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França acelera uso de inteligência artificial e anuncia investimento de € 655 milhões no setor

O governo francês decidiu intensificar sua estratégia para ganhar autonomia tecnológica diante dos Estados Unidos e China. Às vésperas da abertura da VivaTech, maior feira de tecnologia da Europa, em Paris, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou um novo pacote de € 655 milhões (cerca de R$ 3.844 bilhões) em investimentos em inteligência artificial (IA) e o início de sua utilização em larga escala nos serviços públicos.

16 jun 2026 - 07h22
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A iniciativa ocorre às vésperas da abertura da feira VivaTech, que chega à sua 10ª edição e acontece de quarta-feira (17) a sábado (20). A programação terá como temas centrais a inteligência artificial, a robótica e a soberania digital frente às gigantes tecnológicas dos Estados Unidos e da China.

O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, em sessão do Parlamento. Foto de arquivo de 23 de janeiro de 2026.
O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, em sessão do Parlamento. Foto de arquivo de 23 de janeiro de 2026.
Foto: AFP - STEPHANE DE SAKUTIN / RFI

Em um vídeo publicado nas redes sociais, o primeiro-ministro francês resumiu os objetivos da política: "Nossa responsabilidade é simples: garantir que essa revolução beneficie a população francesa", além de "proteger nossa soberania" e "fortalecer nossos serviços públicos".

Segundo Lecornu, após uma fase inicial de testes, o país entra agora na etapa de implementação em larga escala. "Não podemos depender de ferramentas desenvolvidas por potências estrangeiras", afirmou o chefe do governo, destacando que "os dados estatais são nossa riqueza e devem permanecer protegidos".

O novo aporte será feito por meio do programa público de inovação França 2030 e deve apoiar infraestrutura, capacidade computacional, pesquisa, empresas e setores industriais ligados à IA.

Ruptura com empresa americana

Dentro da estratégia de autonomia, Lecornu também anunciou que a Direção-Geral de Segurança Interna (DGSI), principal agência de inteligência interna da França, decidiu encerrar sua parceria com a empresa americana de análise de dados Palantir. A agência passará a trabalhar com a companhia francesa ChapsVision.

A decisão tem forte componente político e estratégico. A Palantir foi cofundada por Peter Thiel, empresário próximo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

"Não podemos aceitar novas dependências estratégicas no âmbito digital", afirmou Lecornu, ressaltando a necessidade de "construir uma verdadeira autonomia" e evitar dependência "da boa vontade de certos parceiros, capazes (...) de cortar o acesso" a tecnologias críticas.

A preocupação ganhou força após uma decisão recente do governo Trump, que ordenou à startup de IA Anthropic a suspensão do acesso aos seus modelos mais avançados - Claude Fable 5 e Mythos 5 - para "todos os estrangeiros", sob justificativa de "segurança nacional". A medida provocou reações no cenário político francês, com alertas sobre uma possível "guerra da IA" e a necessidade de independência tecnológica em relação aos EUA.

Pressão sobre ministérios e uso por servidores

Para acelerar a adoção da IA, o governo francês pretende incluir a capacidade de uso dessas ferramentas como critério nas decisões orçamentárias a partir de 2027. "A capacidade dos ministérios de usar IA será levada em consideração", disse Lecornu.

Uma das medidas práticas será a implantação de um chatbot de IA voltado ao funcionalismo público. Após testes com 10 mil servidores, o governo vai expandir a ferramenta para cerca de 1 milhão de funcionários públicos, de um total de 2,6 milhões.

Batizado de Assistente e desenvolvido com base em modelos da startup francesa Mistral, o sistema deve custar cerca de € 700 mil, aproximadamente R$ 4.108.370 no câmbio de hoje. As negociações com sindicatos sobre sua adoção estão previstas para começar no fim da semana.

O governo acredita que a ferramenta poderá agilizar tarefas administrativas, como a gestão de procedimentos legais e a análise de pedidos de financiamento acadêmico, além de reduzir o uso de ferramentas não autorizadas de IA, consideradas um risco à segurança de dados.

Saúde, segurança e serviços digitais

Os anúncios fazem parte de uma reorganização mais ampla dos serviços digitais do Estado francês, após um grande ataque cibernético que atingiu a Agência Nacional de Segurança de Documentos (ANTS) e comprometeu dados de quase 12 milhões de usuários.

Em meados de maio, o governo anunciou a criação de uma nova Autoridade Estatal de Inteligência Artificial e Digital, em parceria com a Agência Nacional de Segurança Cibernética (ANSSI).

Outros setores também devem receber tecnologias avançadas ainda neste ano. Os Ministérios da Justiça e do Interior terão acesso ao portal GenIAl, já utilizado pelas Forças Armadas, para "processar dados sensíveis" e "agilizar o processamento de vistos".

Na área da saúde, o site Ameli, plataforma do seguro nacional de saúde, contará com um "assistente de saúde pública" baseado em IA para orientar melhor os pacientes.

Lecornu afirmou ainda que a tecnologia permitirá ampliar o acesso a dados públicos - demográficos, econômicos, geográficos e administrativos - por meio de uma nova plataforma dedicada.

Com essas medidas, o governo francês busca consolidar sua posição na corrida global por inteligência artificial, equilibrando inovação tecnológica com autonomia estratégica e proteção de dados.

RFI A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
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