiais que teriam indicado aos migrantes por onde passar.
Imagens suspeitas
Os investigadores também se interessam por um grupo de indivíduos observado em vários vídeos: sem uniforme, mas com perfis semelhantes (atléticos, usando camisetas neutras, calças compridas, bonés). No meio dos migrantes, eles parecem atuar como gestores do fluxo de pessoas. Segundo o relatório, todos esses elementos são incompatíveis com um movimento de massa puramente espontâneo. O documento reforça as dúvidas de parte da classe política espanhola.
Pedro Sánchez, embora continue a isentar Rabat, promete agir "com firmeza" caso surjam provas sólidas da implicação marroquina. Ele condenou as declarações recentes de dois ministros do Marrocos reivindicando que Ceuta e Melilla seriam territórios marroquinos. Pedro Sánchez pediu que o rei da Espanha visitasse as duas cidades nas próximas semanas.
A última visita de um soberano espanhol, em 2007, provocou uma crise diplomática com o Marrocos, que considera esses dois territórios como ocupados pela Espanha, ainda que não leve essa reivindicação à ONU e concentre seus esforços no Saara Ocidental.
Sobre esse tema, Madri apoia o plano de uma autonomia sob soberania marroquina. Mas, em julho, o primeiro‑ministro espanhol esteve na Argélia, e alguns analistas avaliam que o afluxo de migrantes de 30 e 31 de julho pode ter sido um recado de Rabat enviado a Madri.
No plano humano, embora a maioria dos migrantes que chegaram a Ceuta no fim de julho tenha partido, cerca de 5 mil, segundo o governo central, ou 10 mil, segundo as autoridades locais, ainda permanecem na cidade.
Com RFI
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.